Les paradoxes de l'échafaud

— Vous croyez donc qu'ils sont morts parce qu'on les a guillotinés, vous?
— Sans doute.
— Eh bien! On voit que vous ne regardez pas dans le panier quand ils sont là tous ensemble; que vous ne leur voyez pas tordre les yeux et grincer des dents pendant cinq minutes encore après l'exécution. Nous sommes obligés de changer de panier tous les trois mois, tant ils en saccagent le fond avec les dents. C'est un tas de têtes d'aristocrates, voyez-vous, qui ne veulent pas se décider à mourir, et je ne serais pas étonné qu'un jour quelqu'une d'elles se mit à crier: Vive le roi!

 

Alexandre Dumas apud Pierre-Jean-Georges Cabanis, Note sur le supplice de la guillotine.

 

Eles não querem saber de nós

 

Na casa em que cresci faltava dinheiro, comida, higiene e respeito. Eu não era igual aos outros. Obrigavam-me a carregar bilhas de gás e a comprar garrafões de cinco litros de vinho tinto para a minha avó beber.  À refeição bebia-se nada. O meu tio partia os copos todos quando desejava que a minha avó lhe desse dinheiro e os copos restantes, sempre sujos, deixavam-me de estômago embrulhado. Não havia copo em que não se vislumbrasse um bocadinho de sebo. Às vezes, comprava uma lata de coca-cola com as moedas que ia roubando à velha mas era muito, muito perigoso comprar refrigerantes e levá-los para casa. O tio podão gritava e oferecia porrada e a coca-cola acabava por ser bebida por quem trabalhava e suava o dia todo. Eu não tinha categoria social. Ouvia "calão" de manhã à noite. Nem me penteava: sem escova e sem banho, para quê escovar o cabelo?  Tomar banho era uma raridade. Enfiava-me ao sábado num alguidar a transbordar de água morna e chap, chap, chapinhava. Aquela água morna sabia-me tão bem que ficava sentado no alguidar até deixar de sentir quente. Tomava banho na rua, não se podia sujar a casa. Era permitido roubar, bater, passar a semana a cheirar a cavalo, só não se podia sujar o chão da sala. Só os ratos tinham permissão para sujar o chão. Diziam que não tinha jeito para nada, que, à semelhança da dinastia Podão, deveria largar os estudos e agarrar-me a um ofício como o de canalizador. Sentia-me diferente. Quanto mais me tentavam afundar, mais diferente deles me sentia. Comecei a pressentir que a escrita me salvaria quando um burlão apareceu na aldeia a vender máquinas de escrever ao preço do ouro. Não sei como conseguiu, mas o burlão convenceu a velha a oferecer-me um pacote que incluía uma máquina de escrever Olivetti e um curso. Tirei o curso de dactilografia juntamente com trinta meninas. Achava aquilo muito chato. Escrever sem olhar para as teclas. Repetir vezes sem conta o mesmo exercício. Caro senhor, caro, caro, sem olhar para as teclas, escrevo-lhe esta carta. Ainda bem que a dactilografia morreu. Escrevi a minha primeira história num natal. Um textinho sobre a minha mãe bêbeda no natal. Escrevi outras no tempo do desespero. O verão mata na aldeia. Faz muito calor e não se tem dinheiro para um único chocolate e não se vê vivalma. Não se apanha um amigo na rua, estão todos a trabalhar nas obras. A família pressiona para trabalhar. Doze anos e vai para as obras, calão. Dava uso à máquina de escrever nesses verões desoladores. Deixei de usar a máquina quando lhe faltou a tinta. Uma máquina sem tinta não serve e um rapaz sem dinheiro não compra tinta nem escreve nem come nem toma banho todos os dias .Tinha dificuldade em concentrar-me na escola. Não sendo rufia, aguentava calado aquela sucessão insuportável de aulas, olhando para os professores mas não prestando atenção ao que diziam. Dedicava-me a rabiscar. Recordo algumas frases vexatórias como amo-te para sempre Tânia, odeio-te, Diogo. Escrevia pequenas histórias sobre um sujeito apagado cujo fatídico destino invariavelmente se revelava em para-choques de automóveis. Escrevia e apagava e riscava ou rasgava. Faltam-me provas físicas desse tempo. Se havia algo a que estava atento era à minha miséria. Sentia-me pobre, sujo e burro. Ninguém poderia ser mais burro, eu era o maior. Os meus colegas de turma fixavam o que lhes era dito, estudavam e tinham boas notas e eu não sabia por que motivo só conseguia escrever historinhas e frases desconexas. Na véspera do teste de matemática, abria o caderno e deparava-me com um: a professora é tão mas tão mas tão mas tão boa que daria três voltas à cantina se isso chegasse para montá-la no seu opel corsa preto. Os resultados escolares deprimiam-me. Escolhi uma disciplina chamada Tecnológica & Coiso na esperança de nada fazer. O exame, concebido para pedreiros, consistia em montar um candeeiro. Perdi o terceiro período a gatafunhar e apenas no dia antes da entrega do candeeiro me lembrei de enfiar uma lâmpada numa lata de coca-cola. Pouco mudei no ensino secundário. Prossegui com os rabiscos e a apatia. Amava quase todas as mulheres, até pernetas e corcundas. O mundo não era real. Escrever, ler, fantasiar com o sexo, nos meus sonhos/cadernos acontecia o que desejava. Pergunto então: o que me levou à escrita? Uma infância horrível repleta de insultos e maus tratos seria suficiente para ambicionar ser aquilo que nunca outro meu familiar tinha sido. Quanto mais pobre se é, mais se sonha. Tenho esta certeza. Lembro-me de desejar ser Napoleão Bonaparte e de me comportar como um no meu interior (no exterior continuava a ser o encolhido borbulhento). O que me levou à escrita? Querer ser Napoleão. Ser poder e arte, música, escrever como Michael Jackson dançava. Colocar aquela dança nos meus rascunhos. Ainda é isso que me motiva. Ser como aquele som roufenho, melhor do que tudo o que me rodeava, saído do meu leitor de cassetes.

High windows

When I see a couple of kids 
And guess he’s fucking her and she’s   
Taking pills or wearing a diaphragm,   
I know this is paradise 

Everyone old has dreamed of all their lives—   
Bonds and gestures pushed to one side 
Like an outdated combine harvester, 
And everyone young going down the long slide 

To happiness, endlessly. I wonder if   
Anyone looked at me, forty years back,   
And thought, That’ll be the life; 
No God any more, or sweating in the dark
 

About hell and that, or having to hide   
What you think of the priest. He 
And his lot will all go down the long slide   
Like free bloody birds.
And immediately 

Rather than words comes the thought of high windows:   
The sun-comprehending glass, 
And beyond it, the deep blue air, that shows 
Nothing, and is nowhere, and is endless.


Philip Larkin
, Collected Poems, Faber & Faber, 2003

 

 

Elogio do Riso

 No §327 da Gaia Ciência, Friedrich Nietzsche denuncia o intelecto como “uma máquina pesada, tenebrosa e rangente, difícil de pôr em movimento”. Enorme campo de preconceitos imbricados que visam “tomar a coisa a sério”, é que os bem-pensantes defendem que o processo de compreensão deve ter o rigor mortis de um cadáver positivista. 

A taciturnidade não passa de um fingimento epistemológico, todos, ou quase, sabem que para pensarmos bem devemos rir dos métodos e conclusões, começar, aliás, por rir dos problema formulados (ainda agora olhei para a Via Láctea, e todos os átomos que suportam os “maiores problemas do mundo” entraram num frenesim dançante, parecido ao do velho Ritz Club de outrora). Reparem no que fez e faz a seriedade divina! Não seria preferível, como queria Nietzsche, um deus dançante, que aos sábados fizesse Stand Up Comedy? Vejam os cientistas seriamente instalados nos laboratórios, descobrindo, envoltos pela crença de um serviço público bem remunerado, a próxima molécula da felicidade, porque afinal parecem ser as interacções químicas e eléctricas a definirem a exclusividade do nosso estilo de vida. Olhem para a supina seriedade com que os burocratas legislam a mais ínfima parcela da realidade (e.g., parece que somos obrigados a escrever certas palavras sem algumas letras que certos iletrados omitiam por óbvia ignorância fonética). Enfim, os ditadores, como está plasmado na história, sempre foram de uma seriedade irrepreensível, porque só quem se leva muito a sério pode radicalizar o proselitismo da sua visão do mundo.

Rir, sobretudo de si mesmo, distende os músculo faciais, evitando as estrias dogmáticas precoces. Resvalamos então para o relativismo? Sim, mas pagam-se bem os excessos cacofónicos com uma estética e uma ética, uma epistemologia e uma política... sem desejos de domínio, de esmagamento, de aniquilação... sem a pérfida petulância da Verdade.

Agora, em coerência, resta-me rir um pouco do que acabo de escrever.