"Dante e os poetas contemporâneos" - entrevista a Pier Paolo Pasolini (1965)




Por ocasião dos 700 anos do nascimento de Dante, Pasolini aceita dar uma entrevista à rádio cuja transcrição permaneceu inédita até 1999, mais tarde publicada na edição Meridiani Mondadori em Saggi sulla letteratura e sull'arte.

Pasolini é submetido a um questionário de 11 perguntas:


1. A era de Dante apresenta as características de uma grande civilização que atingiu o seu auge e se vira, já, para o declínio, ou – se preferirmos – em vias de transformação para uma nova civilização que dali a pouco tempo se configuraria e se definiria por humanismo. Alguns dos aspectos da época em que vivemos – crise da cultura “burguesa” no sentido tradicional, e o delineamento de um novo humanismo – parecem indicar que um fenómeno semelhante se está a produzir no nosso século. Qual é a sua opinião acerca disto? Dirigimos-lhe esta e as seguintes perguntas apelando, naturalmente, à sua pessoal e viva experiência de poeta.

Parece-me uma pergunta demasiado “adequada” às circunstâncias contingentes das celebrações, e, por isso, pouco científica. Só nas histórias da literatura idealistas e românticas nos deparamos com semelhantes figuras de poetas que se agigantam entre uma época e outra, numa toponomia absurda onde uma Câmara está ao lado de uma Senhoria, uma Senhoria a um Estado, etc., etc., tal como num brasão popular. Dante não pairava fora da história, nestas prefigurações maníloquas de história futura: ele estava dentro da sua Florença e da sua Itália apenínica, e é ali dentro que o amamos. A partir do momento que o extraímos dali, torna-se num poeta oficial, ou, melhor, e digo-o com horror, num símbolo nacional, ou num símbolo universal: dois símbolos falsos e feios, ambos. Como se sabe, Dante teve uma grande ideia, a de usar a língua vulgar, mas também teve outra grande ideia, a de usar as várias línguas das quais essa língua e todas as línguas são compostas. O que demonstra a substancial democraticidade de Dante em pleno século XIV: se é que ele não usa o vulgar como possível língua institucional e literária para se opor em bloco ao latim, para o substituir na mesma função universal e meta-histórica. Se for articulado nas suas várias sub-línguas ou línguas sociais – da língua da aristocracia à língua dos malfeitores, do jargão literário à língua familiar, etc., etc. –, significa que a função do vulgar reflectia um momento real da sociedade. Mesmo sem recorrer ao determinismo de uma dada estética marxista dos anos 50, e remetendo-nos à revisão realizada sob o determinismo de Goldmann, é claro que a poesia de Dante tem estruturas homólogas às da sociedade municipal florentina: e as várias sub-línguagens encontram o seu princípio numa experiência de lutas sindicais, que opunham dramaticamente categoria social contra categoria social. Neste sentido, não me parece que Dante prefigure de forma alguma o humanismo iminente, e que, aliás, não prefigure de forma alguma nenhum momento da Itália futura: se ele porventura prefigurou algum momento ideal da evolução democrática das burguesias europeias, saltando todo o humanismo, foi o renascimento e a contra-reforma em Itália.


2. A atitude que Dante, homem e poeta, assume em relação aos problemas suscitados pela realidade imanente e transcendente do seu tempo, pode reflectir-se na posição que o escritor de hoje – enquanto homem e poeta – assume em relação aos problemas da nossa época? Sem dúvida que em Dante o compromisso do homem e o compromisso do poeta coincidem. Considera que para os poetas de hoje é possível uma semelhante coincidência?

3. Directamente relacionada com a pergunta anterior: e o resumo do real na sua totalidade (moral, filosofia, teologia, história, política, ciência), que faz do poema de Dante um documento talvez único na história universal da poesia, pode ser, hoje, repetido?

4. Particularmente na Divina Comédia, Dante tentou e efectuou a conciliação entre poesia e ciência. Hoje, numa situação bem mais dramática neste aspecto, considera possível esta conciliação para os poetas actuais, e que a mesma é indispensável e essencial àquilo que deve ser a poesia e à função que deve desempenhar: noutras palavras, à sua existência e à própria sobrevivência?

5. Dante acredita na palavra, que nasce nele através do mesmo acto de fé que o dirige a Deus, que também é palavra, através da qual a [palavra] humana atinge a sua verdade e a sua substância. O poeta de hoje, segundo se diz, duvida também da palavra, tal como de tudo. E, no entanto, agarra-se a ela, para fazer dela espelho do seu desespero, mas também como um acto extremo de fé. Não lhe parece que esta posição se aproxima, de certa forma, da concepção que Dante tem da função da poesia?

Também as perguntas 2, 3, 4 e 5 – peço desculpa, mas parecem-me perguntas radiofónicas, às quais uma pessoa pode responder sim ou não indiferentemente, dependendo do humor.


6. No panorama da poesia do século XX, existem algumas figuras representativas nas quais a presença de Dante é claramente perceptível, embora de forma e em certa medida diferentes. Basta apontar para Ezra Pound, Thomas Stearns Eliot, Saint-John Perse. Considera-os casos isolados, ou sintomas de um renascimento dantesco?

Disse, ao responder à primeira pergunta, que Dante prefigura, quando muito, em vez do humanismo italiano, etc., alguns momentos da evolução democrática burguesa na Europa do século XVI em diante. Pois bem, eu pensei em tudo excepto nos nomes referidos nesta pergunta. O uso que Pound ou Perse fizeram de Dante foi um uso arbitrário e estético, alinhado, tal como sucede com os poetas chineses... Há uma espécie de processo degenerativo da cultura europeia do século XIX graças ao qual os textos da história literária são postos fora de contexto histórico, colocados numa plataforma meta-histórica que deturpa os seus significados. Tal plataforma é o laboratório do poeta (o laboratório, entenda-se, é um lugar extremamente poético), e aí os significados de uma obra estão sujeitos a violências deveras sádicas. Dante em Pound é exactamente como um judeu nas mãos de Hitler.


7. Especificamente no campo linguístico, técnico e expressivo, considera que a lição de Dante conserva a sua validade e, portanto, a sua actualidade? Pessoalmente, nas suas experiências concretas na página, retirou alguma vantagem da convivência com a poesia de Dante?

10. Em Dante recai o mérito de ter criado a língua italiana. Mas na evolução desta, o contributo de Petrarca e de outros autores teve maior peso. Neste aspecto, parece-lhe que na poesia italiana do século XX, particularmente a do pós-guerra, a presença de Dante seja menos evidente que a de Petrarca? E, caso a resposta seja afirmativa, quais são, na sua opinião, as razões?

11. Hoje podemos avaliar, em toda a sua dimensão, a revolução linguística de Dante, aplicada, sobretudo, na Divina Comédia. Partindo de tais considerações, e traduzindo os conceitos em termos modernos, considera arrojado falar, a propósito de Dante, de experimentalismo linguístico?

(7, e em parte, 10 e 11) Houve nos anos 50, no seio de um grupo de especialistas muito empenhados nisto, com base num famoso ensaio de Contini, uma espécie de assunção de Dante a símbolo. O seu multilinguismo, as suas técnicas poéticas e narrativas, eram formas de um realismo que se opunha, uma vez mais, à Literatura. Pelo que eu, da forma como trabalhava naqueles anos, pensava em Dante como uma espécie de guia, cuja lição, menosprezada ou mistificada ao longo dos séculos, havia recomeçado a actuar na Resistência. Agora, essa ideia de realismo dos anos 50 parece, e está, superada: e com ela esmorece a interpretação dantesca da «pouca companha» [1] que dizia eu.

8. Repreende-se os poetas de hoje pela tendência a recolher e colocar em evidência os aspectos negativos do nosso tempo (que são, sem dúvida, predominantes) em vez dos positivos (que são poucos, mas existem); tendo em consideração a ideia de crise como factor determinante, que confere a priori validade à inspiração, aos temas abordados, às soluções formais. Considera, pelo menos parcialmente, fundamentadas essas evidências? E, caso a resposta seja afirmativa, pensa que Dante, com o equilíbrio entre a participação na realidade histórica do seu tempo e a afirmação da sua pessoa e dos valores da sua fé, consegue encarreirar os poetas de hoje para uma visão mais clara dos problemas da nossa época e das dificuldades expressivas que estes comportam?

Prefiro o Lager de Pound a este tipo de função do poeta que a oitava pergunta implica, em nome do bom senso e da opinião média e, por isso, oficial. Dante passou uma vida atormentadora em exílio por ter dito não a pretensões semelhantes do establisment, facilmente antedatáveis no seu tempo.


9. Mais especificamente, considera possível, hoje, a recuperação dos valores em que Dante acreditava, ou, pelo menos, de valores equivalentes? Ou pensa que o percurso da história nos encaminha para a aquisição de valores totalmente diferentes, como alternativa? E quais seriam, na sua opinião, estes novos valores?

«Mais especificamente», creio que a recuperação dos valores em que Dante acreditava não é possível, sempre graças ao caminho anti-dantesco que a Itália tomou, até chegar à contra-reforma e à actual burguesia, profundamente inimiga de qualquer tipo de realismo, mesmo o religioso. Recuperar esses valores através da elaboração das grandes burguesias europeias que perpetuaram, de algum modo, o espírito municipal, é igualmente impossível, porque os valores do neocapitalismo não são religiosos, nem equivalentes, a não ser num sentido aberrante, aos religiosos. É claro que por trás de cada técnico se esconde um místico: porém, que místico?

[1]. Versos 100-102 do Canto XXVI da Divina Comédia.

Eduardo Quina, Consanguíneo - nota de leitura

O último livro de poesia de Eduardo Quina, Consanguíneo, Officium Lectionis Edições, 2021, traz o esplendor de uma poesia que talvez ainda não se tivesse revelado totalmente. É como se finalmente o rio, ou rios, chegasse ao delta e aí justificasse todo o caminho, cheio de imprevistos e de tentativas, precedente. Não se trata, porém, de um «esplendor» qualitativo, uso o termo para traduzir uma emergência avassaladora. Resultado de um esbatimento da tensão antagónica entre as pulsões de vida e morte, agora desaguamos numa única grande, incalculável economia do thanatos, percorrida por uma violência autoengendrada.

Para quem acompanha o exercício poético (movimento de um corpo pleno) de Eduardo Quina, verá em Consanguíneo (uma irmandade de sangue trágica: «o processo ôntico e fúnebre / da consanguinidade») o extremar de um horizonte de sentido (mais total do que parcelar, mais de arrebatamento do que de discernimento) que habitava já os seus poemas anteriores. A linguagem (clara/obscura), o bem/mal (metafísicos, sobretudo), deus (presente/ausente), a redenção, o desespero, a dor, a morte, várias formas de abismo, um pouco de luz (inesperada e limitada, avarenta e fugidia).

Consanguíneo é um manifesto que ilumina a escuridão (mas a claridade gasta-se logo à entrada das trevas e o excesso de lucidez, que poderia alinhavar artimanhas ontológicas, queima), rastos da luz que presidiram ao começo do mundo, no qual o divino palavroso fez tudo mal feito, «afinal somos o projecto falhado dos deuses», e depois, com a nossa cumplicidade, remediou a incompetência com um tecido de ilusões, um deus que «descansa de todas as mortes» (uma soberania divida fundada no bem seria capaz de, imediatamente, originar uma vontade geral boa). O ofício do poeta (porventura anódino: «o sacrifício inútil da poesia»; «a poesia nada pode»; «a poesia é uma farsa.»…)  é, sem qualquer convicção épica, traduzir em palavras, com estas exatas palavras, a «nossa dor insuportável e definitiva». O que seria da dor se as palavras, aparentemente redundantes, não lhe dessem voz? Se o livro insiste na irrealidade da redenção, o que seria de nós se o poeta não abrisse, também ele, a caixa de Pandora, e nos dissesse que mais fragmentos de niilismo se soltaram logo no primeiro gesto de curiosidade perverso de… talvez deus? Nos dissesse isso, e desta forma — como quem angustiado por uma espada de Dâmocles conhece, finalmente, o desfecho sangrento — nos desiludisse: as coisas são assim, se aguentares mereces ver-te ao espelho sem te enojares. Mas o teste é exigente: «crianças brincam / na dor imensa / de serem mortais. / deus não lhes fala: / é o enigma da cegueira.» ou

«a criança espera pacientemente os predadores
 construindo através de pequenas linhas
as gaiolas
onde os intermináveis pássaros negros
esperam resignadamente
as vozes e os vultos da fome

[uma simetria da doença de deus]»

Quando olhamos para a composição do livro, percebemos, desde logo pelos capítulos — «Morrer ou Enlouquecer»; «O Jogo da Cabra Cega»; «Natureza Morta»; «Maligno»; «Ausência»; «Labirinto»; «Cegueira»; «Epitáfio» —, que colocar O Triunfo da Morte de Pieter Bruegel na capa não foi um acaso estético. Consanguíneo é uma epístola, talvez laica, sobre o morrer e a via despida, desgraçada que nos conduz até lá. As positividades são demasiado dolorosas (encenadas num teatro da crueldade com mães e filhos sem afetos, o cordão umbilical rasgado a golpes de desespero, a dor em cada segundo de vida, um deus da facécia e da impotência, uma linguagem que esfaqueia os bem-intencionados) para que uma negatividade, à maneira da fenomenologia sartriana, traga o que quer que seja de bom (é que «os pulmões são feridos pela respiração»). Talvez aqui haja essa radicalidade do mal que Hannah Arendt quis, numa estratégia anti-messiânica que se percebe, suprimir. Um mal metafísico que impede, por isso mesmo, a redenção:

«tens o corpo tombado sobre as flores:
O eco de uma outra língua
Esquecida no passado

Quando cristo chegou estavas morto:
O rosto desfigurado pela verdade

[depois as palavras da ressurreição:
Estavas novamente pronto para o sofrimento]

Eduardo Quina conclui o livro com um epitáfio, a última estrofe diz: «precisava tanto que não tivesses morrido». Se lançarmos este apelo noutra direção talvez acabemos por apanhar um «precisamos todos de viver», transformando o abismo do abandono num amor fati que exulte com a nossa condenação à liberdade. Se o olhar de deus é inútil, se a ideologia se tornou irremediavelmente inconsequente depois da dissolução do eu, então, respondendo ao poeta, somos nós que devemos conduzir esta cegueira, alimentando-nos, como diz Eduardo Quina, da «brutalidade do real». Sabendo, contudo, que «estamos sós diante da nossa solidão». Mas, numa resignação estoica cruzada com a ontologia teológica leibniziana, «Talvez este seja o melhor dos mundos possíveis», por isso: «fecho a porta e assisto ao milagre do fogo». (Re)citando uma ideia de Rui Chafes, que Eduardo Quina põe em epígrafe no capítulo sobre o Maligno, «A beleza é impossível sem as marcas da morte». Certo, mas redobrando de intensidade (o que não desautoriza totalmente algumas paragens redentoras, por exemplo no poema da página 175), Eduardo Quina escreve: «se ao menos a morte te aliviasse da dor.»

Frank 2

para Penny Smith

não percebo nada
destes policiais de que gostas
afinal
porque é que ela o matou?

porque o amava mãe
porque o amava
mas não era recíproco

que ideia tão parva
porque raio
haveria uma mulher
de fazer isso?

já te disse
que ele
teve quatro filhos?

quem mãe
quem é que teve quatro filhos?

casou-se e teve quatro filhos
há quem lhe dê para isso
se queres saber o que acho
quatro é um exagero
mas pronto
agora nada a fazer
ele já morreu

de quem é que estás a falar mãe?

do Frank
ele casou-se
e morreu
mas antes disso
decidiu ter quatro filhos

mas eu achava
que não sabias
quem o Frank era

e não sei

e ambas se riram
e ficaram um pouco mais
a ver televisão

Nota: O poema “Frank” pode ser encontrado aqui e foi incluído no livro Por favor não dê de comer aos unicórnios

when doves cry - as piores canções sobre lembranças





numa diagonal do corpo

ligando o coração

ao ombro está a fronteira entre

uma baça lembrança do seu rosto e

a certeza de que estava garoando

em algum lugar do mundo


=//=


nada a não ser a força

de um instante acelerado

que atravessa os anos da minha vida

desamarra meus cadarços e me

faz encontrar lembranças no chão


=//=



uma lembrança mal alojada

jogada de qualquer jeito no destino

dolorosa ao sorriso como varicose

nas bochechas


=//=


você caminha por uma

lembrança ruim e seus braços

vão se descolando do corpo que lembra

é de tanta areia o caminho tanta

tanta areia você se aproxima de um 

coqueiro o único no caminho sem os

braços você se balança imitando o coqueiro

e já nem se lembra de como era estar 

agarrado à lembrança

é de tanta areia, querido

tanta tanta areia


=//=


recolhe gravetos

prepara uma arapuca na

memória sem se lembrar:

70% do corpo das lembranças

é água


4 ou 5 poemas

Karate Kid

 

Levei porrada, sem a merecer, fui muitas vezes

O aluno novo, a escola é escola para tudo,

Nunca tive melhor lugar onde aprender crueldade,

Onde melhor se aprendeu a levar, quando a família

Um lugar de conforto, nem em casa se podia estar

Em paz, porque o senhorio uma besta incansável,

A minha paz um poço choco, tive ali o meu inferno,

No ensino obrigatório, ano após ano, novas vítimas,

Também eu fui uma besta quando me tornei demasiado

Familiar num lugar, isto depois de ter levado muito

Nas bentas, só hoje me apercebi da importância

Do Karate Kid, quando garotos engolimos

E nem imaginamos mais tarde de onde vêm certos amores,

Como a certas culturas, mas nunca tive um Mr. Miyagi,

Chovia e arrastavam-me paralelos fora, até as calças

Uma ruína, chovia e queriam lançar-me a uma fossa,

E o máximo que sabia de artes marciais era gritar

Como o Bruce Lee, os joelhos sangravam, mas tudo bem,

A água barrenta diluía o sangue, Okinawa um sonho,

Onde as tempestades tornavam o mundo justo para todos,

Agora bebo uma de Chianti, sangiovese puro e penso

No Daniel Larusso que fui no Minho, uma escola por ano,

Sem um sensei, levar e andar, crescer, mas agora,

Quase chegado aos quarenta, aqueles paralelos,

À chuva, continuam a abrir-me os joelhos.

Bolsos Cheios de Seixos e Merda

 

Também é verdade que fui uma besta, engoli a hóstia

Quando convinha e tinha a alma limpa do Tide,

Batia punhetas atrás da antena da televisão que tinham instalado

Na escola primária, hoje em dia é uma moradia,

Cortaram as mimosas, não há ilusões de ascensão,

A estas horas todos tiveram que baptizar inocentes

Por causa de um pecado que ninguém cometeu,

Muitos foram os outros, tive gosto em tantos,

Aqueles em que entrava, me despedaçava todo,

Depois apanhavam um autocarro, diziam-se apaixonadas,

Eu fingia que os tomates vazios eram tudo,

Não eram, bem me lembro das rãs na primavera,

Da proximidade da ponte romana, aquele granito

Sempre me pareceu quente, mesmo tocando-o

Com dedos ébrios em Dezembro, ou de madrugada,

Antes do Sol ser a promessa de mais um aborrecimento,

Esta vida é uma confusão tamanha, meu amigo,

Ainda cá andamos perdidos, todos, mais aqueles

Que cheios de certezas e bolsos cheios de seixos e merda.

Coito Interrompido

 

A que me sabe agora o desespero daquele amor de adolescente,

Aos dezasseis anos, amaldiçoando o tecto de madeira,

Naquele quarto escuro, que era o mais ou menos quente da casa,

Pelo menos sentia-se o cheiro da lareira, que arrefecia,

Menos a humidade negra nas paredes brancas,

Chorava e erguia os punhos ao mesmo tecto inocente,

Os punhos frios, as lágrimas arrefecendo pela carne imaculada

Abaixo, nas orelhas bem apertados os fones e as músicas

Que se tornaram em mim, um beijo teria custado a vida,

Mas teria custado tanto, como o ódio aos dióspiros,

A vida uma tentativa ridícula em criar sentido num infinito

De variáveis incontroláveis, um cálculo impossível,

A certeza de uma dor maior que o colapso de uma estrela,

Num quarto pequeno, húmido, escuro e triste,

Num planeta abusado por seres pequenos e tristes,

Este desespero de amor adolescente, sabe-me agora

Ao vazio de todas as garrafas, a todas as vaginas

De onde removi o meu orgasmo, segundos antes

Para me verter num prazer de agonia e derrota.

Velas que Consomem Vazios

 

A vela consome-se na garrafa vazia, aos poucos, o copo,

Enfrentando a objectiva, torna-se mais útil para a próxima sede,

A árvore de natal obsoleta como as memórias de outros tempos,

Ridícula como a própria juventude de um velho que se agarra

Ao vazio das memórias e dos sonhos cujos ecos ainda persistem,

Foram muitos os verões, poucos os que valeram a pena,

E agora quê, como criar alguma beleza com um conjunto limitado

De palavras, a flexibilidade de um carrasco num dia de tempestade,

A memória que é o que cada um é, uma garrafa que persiste no copo,

Ainda, como se tudo fosse um nada e é, a chuva acaba, o sol regressa

E tudo parece tão ridículo, não fosse o punho de terra ainda na mão

E a cova aberta que espera, um último gesto que não fecha nada,

E a patética vela persiste, iluminando uma noite escura que ninguém

Quer relembrar, solitária, com garrafas vazias, copos já secos,

Sonhos esquecidos, amores amputados, só os pulmões mantêm

O automatismo que nos mantem vivos, para quê, a garrafa

Onde a vela se consome há muito que está vazia.

O Poeta Pouco Finge

 

Eu não vivo na diáspora, eu sou a diáspora,

Eu apago-me para que não sejam tão difíceis

As vozes dentro do vazio deste apartamento,

Para que os olhos fechados não doam tanto,

Para que os sonhos não me tragam tanta ruína,

Eu não vivo na diáspora, eu sou o frio que cristaliza

As lágrimas e traz a neve aos dias escuros,

Eu sou o medo das geadas longínquas

Que obrigam às vindimas antes das uvas passas,

Eu sou aquele amigo que partiu, mas continua vivo,

Aquele que morreu e ainda respira,

Aquele idiota que ainda se julga poeta,

Anos depois do professor de português se ter reformado.

Entulho

 

Eu queria olhar os teus lábios e não pensar nas tuas palavras ridículas,

Deixar o lago da Sanabria gelar há décadas, continuar inocente

Ao lado dum cavalo qualquer, sentir-me perto de um deus

Que me diminuiu tantos anos, deixar arder tudo o resto,

As bandas desenhadas que me moldaram, não o barro, mas o lodo,

Porque se sou homem, sou feito da lama onde cagaram

As vacas e os burros a caminho dos estábulos, antes da geada imaculada,

Antes do adormecer dos avós ao regressarem da última poda

Aos castanheiros e colapsarem nas mãos sábias e impotentes das netas,

Eu queria olhar os teus lábios cheios de aves exóticas

E chamas que querias que queimassem o teu coração,

Mas não te dediques a voos se o que queres é encontrar entulho para poemas.

 

06/01/2022

 

Turku