[a Ricardo Reis]

a Ricardo Reis

 Mestre

quando a guerra terminar
farei um abrigo de rosas brancas
e lá nos encontraremos
e olharemos o futuro
 em que juntos traremos o rio nos olhos

e conforme dizias
deixaremos que o dia passe leve
e sem pesar
entregando a agonia aos deuses
nossos cuidadores incautos

e ausentes de qualquer enleio
falaremos do exílio na pátria
que não no Olimpo
e soltaremos cada hora
roubada ao nosso momento

quando o dia acabar
e o abrigo de rosas secar
cada um de nós partirá
tranquilo
para o seu jardim indefeso

porque

as nossas mãos continuarão vazias
e os nossos sonhos

esses

estarão guardados no intervalo do tempo

[o cansaço alonga-se]

o cansaço alonga-se
nas ruas da cidade
exilada

sem rios para desaguar
a dor
roça as paredes das casas
e espraia-se nos bancos
dos jardins

não há notícia das chuvas
nem dos bandos de corpos
que mastigavam a sede

sobrevivem

meia dúzia de janelas
indefesas
e os acenos da memória

o último habitante feriu-se
quando tentou escalar
os dias

Autores convidados em Agosto

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Ângela de Almeida 

Ângela de Almeida é uma  poeta portuguesa, também investigadora,  natural da cidade da Horta, onde viveu até aos 16 anos de idade. Colabora com organismos regionais e nacionais, participando também em colóquios e congressos, promovidos por instituições portuguesas e estrangeiras. No domínio da poesia, publicou sobre o rosto (1989), manifesto (2005), a oriente (2006)caligrafia dos pássaros (2018), estado de emergência, em coa-autoria com Henrique Levy (2020, Confraria do Silêncio). Publicou, também, a narrativa poética, o baile das luas (1993), três ensaios e dois livros de viagem.

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João Gabriel Madeira Pontes

João Gabriel Madeira Pontes nasceu no Rio de Janeiro, em 1992. É autor de Indiscrição (Kazuá, 2016), Entropias de eixo e beira (Enfermaria 6, plaquete digital, 2017; Caju, versão em jogo, 2018) e Saúvas avulsas (Garupa, 2019). 

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Rui S. Magalhães

É de Coimbra e vive em Coimbra. Já foi a outros sítios mas prefere Coimbra. Escreve programas de computador durante o dia. Gosta de escrever poemas e histórias no resto do tempo. Gostava de ser escritor. Também gosta de fazer fotografias, de café sem açúcar, de dias quentes o suficiente para se andar de calções à noite, dos filmes do Steven Seagal e de preparar o próprio gin tónico. Gosta muito de ler. 

AÇORES: East of the sun, West of the moon*

“Up among the stars we'll find a

harmony of life to a lovely tune”

- Diana Krall

“Alguém se metia no teu silêncio”

- Santos Barros

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Miradouro de Santa Iria, norte de S.Miguel, Ribeira Grande, Açores.

*Diana Krall: https://www.youtube.com/watch?v=ElAP4LF4a1o

Nota: Vítor Teves não tem nenhum talento para ler poesia (faltou a todas as aulas de teatro), mas ele insiste porque está farto de leituras estandardizadas, feitas sempre à volta dos mesmos poetas.