Salvatore Quasimodo, À NOVA LUA

No princípio Deus criou o céu
e a terra, depois no seu exacto
dia pôs os luminares no céu
e ao sétimo dia descansou.

Após mil milhões de anos o homem,
feito à sua imagem e semelhança,
sem nunca descansar, com a sua
inteligência laica,
sem temor, no céu sereno
de uma noite de Outubro
pôs outros luminares iguais
àqueles que giravam
desde a criação do mundo. Amen.

Read More

Palace Posy

Falar com estranhos pode resultar em problemas com a polícia. Para testar a minha própria invisibilidade há um conjunto de regras que acabo por quebrar. Lo tenemos todo, ouvi, e pensei como soaria em português. Acabava de apoiar o sapato para reforçar o nó dos atacadores. A idade do autor das palavras não andaria longe da minha. Trajava de modo excessivamente elegante para estar sentado num banco a meio da manhã. De alguma maneira, achei que queria travar conversa precisamente comigo. Acabava de sair do complexo de escritórios e, sem hora marcada, podia caminhar até casa. Contei-lhe o teor do documento que acabava de assinar. O homem, apressando-se, descobriu-me um “desespero crescente” e disse “entender”. Em presença de liberdade não tenho objecções em relação às decisões que se tomam, explicava-me enquanto à nossa frente um rapaz distribuía panfletos anunciando a compra e venda de ouro. Encontro os mesmos defeitos em qualquer meio ou grupo, é só uma questão de escala e alcance do estrago. De qualquer modo, ninguém quer testar os limites da sua liberdade porque ninguém quer abdicar do que tem, mesmo que muito pouco. Lo tenemos todo, repetia, a contraluz do que acabava de dizer. Ainda que se referisse a ele próprio socorria-se da terceira pessoa; ou talvez quisesse utilizar o plural de maneira benemérita, incluíndo-me na fortuna.

Aceitei almoçar em sua casa. Parámos numa florista para que encomendasse um ramo de todas as variedades disponíveis de flores brancas e amarelas. A empregada recolheu flores dos baldes e vasos a que fisicamente chegava e, respeitando o ofício, compôs o ramo com uns quantos ramitos verdes. Já em casa, Mario Garcia pediu comida por telefone. Desde uma janela panorâmica apreciavam-se as torres de Chamartín. Objectos de cores mais escuras desafiavam o branco elementar da sala e dos móveis. A um canto, ninguém tinha recolhido o vidro partido de dois ou três copos sujos de vinho tinto. Em cima da mesa estava um livro de capa rija que se intilulava Moon over Japan que sem dúvida apresentava várias fotografias aéreas de Tóquio mas curiosamente, e contrariando o título, também do skyline de Xangai. Mais adiante, Garcia havia de me dizer que a única maneira de se apreciar Xangai era desde um helicóptero ou desde as alturas dos edificios.

Presumi que a mulher de Garcia estava habituada à visita de estranhos. Quando entrou, ignorando a minha presença, queixou-se do frio e da janela aberta. Reparei num quadro de parede, algo desproporcional, que mostrava a fotografia de um perna estilizada sobre cujo tornozelo um leopardo abria os dentes. Sentámo-nos à mesa e Garcia começou a falar de negócios, descrevendo a sua habilidade em fazer dinheiro. Depois do primeiro milhão a coisa precipitava-se. Não lhe podía dar muita atenção. Socorria-se das torres de Chamartin que pareciam próximas. A mulher levantou-se. O preâmbulo acabou e passámos sem outras cerimónias directamente ao assunto: lavagem de dinheiro através de transferências para sociedades nas Maurícias. Garcia precisava de um novo nome, um testa de ferro sem património a quem comprar a assinatura. Aceitei a oferta evitando fazer perguntas e centrando-me nos dividendos. A mulher andava pelo salão e reparei como a altura das fibras dos tapetes quase ocultavam os sapatos. Indiferente às histórias ribombantes de êxito, dei com o ramo de flores na parte baixa da mesa e perguntei-me quanto durariam viçosas ou se o seu destino estaria no voo impelido pelo vácuo do salão até esbarrarem nos dentes afiados do leopardo.

Gastos

Mão em contra

Um dia olhar para trás e ver a estrada percorrida em contra-mão. O coração prestes a saltar, a pedir licença para expulsar todos os inconvenientes trazidos por meses (contei-os hoje contigo) passados numa espécie de tenda. Uma tenda montada no seio de um universo reduzido a leis e conversas de café. A tenda tão bem apetrechada de sonhos, conversas, descobertas ritmadas por tempos e acordes diferentes. Os meus, os teus. E aquela voz que, como hoje, sussurra ao meu ouvido palavras escritas para tu as leres. Oiço cada uma delas e apetece-me carregar um quadro branco, vazio, às costas, onde poderás contribuir com sonetos e didascálias ainda por inventar. A estrada segue em contra-mão, meu amor. E a tenda tão bem montada. Contigo ao meu ouvido. 

 

Enleado

Tentei bater-lhe. Beijo-o mas ele vive enleado e temos nada que dizer ou adivinhar. Aceitas-me namoro? Entender-nos-íamos, a gente quase não sabe. A tua vida, sigo-a. Contemplava-me e disse-me certa vez: vens para o telhado? Encurtamos caminho e despia-me, a aguardente a tirar a gravata, tomava banho, esperava. Era uma época e havia semanas. As velhas benzem-se “tudo perdido” para nós e, ah, sonhos vagabundos, bandeira igual a igreja, um Avô respondão e corneteiro pôs à janela objectos bonitos, frutos que não merecem pedidos de desculpa.

 

Éramos pobres

Éramos pobres. Lembro a luz baça na mesa-de-cabeceira. Quer entrar e inclina-se. Chega e apaga, aconchega-me a roupa no pavor de ficar só. Quarto onde dormíamos, habitado por nós até manhã. Vamos sair desta vida e ingressar noutra, levar pastéis de bacalhau, não largar as mãos; aparecerão todos (rasto que as mãos deixam) no palácio real iluminado. E a voz de dentro: aceitas-me casamento?

 

Até qualquer dia

Tantos gestos. Comer pão com morcela a subir a calçada, a barbicha ruça lendo o jornal, ver surgir ruas transversais e beijar na manhã clara as sonolências antigas. Ali, operários amigos perguntam onde vamos. É o oficio conjunto, alvo da felicidade: comer e beber, de mãos atadas, sexos juntos: emprego para a vida. Até qualquer dia!

Era o Primeiro de Agosto.

Cratera


O homem não sabe como ali chegou. Os autocarros não seguem aquele percurso e ele não parece sequer caminhar, mas antes flutuar com esforço, como se a gravidade surgisse intermitente só para transtornar a passagem pela terra que na lhanura se repete impávida. Abriu-se uma cratera e o homem não sabe onde, apenas pressente o seu abraço sugador. Ou foi no meio da pradaria sobre a qual ele levita por não conseguir andar e arrasta-se por não poder flutuar, ou então foi dentro dele mesmo, no peito, no cérebro ou em plenos pulmões. É um oco que se expande, carcomendo lentamente as próprias bordas de imaterialismo até atingir uma matéria orgânica indefinível no cerne da pradaria ou no próprio corpo do homem, o qual se confunde com o corpus desarvorado diante de si que, transposto, apenas dá para uma extensão dele mesmo. O homem, com uma força a cingi-lo gradualmente, está cada vez mais pesado e, à vez, vazado, inspirando o vácuo entre duas partículas de ar e expirando os resíduos que são substância bastante. De cada vez que inspira, algo dentro de si faz-se mais leve, deferível, e de cada vez que expira, projecta o vácuo e segue na corda bamba sobre o que se desfaz. A pradaria, ou será antes o corpo humano, torna-se nada, campina sem órgãos, e o homem tenta entender se chegou ao fim após tantas digressões que sempre pareceram, desde a juventude, não ter ponto de partida nem de chegada, em que bastou passar de um itinerário mental para outro sem transpor cercas. Se por fim as suas levitações e arrastamentos de uma ponta a outra da capacidade locomotora mental, em que mal se chega a pisar o chão, desembocam agora onde será preciso caminhar a direito. E transpor alguma cerca. Tenta inspirar só para ganhar alento. Os pulmões, por enquanto, estão cheios, as suas tubagens desimpedidas o bastante para respirar o ar puro das pradarias, para calcar com serenidade à chegada a erva cada vez mais rala, os vazios cada vez maiores entre os caules.