O ténis de Nick Kyrgios

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Hoje em dia, o ténis é o meu desporto favorito, pratico-o há mais de vinte anos, estou nos 60 primeiros nacionais de mais de 55 anos (não tenho feito muitos torneios e, uma crença consoladora, o jogo não respeita realmente o meu talento). Objetivo último: estar nos dez melhores nacionais dentro de cinco anos. Mas não é apenas porque o pratico que o amo, uma coisa não leva, necessariamente, à outra. A quantidade de harmonia que compõe o jogo (em jogadores como Roger Federer, mas também Novak Jokovic, David Gofin, Dominic Thiem, Denis Shapovalov, Gael Monfis…), a força dinâmica que projeta (Rafeal Nadal, Matteo Berrettini, Stefanos Tsitsipas, Milos Raonic...), ou o nível incrível de competitividade (os «big 3», claro, e Danil Medvedev, Andrey Rublev, Diego Schwartzan, Jannik Sinner…). Estas três dimensões (podia tê-las exemplificado com jogadores mais antigos, Peter Sampras, Andre Agassi, Roder Lever, Björn Borg, Mats Wilander…), que lhe são intrínsecas, aliadas a um respeito mútuo entre jogadores e jogadoras e uma certa elegância discursiva, com a exceção de uma franja da escola americana, fazem com que aprecie o ténis acima de todos os outros desportos. Não vou tão longe, é verdade, como David Foster Wallace, cujo artigo sobre a experiência religiosa que emana do jogo de Roger Feder assinala que o ténis soube atrair e desenvolver talentos divinos («Roger Federer as Religious Experience»). Mas estou perto de considerar que sem o ténis faltaria qualquer coisa de fundamental ao desporto, e escasseando no desporto a vida sairia diminuída.

Além disso, quando temos a disponibilidade para ler comentários de jornalistas de regiões com uma tradição forte no ténis, encontrámos análises e comentários brilhantes, como se o ténis estimulasse o pensamento e o estilo discursivo, obrigasse a uma elevação do logos para estar à altura do que se quer comentar. Foi isso que, mais uma vez, encontrei num artigo de Rémi Bourrières, para o Eurospor.fr, sobre Nick Kyrgios. Kyrgios é o mais estranho dos grandes jogadores atuais, simultaneamente conectado e desconectado com o ténis, capaz dos gestos mais incríveis e dos erros mais infantis (e no ténis, como diz Toni Nadal, uma jogada fabulosa vale tanto, quantitativamente, como um erro não forçado), competitivo e indigente, analítico e lírico, coerente e contraditório. O que o artigo de Rémi, que tentarei traduzir já a seguir (com margem para variar, o jargão desportivo é bastante idiomático), nos diz é que, finalmente, Kyrgios não faz mais do que ser o que é, vindo, aliás, a tornar-se cada vez mais igual a si. E isto, além de ter interesse para o ténis, leva-me a recordar a célebre máxima de Píndaro, retomada por Nietzsche: «Torna-te o que és!».

O texto é de sete de julho, está, pois, um pouco desatualizado. Mas creio que aguenta estar fora do tempo dos factos, e este é um bom critério para avaliar a sua qualidade.

«Ainda que se unam pelo talento e a precocidade, parece ser difícil haver mais oposição do que a que separa Nick Kyrgios e Felix Auger-Aliassime, que se enfrentarão este sábado [9 julho] num dos embates mais aguardados da terceira ronda de Wimbledon [Kyrgios desistiu quando a partida estava empatada a um sete].

Entre o jovem canadiano, estudioso e um pouco tenso, que parece colocar todas as possibilidades do seu lado, mas que ainda não ganhou qualquer final no circuito, e o seu opositor australiano, diletante e festivo, capaz de arrasar em cinco setes um jogar tão em forma como Ugo Humbert, sem antes ter jogado qualquer encontro há cinco meses (e não dando a impressão de se empenhar muito nos treinos), julgaríamos ver o aluno comprometido da primeira fila e o cábula desatento do fundo da sala que vão fazer o mesmo exame.

Qual dos dois terá, no fim de contas, a melhor carreira, se nos pudermos pôr de acordo sobre o que significa uma boa carreira? O futuro o dirá. Mas se há um que o deseja arduamente, podemos apostar que é Auger-Aliassime. Quanto a Kyrgios, há muito que deixou passar a mensagem de que nunca consentirá efetuar os sacrifícios necessários à vida de um jogador de topo.

A sua atitude na pandemia, durante a qual preferiu ficar em casa em vez de defrontar os constrangimentos sanitários para uma hipotética caça aos pontos (como o fez a sua compatriota Ashleigh Barty), não alimentou qualquer equívoco: em Kyrgios, o bem-estar pessoal estará sempre à frente das suas ambições desportivas.

No começo, aureolado pelas grandes esperanças que provocou nos juniores e depois na sua chegada tonitruante ao circuito, um quarto de final em Wimbledon com 19 anos, em 2014 — nunca conseguiu fazer melhor —, Kyrgios viu-se, também ele, provavelmente, como cabeça de cartaz. Mas só recolheu desilusões, uma pressão devastadora que não conseguiu suportar, e, no final, um certo mal-estar, que o vimos transportar de torneio em torneio, entre partidas oferecidas, derrapagens incontroladas e uma atitude por vezes arrogante. Kyrgios estava, muito simplesmente, infeliz.

Depois, passo a passo, o australiano corrigiu o tiro, reviu as suas próprias expetativas sobre o circuito, de que não gosta nem dos códigos, nem das rotinas, nem do espírito muito básico. Pouco a pouco encontrou o seu lugar: a do batedor imprevisível, rei do golpe matreiro, intermitente do espetáculo, de acordo com as suas palavras. Para tal é preciso, evidentemente, ser genial, confiante, poderoso e ter um carácter meio cabotino. Na realidade, talvez só haja no mundo uma pessoa (e não mais) capaz de jogar tão bem tendo-se preparado tão pouco [o autor deve querer referir-se a Roger Federer]. E é nisto que Kyrgios é único. Depois do sucesso contra Mager [Gianluca Mager, tenista italiano], o nativo de Canberra voltou a martelar a sua posição: sente-se bem com a ideia de nunca vir a ganhar um Grand Chelem, se esse for o seu destino. De qualquer forma, fixou-se outro objetivo: fazer soprar um vento de frescura no ténis, quebrando os códigos e comunicando à sua maneira, simultaneamente provocadora e sem filtros, tentando conquistar novos fans. E isto, é preciso reconhecê-lo, fá-lo muito bem, bastante melhor do que qualquer inovação apressada.

Não nos enganemos: se Kyrgios escolheu a via do entretenimento, foi antes de mais porque, consciente ou inconscientemente, não suportou a pressão inerente às mais elevadas ambições. Podemos lamentar-nos por ele, lamentar que uma tal pedra preciosa não tenha ainda um ou vários títulos do Grand Chelem no seu ativo. Mas, pelo menos, soube encontrar o seu lugar no circuito, ao contrário de tantos outros talentos desperdiçados, perdidos na engrenagem do sport-business.

Atualmente, em perfeita congruência entre o que é e a maneira como joga, Nick Kyrgios tornou-se, incontestavelmente, muito útil para a causa de uma disciplina que diz não amar. A sua postura reenvia-nos para uma questão existencial do desporto moderno, sobretudo quando é tão mediatizado como o ténis: é possível estar no topo sem ser uma partícula aborrecida, constrangido por atos repetitivos, falhas sistematicamente dissimuladas e asperezas continuamente aplanadas? Nick Kyrgios, quanto a ele, escolheu ser ele próprio, indomesticável e selvagem. Continuará assim, quer venha, ou não, a glória bater-lhe à porta.»

Searas e Sémen  

                                                                                               Para a Cátia,

 

Uma seara dourada atravessada por uma estrada estreita

Em direção a uma aldeia cujo nome esqueci, tu,

Serás sempre jovem naquele verão em que te gravaste

No meu hipocampo com o sal da tua pele bronzeada,

O desejo não cabia no teu pequeno carro,

Estava quente a tarde, o teu peito pedia a amplitude

Das searas e a contenção desregrada das minhas mãos

Que fingiam uma experiência que a fome desmentia,

Serás sempre jovem enquanto os verões

Continuarem a amadurecer o cereal e os teus filhos crescerem,

Enquanto neste sol de julho eu puder fechar os olhos

E entrar uma segunda vez em ti, sentindo ainda quente

Do meu corpo, jorrando de ti, o meu primeiro esperma.

 

Turku

 

14.07.2021

 

A Partir de Um Provérbio Grego

A. E. Stallings em Like
(publicado também em Futures: Poetry of the Greek Crisis e aqui.)
Tradução de Tatiana Faia.

Ουδέν μονιμότερον του προσωρινού

Estamos aqui por enquanto, é o que respondo à pergunta –
É só por um par de anos, dissémos, faz doze anos.
Nada é mais permanente do que o temporário.

Jantamos sentados em cadeiras desdobráveis – baratas mas alegres.
Colámos com fita-cola o vidro da janela partido. A TV ainda não sintoniza.
Estamos aqui por enquanto, é o que respondo à pergunta.

Quando atravessámos a água, trouxémos só o que podíamos carregar,
Mas há sempre caixotes que não tornamos a abrir.
Nada é mais permanente do que o temporário.

Às vezes quando me sinto choramingas, propões uma teoria:
Nostalgia e gás lacrimogénio têm o mesmo travo acre.
Estamos aqui por enquanto, é o que respondo à pergunta –

Escondemos ossos no armário quando não temos tempo de os enterrar,
Enfiamos recibos em envelopes, arquivamos papéis em pilhas.
Nada é mais permanente do que o temporário.

Faz doze anos e ainda estamos a comer do de costume:
Deixámos para trás a loiça do enxoval, com receio que estalasse.
Estamos aqui por enquanto, é o que respondo à pergunta,
Mas nada é mais permanente do que o temporário.

O que de Nós Fica 

 

Que triste o que de nós fica, uma perna de pau, um andarilho, 
Uns calções porque morremos no verão e uma t-shirt velha, 
Porque foi tudo à pressa e nem tempo tivemos de nos despedirmos, 
Quase uma vida enfiada em rodilho num saco de plástico, 
Branco como o tecido de papel que nos cobre, tudo uso único, 
Pendurado num punho do andarilho, onde apoiávamos o cansaço, 
A escultura grotesca do essencial de uma vida, 
Que dois homens, tresandando de desodorizante barato, 
Vem buscar, e no caminho da patologia, falam dos casos 
Novos de Covid, trazidos de São Petersburgo, depois 
Do país deles ter sido eliminado, parece impossível que a vida 
Continue quando deixámos de ser, mas o mundo realmente, 
Nunca precisou de nós, fomos tudo e num momento nada, 
O que tocámos continua e por vezes um desconhecido, 
Que passou a noite inutilmente a agarrar-nos à vida,  
Escreve-nos um poema, como se não fosse também em vão. 

 

Turku 

27.06.2021 

 

Pedro Ludgero, Um pouco mais ou menos de serenidade

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 S.l., Edição de Autor, 2019

                                    A poesia é a vida exacta (a mesma forma, a mesma cor) (45)

  

Um pouco mais ou menos de serenidade, publicado em 2019 em edição de autor, reúne textos de Pedro Ludgero escritos entre 2004 e 2008. Unidade composta por 83 poemas de uma grande amplitude temática e experimentação formal: do poema visual de “poema com pés e cabeça” à experimentação gráfica de “prosa tintada”, em que algumas das palavras são destacadas a vermelho, o corpo de texto da poesia de Pedro Ludgero desestabiliza uma leitura linear do poema e potencia a expressividade do texto no cruzamento entre a dimensão verbal e visual. Contra uma leitura rápida, a leitura de um pouco mais ou menos de serenidade impõe uma desaceleração, ditada pela inovação formal, e pelo cuidado que é exigido à compartimentação dos textos numa espécie de etiquetas, dispostas no final da página. Os poemas aparecem assim como pertencentes a um ou mais grupos que os unem temática ou formalmente, como o grupo das artes poéticas, ou os grupos albas e micro-heteronímia. Organização formal que remete para a experiência do texto em linha, e para novas formas de leitura através dos blogues e das redes sociais. A desaceleração acontece também na captação da intensidade com que a linguagem é explorada,  (para além do português, línguas como o inglês, francês, o espanhol e ainda o alemão são usados), expressividade da língua potenciada pelo uso recorrente de neologismos criados a partir de vários recursos, como por exemplo: “um rio diospira-me” (23), “o leitor tem de adorme-ler” (27) “Preia-pássaro” (23), ou a partição no interior da própria palavra: “a-paguem” (24), “inteira-mente” que pede uma leitura lenta,  intensificando o poder sugestivo e expressivo da palavra. Em Um pouco mais ou menos de serenidade o neologismo chega a ser criado com recurso ao uso de diferentes línguas, como por exemplo “offacordo /offortograf” (24) e é destacado como processo na própria reflexão do texto: “que só amo a alegria como neologia” (25).  O poder expressivo da pontuação é também amplamente explorado enquanto recursos gráficos e visuais que determinam a mancha e o corpo textual, tal é o caso do poema “Voyager golden record” (26). A amplitude de vocabulário da poesia de Pedro Ludgero reflete o uso de diferentes registos de linguagens, do mais popular ao mais erudito, servindo-se muitas vezes do trocadilho e do jogo de palavras: “amorosa morosa” (28), “gravidez gravidade”, “sobre a peça do ego / sobre uma peça de lego” (60), “ser de cedilha” e usando de expressões provenientes do mundo do cinema e da música, áreas da formação e atividade profissional do autor, como no poema “Director’s cut”: “I have a plan / (be) / to clean a river: / CUT TO THE BEAUTY” (25), ou no poema inicial “Agitato”, “hino da alegria”, “Lullaby” ou “unplugged”, presente em expressões como “capriccio e adaggio”. Do mundo da música podia ser retido um fazer poético que se interessa por diferentes movimentos –, com uma atenção cuidada ao ritmo e à valorização fono-simbólica da palavra, trabalhada aqui no contacto com diferentes camadas expressivas o visual, o som, o sentido, no diálogo com a arte e no compromisso com uma ampla expressividade da língua, unidade poética que confere ao humor uma dimensão dignificante, como na proposta: “Experimente dizer / ssôôoól” (70), que pede uma experiência de estranhamento da palavra, contínua e reforçada ao longo desta unidade, há um olhar sobre a linguagem que remete para o olhar da criança, a poesia de “um pouco mais ou menos de serenidade” parte da perspetiva de uma desautomatização de um estado adulto e adulterado da linguagem, propondo uma linguagem em transmutação, correspondente a uma realidade complexa que não pode ser limitada por estruturas acabadas. A complexidade do texto de Pedro Ludgero é manifestada através do humor de uma forma desmistificada que faz lembrar por vezes a expressão usada por Alexandre O’Neill de desimportantizar usada em Entre a cortina e a Vidraça (1972): “Que quis eu da poesia? Que quis ela de mim? Não sei bem. Mas há uma palavra francesa com a qual posso perfeitamente exprimir o rompante mais presente em tudo o que escrevo: dégonfler. Em português, traduzi-la-ia por desimportantizar, ou em certos momentos, por aliviar, aliviar os outros, e a mim primeiro, da importância que julgamos ter. Só aliviados podemos tirar o ombro da ombreira e partir fraternalmente, ombro a ombro, para melhores dias, que o mesmo é dizer, para dias mais verdadeiros.” (7). Há na poesia de Pedro Ludgero uma ideia de alívio que parte também desta proposta, a profundidade desta unidade parte também de um contacto com a ideia de sublime, (palavra que serve uma das etiquetas pelas quais os textos se organizam), mas que se afirma definitivamente como um sublime humanizado, entre coisas humanas, um sublime precário e perecível, à nossa escala, que não deixa, no entanto, de ser continuamente redefinida. O gesto de desimportantizar é vital aqui, na resistência a uma solenidade que pode ser artificial e desumana, afastada definitivamente de nós, a poesia de Pedro Ludgero reivindica um exercício de aproximação e de adentramento, um apelo à presença das coisas.  Um “tirar o ombro da ombreira” para partir “ombro a ombro” numa viagem intensa esta transparência parte de propostas múltiplas, concretas, definidas, feitas de encontros humanos, propostas como esta: “por favor não faça batota / não perca o porte nem o passaporte” (74), que partem de um contacto e de uma quebra da idealidade num livro singular de uma voz autenticamente própria e única na nova poesia portuguesa.

 

Nuno Brito, 16 de Dezembro de 2020.