Traição à traição de Antonio Gamoneda a Georg Trakl

Canção do Solitário

Oculto na harmonia é o voo das aves. Ao crepúsculo, em cristalinos prados violados pela corça, 
sobem glaucos bosques às cabanas silenciosas. 
 
Débil na escuridão é o rumor das águas. E as sombras húmidas 
 
e as flores do verão são tangidas pelo vento. 
 
Esplende na noite a cabeça do homem pensativo e a chama ténue do decoro arde no seu 
coração. 
 
Serenidade da ceia; porque o pão e o vinho estão sobre a mesa às mãos de Deus 
 e o teu irmão contempla-te do silêncio nocturno dos seus olhos, descansando das aflições do 
caminho. 
 
Oh, era uma morada celeste na medula da noite. 
 
Nos quartos, engolidos pelo silêncio em haustos de ternura, a sombra dos antepassados, os 
martírios fulvos, 
 
o lamento piedoso de uma estirpe que se extingue com o seu último descendente. 
 
Das negras horas da loucura, em umbrais de pedra, desperta mais radioso aquele que sofre, 
e é cercado com força pelo azul do orvalho, pelo resplandecente declinar do outono, 
 
pelo sossego da casa e pelas lendas do bosque. 
 
Eis a medida e o preceito, assim se ocultam os caminhos 
 
daqueles que se afastam na desmesurada paixão da morte. 
 
 
João Moita 
- traição à traição de Antonio Gamoneda a Georg Trakl 

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Peter Reading, Sem Título

tradução de Hugo Pinto Santos

autocarro 53 aproxima-se do término;
velho inglês, asseado e sartório,
enfarpelado num tweed Manx, cinzento de uma operação bem aparada:

Demasiadas coisas erradas, uma sugestão de Gibbon,
escolaridade e pão e roupa e maneiras,
o declínio da era, tristezas de Elgar;
demasiadas coisas erradas, coração podre e insónia,
úlcera e hipertiroidismo,
é concebível no espaço de uma vida o fim do mundo,
voo de pardal breve pelo pálio do festim.

 

Peter Reading, Evagatory, Chatto & Windus, 1992

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Saint-John Perse, «Amers», Estrofe-III-2

Saint-John Perse, Amers, Estrofe-III-2

Tradução: João Moita

«Mas erguemos ainda os braços em honra do Mar. Na axila açafroada toda a especiaria e o sal da terra! – alto relevo da carne, modelado como uma virilha, e ainda essa oferenda da argila humana de onde irrompe a face inacabada de deus. 
«No hemiciclo da Cidade, onde o mar é o palco, o arco tensoda multidão ainda nos sustém na sua corda. E tu que danças a dança da multidão, elevada fala dos nossos pais, ó Mar tribal na tua charneca, serás tu para nós mar sem resposta e sonho mais longínquo que o sonho da Sarmácia?
«A roda do drama gira na mó das Águas, esmagando a violeta negra e o heléboro nos sulcos ensanguentados da tarde. Cada vaga ergue para nós a sua máscara de acólito. E nós, erguendo os nossos braços ilustres, e voltando-nos ainda para o Mar, na nossa axila alimentando os focinhos ensanguentados da tarde,
«Por entre a multidão, em direcção ao Mar, nós nos movemos em multidão, com esse amplo movimento que emprestam à ondulação as nossas amplas ancas de camponesas – ah! mais telúricas que a plebe e que o trigo dos Reis!
«E também os nossos tornozelos estão pintados de açafrão, de múrice as nossas mãos em honra do Mar!» 

Sophie Hannah, O Bom Perdedor

Tradução de Hugo Pinto Santos

Retratei a tentação como um prazer.
Agora ele pode abster-se ou fraquejar.
O seu é um modo superior de perder
E o meu, uma espécie inferior de ganhar.
O sacrifício, e aquela restrição
Que aceita passarão por este debate intactos,
Pois o seu é um modo superior de ficção
E o meu uma espécie inferior dos factos.
Mostrei a faceta mais encantadora
E ele a menos, mas o jogo estranha, pois
Eu sou um tipo superior de criatura
E ele um tipo inferior de deus.
E se ele romper tudo comigo, abrupto
Dele é o livro cuja folha vou arrancar,
Pois o dele é um modo superior de luto
E o nosso um tão inferior tipo de pesar.


Sophie Hannah, Hotels like Houses, Carcanet Press, 1996

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