Lançamento de "A cadeira (do) Fantasma: Cinema excêntrico" de Fernando Guerreiro

Lançamento do livro "A Cadeira (do) Fantasma: Cinema excêntrico" de Fernando Guerreiro. 5 de Novembro, 18 horas, livraria Linha de Sombra (Cinemateca Portuguesa/ Museu do Cinema, Lisboa).


Com a presença do autor, do editor Victor Gonçalves, e apresentação de José Bértolo & Luís Mendonça

KRAKATOA É MAIS PERTO QUE O VESÚVIO (parte I)

o meu tumulto assombra-te, eu sei

algo que incandesce eletrifica
o ar suspenso entre nós 

este sempre entre os livros este
entre a voz minha que lê com a voz sua que lê
as vozes acendem assim como os corpos no escuro
os nossos corpos acesos no escuro nós
a pele do mundo 

tudo bate tudo toca
na ponta e sua secreta incandescência
o jeito de lava do mesmo vulcão e 

se houvesse de ser aqui um vulcão que nos liga esse vulcão teria a tua terra virgem meu elemento fogo a lava de dentro de um monte de terra que escorre e talvez esse seja o vulcão o que é um vulcão / o que mata um vulcão / o que tira um vulcão da

dormência / onde explodir / onde descer / o que reativa / o que ativa o vulcão e o coloca em ação na sua atividade de

vulcão

derramado por cima de uma cidade construída uma cidade telha a telha
a sua cidade invisível inundada por mim
a minha lava dentro do teu pedaço de terra busco jeitos de adormecê-los 

mas

 

não quero

 

um rosé vulcânico
a pedra de bolonha no barthes pedaço vulcânico
como o pedaço de lua que aqui pisamos
a lua em gémeos refletida o mesmo
pedaço vulcânico
é o lunário do equinócio tangerina
a mesma cor que combina com todos os tons de pele eu gosto do seu tom de pele

a pedra vulcânica a mesma de bolonha uma história da literatura

não

uma teoria literária
a universidade mais antiga do mundo uma materialidade inexistente em atos o verosímil

A segunda parte do poema pode ser lida aqui.

Dois poemas de Antonio Delfini

Tradução: João Coles


Não te conheço
nem vou querer saber quem és
somente um candeeiro
nos dirá
do nosso encontro
um candeeiro que se apagará
um candeeiro que não dará mais luz
um candeeiro que um dia
não nos dirá
mais nada
esquecido
o nosso encontro.


Caluda caluda
que vem aí o poeta
deixemo-lo passar
falem baixo meninas
abram as janelas
com suavidade
Numa cidade
de trinta mil habitantes
em mil novecentos e trinta e dois
ainda há gente
que espera que o poeta
passe
com o seu passo mortiço
Esperam que ele passe
não por respeito
mas porque é tão curioso
ver um poeta
com um casaquinho
apertadinho apertadinho
Mesmo as raparigas
mais modernas
esquecem por um minuto
o alfa romeo...
para ver o poeta
e rir
rir tanto
daquele seu casaquinho
coitadinho
tão pequenino.

In Poesie della fine del mondo, Einaudi


Non ti conosco
non vorrò sapere chi sei
soltanto un lume
ci dirà
il nostro incontro
un lume che si spegnerà
un lume che non farà più luce
un lume che un giorno
non ci dirà
più niente
dimenticato
il nostro incontro.

Zitti zitti
che c’è il poeta
lasciamolo passare
fate piano ragazze
aprite le finestre
con dolcezza
In una città
di trentamila abitanti
nel millenovecentotrentadue
c’è ancora della gente
che aspetta il poeta
passare
col suo passo smorzato
Lo aspettano passare
non per rispetto
ma perché tanto curioso
vedere un poeta
col giacchetto
stretto stretto
Anche le ragazze
più avanzate
scordano per un minuto
l’alfa romeo…
per vedere il poeta
e ridere
ridere tanto
su quel suo giacchettino
poverino
tanto piccolino.

In Poesie della fine del mondo, Einaudi

o “canto um” de “L'été langue morte” de Bernard Nöel

tradução a partir de L’été langue morte (1982), presente no volume La chute des temps, Bernard Nöel, Éditions Gallimard (1993)

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o mundo não acabou
e quando o vento se levanta
o nosso rosto é diferente
o amor desfaz o amor
para se tornar mais do que ele mesmo
quem vai morrer
sabe que a beleza é inexorável
eu observo o teu sopro
tu evaporas-te
o obscuro do tempo é uma unha
atrás do olho
seria preciso segurar a língua
até ao começo do mundo
a luz é terrífica
o mar não cessa
tu procuras um ponto por entre o dia
o presente é sem objectivo
sem contorno
e o cume das pedras
não conhece a sua sombra
aquilo que me pára
sou só eu
a minha cabeça demasiado numerosa
um sentido
uma dúvida
não basta ver
o olhar fez cair de mim
todo o visível
a língua lança em vão uma ponte
para reparar
cada sílaba é o eco
travesti de um adeus
pétala de ar
quem és tu
tu faltas-me no teu nome
ah tornar-se o antigo de si mesmo
é falar
o sopro faz no espaço
menos que um reflexo sobre a água
esta noite
a música é uma ilha sobre a ilha
e a sua margem
um anel de olhos
pousado
todo o centro é vazio
mas o nada onde se apagam os passos
come o nosso chumbo
o osso areja
e eis o Outro
o delegado do desejo
quem dança
o seu passo escreve sem traço
um instante
uma medida
onde o perdido carrega o que vem
o tempo deita-se sob o tempo
de repente
o vazio do anel
torna-se o vazio do aberto
o O
de um grito que nos atira
pelo ar
a arte
não é eficaz
o desejo também não
deixemos a eficácia para a roda
e digam-me onde é o seu começo
os caminhos não fazem sinal
eles são caminhos
simplesmente
a língua desaparece sob as pedras
estar aqui é suficiente
no entanto
quem conhece o instante
nós fugimos ao pensamento no pensamento
lembras-te
ele era esse monte de cabelos
sem boca
apenas a tua sombra o cobria
não há sujeito
não há profundidade
apenas o esquecimento
onde vamos para pecar
e por vezes é tão bonito
aqui e ali brincam juntos
o céu esconde a mesma coisa
que o mar
toda a forma diz NÃO ao vazio
mas
o intervalo fazes tu
eh que posso eu
se o azul não é tão belo sobre os teus lábios
como ao longe
nós procuramos por todo o lado o em lugar nenhum
de uma outra terra
o perecível
está nos nossos olhos
a luz verte-se para fora
é o suor das coisas
escuta
eu não tenho nada sobre a língua
mas digo
estar aqui é muito
e pela primeira vez
ouvimos o ar amarrotado
sob a asa do pássaro
uma andorinha
o único é sem limite
eu não arrumo na minha cabeça
o uma vez
esta vez perde-se no ter sido
e uma vez resta uma vez
como o vento sobre a mão
escuta
ninguém imagina ser
senão nós
e isso faz de nós a besta
de um labirinto de ar
onde cada um só se vigia a si mesmo
entre o dito que morre e o não dito
que vai morrer
a boca é o remetente
do exprimível
a morte
perde o fôlego
e a vida
dança
alto
depois nada
vírgula sexual
palavras em demasia
acreditámos no poder da palavra
e a terra ferveu
onde está a nossa casa
se a minha língua apaga todas as portas
as palavras imitam um segredo
que sacodem
eu escrevo por amor dos olhos
que são o meu conteúdo
rosto rosto
não há candeeiros suficientes
e livros demais
mas o mar está aqui
imóvel
e nessa imobilidade
a linguagem reconhece a sua promessa
olha
a imobilidade chama o vento
o estado de angústia está ligado
à gota em movimento
assim vai a palavra
na ilusão que se desfaz
nada será seguro
a própria ideia abisma-se
na ideia
que história
entre ti e o mundo
que palavra-a-palavra
contra natura
os olhos da minha amiga estão na terra
aquela que me dizia Canta
agora
escrevo
cada linha come
o que a terra já comeu
miséria
miséria
eis que vem a mentira
a quem se dirigir
a quê                                   
uma noite
nós fomos
eu sobre ti
e a chuva sobre o telhado
sim
ninguém fala com ninguém
mas as nossas línguas por vezes
são as de duas bestas
que brincam e se entendem     
sim
o que é que é possível
o desejo
a usura do desejo pelo desejo
e no entanto
tu fazes parte de mim
como o sopro faz parte
da boca que abandona
eu queria
como viver
eu queria
eu queria examinar em mim
aquilo que precisa de querer
e aí os meus lábios procurariam
a fenda
e tu dirias
mostra-me o rosto
e haveria
aqui mesmo
o face a face
de mim e do meu esquecimento
mas quê
o que é que está em jogo
escrever
pousar aqui
uma palavra-buraco
pousar a minha boca
e que este O
seja o aberto
de uma bela loucura
agora 
agora
agora