dava de comer aos gatos no quintal às escondidas da minha mãe
 e eles vinham o pior era quando
 
as gatas escolhiam o quintal para dar à luz
 
e a minha mãe matava os pequeninos
 
a minha mãe enchia a banheira de água
 
e metia lá os pequeninos até eles deixarem
 
de miar eles já não miavam e depois
 
atirava-os para o caixote do lixo como se fossem lixo
 
e já nem eu podia dizer que eles eram outra coisa
 
e ela chamava-me não
 
dês de comer à merda dos gatos
 
já estou farta de te dizer para
 
não dares de comer à merda dos gatos
 
e a gata miava à volta do limoeiro
 
miava debaixo do tanque e eu chorava
 
a gata miava até a minha mãe a enxotar
 
a gata fugia da minha mãe a minha
 
mãe com a vassoura não voltes
 
gata de merda nunca mais te quero aqui ver
 
e a gata fugia mas voltava mais tarde
 
e eu dava-lhe de comer e quando
 
a minha mãe me apanhava batia-me
 
dizia estou farta de te dizer
 
para não dares de comer à merda dos gatos

 

Depois do Fim

BeforeMidnight.jpg

Before Midnight, de Richard Linklater, passou pelas salas de cinema portuguesas sem que eu o tenha ido ver. Logo eu, exactamente o tipo de pessoa para quem o filme foi feito.

Na adolescência, uns anos depois de ter sido filmado, apanhei na televisão Before Sunrise, o primeiro dos filmes de Linklater em que os actores Ethan Hawke e Julie Delpy davam vida a Jesse e a Celine, um americano e uma francesa que se juntavam por acaso ou destino nas ruas de uma cidade europeia. Não sei explicar o quanto adorei o filme.

Em Before Sunrise, Jesse e Celine conhecem-se num comboio a caminho de Viena e acabam por decidir passar um dia na cidade, antes de na manhã seguinte seguirem os seus respectivos caminhos (ele num avião para a América, ela num comboio para Paris). Durante a hora e meia que dura o filme, vemos Jesse e Celine a apaixonarem-se um pelo e outro e a serem forçados a confrontarem-se com a inevitável separação que virá na manhã seguinte. Os dois decidem nunca mais se ver e fazem daquela noite algo único e especial. Mas chegada a manhã, dizem um ao outro que não querem ficar sem se ver e que voltarão a encontrar-se no mesmo sítio, seis meses depois.

Lembro-me de ter achado este final genial, ambos a prometerem um reencontro em Viena, e nós desconhecendo se a promessa seria mantida. Mas em 2004, Linklater, Hawke e Delpy voltaram a juntar-se para Before Sunset, em que Celine aparece numa apresentação de um livro de Jesse sobre um encontro fortuito de dois estranhos num comboio para Viena, e nós descobrimos o que afinal aconteceu: Jesse aparecera seis meses depois, Celine não. Mais velhos, Jesse e Celine estavam também mais desiludidos com o caminho que as suas vidas tinham levado, e com a mágoa de nunca terem sabido o que poderia ter acontecido se tivessem ficado juntos.

Agora, em Before Midnight, eles estão mesmo juntos, com filhos, a passarem férias na Grécia. E eu tenho com este filme o mesmo problema que já tivera com Before Sunset: não sei se eles deviam sequer existir. Pois a sua mera existência como que “estraga” o primeiro filme, ao revelar o que acontece após o seu final. Eu não queria saber se Jesse e Celine se voltavam a ver ou não, se tinham um futuro juntos ou não; o que interessava era que, naquela altura em que se despedem um do outro, ambos queriam voltar a ver-se, e ambos temiam que isso não viesse a acontecer. Podia ser um final em aberto, mas era um final, e um final perfeito. Com duas sequelas, o “final” deixa de o ser.

Mas talvez seja aí que esteja o mérito destes três filmes, tomados em conjunto: a vida, ao contrário dos filmes, não tem finais. Continua. E as sequelas de Before Sunrise são o filme sobre o que acontece depois do fim do filme. Mostram como, por muito “mágico” que possa ser um momento das nossas vidas, elas continuam. Mostram que aquilo que receamos - ou aquilo que queremos que aconteça - pode mesmo acontecer, e temos de lidar com isso. Before Sunrise era um filme perfeito, um exemplo de como o cinema pode ser – mais uma vez – “mágico”. Before Sunset e Before Midnight, só por existirem, mostram-nos como a magia do cinema é um truque, uma ilusão. A existência das duas sequelas “estraga” mesmo Before Sunrise, mas aquilo que as faz estragá-lo é precisamente o que as torna brilhantes. Este é um texto sobre um filme que não vi, sim, mas também sobre um filme que quero ver.

Bruno Alves

 

Falar a mesma língua

Conheci o poeta J. A. no meio de uma manifestação dessas que agora se convocam por meios remotos. Primeiro surpreendi-me ao vê-lo. Por bem-intencionado que fosse o objectivo da aglomeração sabia que as multidões não o entusiasmavam. Passada a surpresa, não podia perder a ocasião de falar com ele. Procurei a melhor posição e tentei mantê-la, separavam-nos poucos metros, eu seguia atrás. Ele avançava sozinho e não posso dizer que participasse nas palavras de ordem.

O protesto acabou e todos dispersavam. O poeta J. A. deu uma volta sobre si próprio, de mãos nos bolsos, e fazia menção de tomar uma direcção. Mudou de ideias no segundo seguinte para imobilizar-se e dar um passo escolhendo um ponto cardeal distinto do momento anterior, enfim, não podendo estar perdido estava pelo menos bastante indeciso. Foi aquele comportamento errático que me deu o empurrão final para chegar a abordá-lo.

É escusado contar como meti conversa com ele. Sentámo-nos na escadaria e ficamos até ser noite. Era eu que o acompanhava – uma sorte, mas podia ser qualquer outra pessoa, naquele momento, ele teria contado igualmente as mesmas coisas, a mesma história de busca do autêntico ou do genuíno. Lembrei-me imediatamente de um conto do escritor albanês Ismaíl Kadaré que versava sobre a relação de amor entre um poeta octogenário e uma mulher jovem. O poeta tinha sido convenientemente transferido pelo Partido para uma pequena cidade de província onde se supunha que o efeito nefasto da nostalgia presente nos poemas não causaria tantos estragos à energia, à doutrina, ao optimismo inculcado, ao realismo socialista, que se vivia na «capital». Abundavam as frases contra a nostalgia. Afastada do poeta, a mulher demorou tempo a procurá-lo e chegou demasiado tarde.

O poeta J.A., ainda longe de ser octogenário mas triplicando-me a idade, contava-me a história de um encontro que procurava repetir. Depois da primeira vez nunca mais existiu um dia igual ao Passado. Procurou-a vezes sem conta sobretudo nos momentos mais insuspeitos, como aquela manifestação que terminara. Resumia-me as palavras anteriores que eu, sem grande experiência, encontrava absolutamente apaixonadas e apenas pressentindo o esencial de uma procura muito além do conforto, uma procura outra que ainda não desistia: «Foi o espanto que me deixou paralisado e não queria acreditar no que ouvia. Regulava-me por outras fantasias que não passavam de embustes e que agora encontro odiosos. Depois disso raras vezes a vi. E nunca mais encontrei ninguém que falasse a mesma língua que eu.»

 

Antonio Gamoneda, de «Canción Errónea»

 Tradução: João Moita 

O leite entra nas profundidades côncavas, o leite urdido nas rosadas úberes de grandes vacas silenciosas. São torpes as vacas silenciosas. Fazem, porém, doação muito branca
à paixão enferma
de viver.
Viver: avançar cegamente
para o grande sono branco.
Suportado por mãos inocentes, sempre
o leite desce do cântaro habitado por sombras
até à fraternidade do pão no seu leito de vimes
e na sua descida traz uma assistência que convém ao cansaço
do nosso corpo transitivo.
                                                Jan Vermeer
pôs nas mãos de uma antiga rapariga
estas suaves matérias que nos perdoam e
nos permitem repousar vertebrados, desconhecer, mentir,
envelhecer,
ignorar por algum tempo a afiada pureza
dos limites.
Antonio Gamoneda, Canción Errónea, pp. 77-8

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