«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
Alfa
/Um rapaz e uma rapariga. Ele chora. É um Domingo à tarde. O rapaz continua a chorar. A rapariga parece que lhe diz algo ao ouvido. O rapaz sorri. Continua a chorar. Chegam à linha. O comboio ainda não. Ele abraça a rapariga. Ela retribui com um beijo na boca. Não pára de chorar. Sim. Isto é uma despedida. O comboio aproxima-se. Eles abraçam-se. Agora mais forte do que a primeira vez. O comboio aproxima-se cada vez mais. Outro abraço. Mais forte ainda. O comboio pára. Ele olha para ela que olha para ele. Sobe para o comboio. É um Alfa. Continua a chorar. As portas fecham-se. Ele diz que a ama. Ela que o ama também. O comboio inicia a sua marcha. Ele caminha com o passo apressado. Tenta acompanhar o comboio e diz amo-te, amo-te. Ela? Não sei. Não consigo ouvir daqui. Ele continua. Agora corre. Amo-te. O comboio deixa a estação. Ele chora. Leva a mão à cara. Limpa as lágrimas e diz amo-te outra vez.
Salvatore Quasimodo, AUSCHWITZ
/Lá em baixo, em Auschwitz, longe do Vístola,
amor, ao longo da planície nórdica,
num campo de morte: fria, fúnebre,
a chuva na ferrugem dos postes
e os enredos de ferro dos recintos:
e não há árvore ou pássaros no ar cinzento
ou acima do nosso pensamento, mas inércia
e dor que a memória deixa
ao seu silêncio sem ironia ou ira.
Tu não queres elegias, idílios: só
razões da nossa sorte, aqui,
tu, branda aos contrastes da mente,
incerta a uma presença
clara da vida. E a vida está aqui,
em cada não que parece uma certeza:
aqui escutaremos chorar o anjo o monstro
as nossas horas futuras
badalar o além, que é aqui, em eterno
e em movimento, não numa imagem
de sonhos, de possível piedade.
E aqui as metamorfoses, aqui os mitos.
Sem nome de símbolos ou de um deus,
são crónica, lugares da terra,
são Auschwitz, amor. Como de súbito
se esfumou em sombra
o querido corpo de Alfeu e de Aretusa!
Daquele inferno aberto por uma inscrição
branca: «O trabalho vos libertará»
saiu o fumo contínuo
de centos de mulheres empurradas fora
dos canis ao amanhecer contra o muro
do tiro ao alvo ou sufocadas gritando
misericórdia à água com a boca
de esqueleto sob os chuveiros a gás.
Encontrá-las-ás tu, soldado, na tua
história em formas de rios, de animais,
ou és também tu cinzas de Auschwitz,
medalha de silêncio?
Ficam longas tranças fechadas em urnas
de vidro ainda cerradas por amuletos
e infinitas sombras de pequenos sapatos
e de xales de hebreus: são relíquias
de um tempo de sageza, de sapiência
do homem que se faz medida de pelas armas,
são os mitos, as nossas metamorfoses.
Nas planícies onde amor e pranto
apodreceram e piedade, debaixo da chuva,
lá em baixo, pulsava um não dentro de nós,
um não à morte, morta em Auschwitz,
para não repetir, daquela cova
de cinzas, a morte.
Saudações Romanas
/cachos de flores rosa clarinho a crescer sobre campas anãs em latim
e um obelisco com homens de há vários mil anos em serpentina para o céu
algumas paredes todas de heras
uma ponte de pedra sem braços sobre o Tibre
com líquenes e rápidos que lembram as palavras villa di campagna
ruínas com ares condicionados nos andares de cima
e mercados de relíquias reprodutivas - 2 por cinco euros
vicino ao Palatino, um parque eduardo sétimo cheio
de mais uns quantos mortos a despontar da gravilha
e das ondas das ervas, onde nenhum cão dá por mim
um céu de azul e branco resguardado por nuvens
a condizer com os anéis grisalhos de certos querubins
chiese por toda a parte - nas abóbadas os humanistas
pintores descobriram a visão 3 D
mistérios, simpósios e aparições em
frescos de tintas manuais, antecipam a ilusão mecânica
do cinerama. Maria guardava todas estas coisas
em seu coração; eu sou turista, tenho uma objetiva
de auto-focagem e os rolos não se revelam mais.
Poucas vezes mais farei esta viagem
/Poucas vezes mais farei esta viagem. A erva cresce com o trigo, as flores despontam, as árvores segregam resina e dão sombra à terra ressequida. Os campos estão lavrados, o gado pasta ordeiramente, o rio segue amordaçado. Há pássaros invisíveis no horizonte e outros escondidos em ramos longínquos. Feras ocultas em recantos sombrios, a lentidão da seiva sob a descarnação do sol. O pó repousa nas covas abandonadas pelo vento ou soergue-se desamparado no topo das colinas onde o tojo se inclina para os precipícios. Na povoação, desmoronam-se as pedras sob a cal, o sustento dos homens. Há frutos que se arredondam segundo geometrias bárbaras, apurando o gosto. E os insectos com a sua azáfama insone, divididos entre beleza e deslumbramento. E a areia dos caminhos, mais batida que o dorso de um cavalo, é a crina desta paisagem. Em breve deixarei de passar por aqui. Olho a íntima maturação dos campos e a solenidade dos estábulos. Vejo que tudo esteve sempre preparado.
De Fome (inédito)
