Adam Zagajewski, "O blusão verde"

Tradução de João Ferrão e Anna Kuśmierczyk

Quando o pai caminhava em Paris,
muitas vezes num blusão verde,
que mandou fazer para si à medida
(um dos poucos luxos
na sua vida bastante modesta)
quando passava longas horas no Louvre,
estudando as obras de Corot e de outros pequenos
mestres dos séculos passados,
eu ainda não sabia, não podia saber,
quanta destruição se escondia
nos anos que então se aproximavam,
como se esse blusão verde
lhe trouxesse infelicidade,
mas, contudo, compreendo agora,
desconfio, que a catástrofe
foi cosida por dentro de todas as suas roupas,
independente das cores ou das formas,
e até o maior dos mestres da pintura
em nada o podia ajudar.

Adam Zagajewski, "Vocês são os meus irmãos mudos" 

Tradução de João Ferrão e Anna Kuśmierczyk

Vocês são os meus irmãos mudos, 
os mortos. 
Jamais vos esquecerei. 

Em velhas cartas encontro traços da vossa escrita, 
que trepam até ao topo da página
como um caracol a subir o muro de um hospital psiquiátrico. 

Os vossos telefones e moradas acampam continuamente
nos meus cadernos, esperam, dormitam. 

Ontem estive em Paris, vi centenas de turistas
cansados e gelados. Pensei, são como
vocês, não podem encontrar um lugar, circulam inquietos. 

E todavia, pareceria que isto é tão fácil, viver. 
Basta um punhado de terra, um navio, um ninho, uma prisão, 
um pequeno fôlego, algumas gotas de sangue e saudade. 

Vocês são os meus mestres, 
os mortos. 
Não se esqueçam de mim. 

Charles Bukowski, uma leitura de poesia

tradução de João Coles

olhem para eles.
este lugar é como um bar,
vendido,
poeta e público ambos bêbedos.
de quando em vez uma lâmpada flash apaga-se,
o microfone ainda não funciona,
o poeta está sentado,
uma oportunidade para beber mais.
uma rapariga aproxima-se,
fofa, sexy, psicótica,
tem um dos livros do poeta
aberto para o autógrafo,
ele escreve, "rachava-te toda em três minutos",
esquece-se de assinar o seu nome,
faz uma pausa para beber outra vez.
o microfone funciona,
agora sim, o poeta lê,
sentido-se incitado,
esquecendo-se que aceitara ler por dinheiro.
depois de vários poemas o poeta levanta-se,
anuncia, "suas grandessíssimas merdas ranhosas,
vocês julgam que isto é fácil, isto não é nada mais do que a porra de uma sangradura".
"dá-nos mais sangue!", grita um jovem rapaz lá
do fundo.
é o melhor poema da noite.

o poeta emborca meio copo de whiskey puro,
acende o charuto, exala o fumo.
por vezes riem,
por vezes aplaudem,
confundem-no, como a maioria das coisas.
ele vai beberricando até ao final,
e então outra miúda fofa, sensual e psicótica aproxima-se da sua mesa,
diz que é do jornal regional, que gostaria de fazer algumas perguntas.
ela senta-se,
ele responde à primeira pergunta,
olhando para o seu cabelo e para os seus olhos,
imaginando-a na cama com ele,
"o que pensa sobre F. Scott Fitzgerald?", pergunta,
"eu nunca", responde, "penso nele",
abanando a mão em ênfase despreocupada
entorna a cerveja em cima das suas calças de ganga justas
dizendo, "meu Deus, meu Deus, peço desculpa",
esfregando as suas mãos pelos joelhos e pelas coxas molhadas dela acima
como a secasse.
ela vai-se embora e o promotor aguarda-o com o dinheiro,
$432.
"merda", diz o poeta, "vocês prometeram-me $500",
"bem, tivemos de pagar $68 a estes dois matulões para impedir que o público lhe caísse em cima",
"quer dizer que fui assim tão bom?", perguntou o poeta,
"tão mau", diz o promotor,
levantando-se e indo-se embora.
o poeta serve outra bebida,
pega no microfone, "ouçam, ainda não acabei,
vou ler-vos outro poema",
alguém corta a corrente ao microfone.
ninguém protesta.

o poeta abandona a mesa
e consegue chegar à casa de banho.
está de pé e de pé mija.
um homem a seu lado também está a mijar.
o poeta vira-se para o homem,
"ouça, amigo, onde é que posso arranjar um belo naco?",
"estava para lhe perguntar a mesma coisa", disse ele.

Da última leitura pública de Bukowski, em Redondo Beach CA, 31 de Março, 1980


giving a poetry reading

 

look at them.
this place like a bar,
sold out,
poet and audience both drunk.
now and then a flashbulb goes off,
the mic still doens't work,
the poet sits,
a chance to drink more.
a little girl comes up,
sweet, sexy, psychotic,
holds one of the poet's books
opened to autograph,
he writes, I could rip you apart in 3 minutes,
forgets to sign his name,
pause for another drink.
the mic works,
now the poet reads,
feeling put upon,
forgetting that he has agreed to read for money.
after several poems the poet stands up,
announces, you god damn slimy shits,
you think this is easy, this is nothing but a motherfucking bloodletting.
give us more blood, screams a young boy from the back.
it's the best poem of the night.

the poet drinks off half a glass of straight whiskey,
lights a cigar, hacks it out.
sometimes they laugh,
sometimes they applaud,
they confuse him, but most things do.
he drinks his way to the finish,
then a another sweet sexy psychotic girl comes up to his table,
says she's from the local paper, that liked to ask some questions.
she sits down,
he answers the first question
looking at her hair and her eyes,
immagining her in bed with him,
what do you think of F. Scott Fitzgerad, she asks,
I never, he answers, think of him,
waving hand in nonchalant enphasis
he spills a large beer across her tight blue jeans
saying, jesus, jesus, I'm sorry,
rubbing his hands along her knees and her wet thighs
as if to dry her
she leaves and the promoter awaits with the money,
$432.
shit, says the poet, you promised me $500,
well, we had to pay these two big guys $68 to keep the crowd from swarming over you,
you mean I as that good, asked the poet,
that bad, says the promoter,
getting up and leaving.
the poet pours another drink,
grabs the mic, listen, I ain't finished yet,
I'm going to read you another poem.
somebody shuts the mic power off.
nobody protests.

the poet gets dowm from his table,
makes it to the men's room.
standing stands pissing.
a man next to him is also pissing,
the poet says to the man,
listen buddy, where can I get a piece of ass,
I was going to ask you the same thing, he says.

Adam Zagajewski, "Tenta louvar o mundo mutilado"

Tradução de João Ferrão e Anna Kuśmierczyk

 

Tenta louvar o mundo mutilado.
Recorda os longos dias de Junho
e os morangos silvestres, as gotas de vinho rosé.
As urtigas que cobrem metodicamente
as herdades abandonadas dos exilados.
Tens de louvar o mundo mutilado.
Observaste os iates elegantes e os navios;
um tinha uma longa viagem pela frente,
ao outro esperava-o apenas o nada salgado.
Viste os refugiados que caminhavam para lugar nenhum,
ouviste os carrascos que cantavam com alegria.
Deves louvar o mundo mutilado.
Recorda os momentos em que estiveram juntos
no quarto branco, as cortinas movendo-se.
Volta em pensamento ao concerto, quando a música eclodiu.
No Outono colheste bolotas no parque
e as folhas rodopiavam sobre as cicatrizes da terra.
Louva o mundo mutilado
e a pena cinzenta, perdida pelo tordo,
e a luz delicada, que erra e desaparece
regressa.


Sobre o autor

Adam Zagajewski (1945) é um poeta, ensaísta e tradutor polaco. Nasceu em Lviv, actual Ucrânia, tendo mais tarde estudado em Gliwice e Cracóvia. Viveu em França e foi professor nos EUA e na Polónia, trabalhando actualmente na Universidade de Chicago, onde lecciona um curso sobre Czesław Miłosz. A sua poesia, marcada por imagens límpidas e um tom discursivo e íntimo, partilha de muitas das obsessões da restante literatura polaca moderna (o holocausto, uma relação peculiar com o Cristianismo, a cultura europeia), mas também tópicos pessoais (a relação com os pais, a memória, a música). Está traduzido em várias línguas e venceu, entre outros prémios, o Neustadt em 2004 e o Princesa das Asturias em 2017.

Charles Bukowski, «Pássaro azul»

tenho um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas sou demasiado forte para ele,
digo-lhe, fica aí dentro, não vou
deixar que ninguém
te veja.
tenho um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas despejo-lhe whiskey em cima e inalo
o fumo dos cigarros
e as prostitutas e os baristas
e os caixeiros das mercearias
não suspeitam sequer que
ele está
ali dentro.

tenho um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas sou demasiado forte para ele,
digo-lhe,
fica no teu lugar, queres dar cabo
de mim?
queres mandar pelos ares todo o meu
trabalho?
queres estourar com a venda do meu livro na
Europa?
tenho um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas sou muito mais esperto, só o deixo sair
à noite de vez em vez
enquanto toda a gente dorme.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso, não fiques
triste.
depois meto-o de volta,
mas põe-se a cantarolar um bocadinho
lá dentro, não o deixei propriamente
morrer
e nós dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e ele é tão gracioso ao ponto de
pôr um homem
a chorar, mas eu não
choro, tu
sim?


Bluebird

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?