A terra do meu regresso

De Onde Fingimos Dormir como nos Campismos (inédito)

A terra do meu regresso
fibra fundo esta espécie de retrato
calando rijo na claridade
mas só te vejo quando vou lá ver   

Na terra do meu regresso
é aqui quando cá estavas e as pedras mornas
essa forma da estrela morta
menos terra chegando 

Pergunto se era ali
merecer a entrega
à volta do uso
e terra mais cheia

A perda está contida

poema de cavaloDada vulgo Reuben da Cunha Rocha

A perda está contida
na possibilidade da perda
está p/ quem a possui
como a coisa q tb possui
Caixa, pares de sapato
os graus da febre
Antes da ida a partida
E vemos o q vemos
como estrelas são vistas
do retrovisor do futuro
E se olhamos p/ fora
estamos olhando p/ trás
no tempo, através
da história
do universo e depois
dalg1 tempo
chegamos ao Big Bang

Quatro Poemas de Samuel Beckett, traduzidos do francês pelo autor

Tradução de Hugo Pinto Santos

1. Dieppe

torna derradeira maré vaza
morto seixo
a volta logo os passos
rumo à vila sob a luz

 

2.

o meu curso é na areia fluida
entre seixo e duna
chuva de verão chove-me na vida
em mim vida que me segue me foge
até ao cabo até ao rabo

a minha paz ali está na névoa a recuar
onde eu possa não mais dar estes passos longos em limiares fugidios
e viva o espaço de tempo de uma porta
que se abre e se fecha

3.

que faria eu sem este mundo sem rosto sem curar de nada
onde ser não dura mais que um instante onde cada instante
verte no vazio a ignorância de ter sido
sem esta vaga onde por fim
corpo e sombra juntos se engolfam
que faria eu sem este silêncio onde murmúrios morrem
ofegando fremindo rumo ao auxílio rumo ao amor
sem este céu que se eleva
acima do pó da sua gravilha


que faria eu que fiz ontem e antes
espreitando da minha escotilha buscando outrem
vagando como eu na corrente alheio a toda a vida
num espaço convulso
por entre as vozes afásicas
que se aglomeram no meu covil

 

4.

Queria que o meu amor morresse
e chovesse sobre as campas e
sobre mim cruzando as ruas de
luto pelo primeiro o derradeiro amor

 

Four Poems by Samuel Beckett

1. Dieppe

again the last ebb
the dead shingle
the turning then the steps
toward the lighted town

2.

my way is in the sand flowing
between the shingle and the dune
the summer rain rains on my life
on me my life harrying fleeing
to its beginning to its end

my peace is there in the receding mist
when I may cease from treading these long shifting thresholds
and live the space of a door
that opens and shuts

3.

what would I do without this world faceless incurious
where to be lasts but an instant where every instant
spills in the void the ignorance of having been
without this wave where in the end
body and shadow together are engulfed
what would I do without this silence where the murmurs die
the pantings the frenzies toward succour towards love
without this sky that soars
above its ballast dust

what would I do what I did yesterday and the day before
peering out of my deadlight looking for another
wandering like me eddying far from all the living
in a convulsive space
among the voices voiceless
that throng my hiddenness

4.

I would like my love to die
and the rain to be falling on the graveyard
and on me walking the streets
mourning the first and last to love me

Obrigado! Feliz 2014!

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André Simões, Carlos Alberto Machado, Catarina Costa, Frederico Pedreira, José Pedro Moreira, Luís Ene, Maria Sousa, Miguel Monteiro, Nuno Quintas, Patrícia Lino, Ricardo Domeneck, Rodrigo Lobo Damasceno, Bruno Alves, Helena Bento, Hugo Pinto Santos, João Moita, Hugo Milhanas Machado, Paulo Kellerman, Pedro Bernardo Costa, Ricardo Ávila, Catarina Barros, Samuel Filipe, Tatiana Faia, Paulo Rodrigues Ferreira, Victor Gonçalves, João Coles, Dirceu Villa, Reuben Da Cunha Rocha, João Alves dos Reis, o nosso obrigado.

E obrigado aos nossos 7 leitores.

Para todos um feliz 2014!

Alienação

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                                                                   © sonja valentina

- Para que serve a caixa de fósforos?

Era a quarta vez que ele dormia lá em casa. E como em todas as outras ocasiões, tivera um pequeno gesto que a intrigara: colocava na mesinha de cabeceira, à distância da mão, o telemóvel e uma pequena caixa de fósforos. Desde o primeiro momento que sentira uma enorme empatia e cumplicidade com ele; mas a cada dia que passava, a cada conversa, a cada abraço, a cada sorriso, sentia que estava mais próxima de se apaixonar irremediavelmente; com ele, sentia-se acompanhada e compreendida, apoiada, mimada. Sempre receara a palavra mas, por vezes, dizia-a a si própria, baixinho, embrulhada num sorriso: sentia-se um pouco amada. Quando passavam a noite juntos, tudo corria com uma naturalidade que a inebriava; não acontecia nada de extraordinário mas sabia que a verdadeira felicidade era composta por banalidades; o que importava era que cada uma dessas banalidades fosse partilhada com a pessoa adequada; não interessava tanto o acontecimento mas a companhia. Tudo corria bem, portanto; e apenas aquela insignificante mas enigmática questão da caixa de fósforos na mesa-de-cabeceira a impedia de se apaixonar definitivamente; era um foco de incerteza mínimo e inexplicável, quase disparatado; mas que existia.

E por isso, perguntou. Tinham jantado, tinham visto um filme, tinham rido, tinham conversado, tinham feito amor. Depois, ficaram enroscados, partilhando o calor e a penumbra do quarto; tão próximos quanto possível, os corpos aconchegados e entrelaçados, escutando e cheirando a presença do outro; lá fora, chovia com intensidade, talvez se aproximasse uma tempestade. E ela perguntava-se: será demasiado cedo para lhe pedir que venha viver comigo? Perguntava-se e queria perguntar-lhe. Mas havia a presença da caixa de fósforos a perturbá-la, ali mesmo ao lado; um foco de apreensão que poderia contaminar a sua felicidade. Não resistiu a perguntar, portanto: para que serve a caixa de fósforos?

Quando ouviu a pergunta, o corpo dele não se manifestou, não denunciou contrariedade ou receio. Não viu o seu rosto mas suspeitou que talvez tivesse sorrido; e isso serenou-a.

- Não receias a escuridão? -, perguntou ele.

- A escuridão? Claro que sim.

- Eu também.

E depois explicou.

- Penso nisso muitas vezes, há muitas perguntas que me bailam no espírito. Por exemplo. Como conviver com a escuridão? Não tanto com a escuridão que nos envolve, a escuridão do mundo, mas principalmente com aquela que existe dentro de nós, que trazemos connosco, que alimentamos e perpetuamos pelo simples facto de estarmos vivos; como aprender a conviver com ela e torná-la uma presença positiva e construtiva? Penso nisso, por vezes. E preocupo-me um pouco com esse eterno duelo entre luz e escuridão, que é travado no interior de cada pessoa. Afinal, de que é feita a luz? Como se forma, como se multiplica e reproduz? De que se alimenta, como se alimenta? E, no fundo, como a reconhecemos? Nunca te interrogaste sobre isto? Nunca te perguntaste: que parte de mim é feita de luz? Nunca te perguntaste: e se um dia, sem querer, permitir que esta luz que existe em mim se extinga e desapareça? Como seria viver na escuridão? Para onde nos empurraria, de que forma nos condicionaria? Afinal, porque vivemos tão obcecados pela busca da luz?

Começou a sentir-se desconfortável com aquele inesperado discurso, quando na verdade esperara uma explicação disparatada, que a fizesse rir; escutava-o e sentia que, de repente, ele se transformara em algo diferente (no seu verdadeiro eu?), como se se esquecesse dela e falasse consigo próprio. E era desconfortável porque sentia como se estivesse a surpreender alguém que se imaginava sozinho, que fazia algo que nunca faria se se soubesse acompanhado, observado, avaliado, julgado. E escutava a sua dissertação sobre luz, sério e pomposo, quando, subitamente, se fez sentir o primeiro relâmpago da anunciada tempestade, invadindo inesperadamente o quarto com uma luz fantasmagórica durante um fragmento de segundo; e apeteceu-lhe rir, na verdade custou-lhe um pouco engolir o riso. Mas ele nem reparou na sua ameaça de riso ou no relâmpago, de tão embrenhado que estava na sua seriedade.

- Preocupo-me com a ténue fronteira que existe entre luz e escuridão; em tentar perceber onde começa uma e termina a outra. E a verdade é que não podemos fugir à escuridão, não podemos fugir àquilo que somos; e, do mesmo modo, não devemos procurar a luz no exterior mas dentro de nós próprios. Por isso, é importante conseguirmos ver para além de nós, afastarmo-nos, para nos vermos melhor, para nos conhecermos verdadeiramente. Já tentaste fazer isso? Ser espectadora de ti? É preciso perceber que a verdadeira luz reside em nós, é em nós que temos que a encontrar e, depois, protegê-la, alimentá-la, perpetuá-la. E é aqui que entra a simbologia da vela. Nunca te falei disto, pois não?

Vela? Devagarinho, o desconforto transformou-se em incómodo. Sentia-se distante e sentia-o distante, como se lhe fugisse; como se estivesse a assistir a uma espécie de alienação, a uma entrada noutro mundo. Um mundo – o seu verdadeiro mundo? – que a excluía, de que na verdade não queria fazer parte.

- É como se trouxéssemos uma vela acesa dentro de nós, que devemos cuidar como algo precioso e vulnerável; uma vela encaixada entre o fígado e o estômago e as costelas, frágil e periclitante como apenas uma vela pode ser. Consegues imaginar isto? Uma vela que nos ilumina interiormente; e se alguma vez permitirmos que se apague, extingue-se a nossa luz e seremos apenas escuridão interior. Esta vela ilumina-nos e guia-nos, se desaparecer é como se ficássemos cegos; apagamo-nos por dentro e deixamos de ver, sentir, ser. Percebes? É uma pequena luz mas, por mais minúscula que seja, faz toda a diferença na imensidão da escuridão. Basta um pequeno foco, que depois poderá sempre crescer, para aniquilar o poder da escuridão; um foco que é um início, um ponto de partida; e uma forma de resistência, também. Nunca poderemos, portanto, permitir que este foco se extinga. Este foco, esta luz, esta vela metafórica, é, no fundo, a nossa alma. Aquilo a que chamamos alma.

- E a caixa de fósforos?

- Um outro símbolo, claro. Andar sempre acompanhado por uma caixa de fósforos é um forma de nunca esquecer que a minha vela interior é frágil, exige o meu esforço e empenho permanente para se manter acesa. É uma segurança, também; lembra-me que detenho as ferramentas para me manter sempre iluminado. Enfim, tenho consciência de que tudo isto é uma coisa um bocado esotérica, um bocado simbólica. Aceito isso. Mas todos temos os nossos pequenos e inofensivos estratagemas para manter um certo equilíbrio, não é?

Ela ficou calada, sem saber o que responder. Sentia o corpo dele (o corpo iluminado dele) envolvendo o seu e pensava: isso não é uma coisa um bocado esotérica, é uma coisa profundamente estúpida; não é uma forma de manter um certo equilíbrio mas a manifestação de um enorme desequilíbrio. Pensava: é muito simbolista, este homem; ou será simplesmente doido? E de repente (é impressionante como estas coisas acontecem sempre de repente), percebeu que se tinha enganado totalmente, que se tinha iludido infantilmente; percebeu que tudo aquilo fora uma forma de fuga à realidade, uma alienação. (Afinal, a alienação é uma fuga ou uma procura?) Claro que não estava apaixonada. Como seria possível estar apaixonada por um homem que, depois de fazer amor, fala de velas interiores e caixas de fósforos metafóricas? Como fora possível percebê-lo tão mal? Na verdade – uma verdade que compreendia enquanto ele ainda a abraçava –, não houvera empatia e cumplicidade nenhuma, apenas ilusão e equívoco, fantasia; carência. E um pouco assustada, questionou-se sobre o que teria acontecido se não tivesse perguntado pela caixa de fósforos; ficariam abraçados, foderiam ao som da chuva e acabaria por lhe pedir para se mudar para sua casa. Passaria, então, a viver com um homem que oculta uma vela perto do fígado. E ao pensar isto, não quis conter o riso. Pensou: afinal, a caixa de fósforos, que para ele representa luz, fora o único ponto de dúvida, o foco de escuridão, que corroera a claridade ilusória em que me deixei envolver. E riu, riu tanto que teve um ataque de tosse; e depois da tosse passar, continuou a rir, enquanto a tempestade se aproximava.