Sean O’Brien, O Parque junto à Linha Férrea

Tradução de Hugo Pinto Santos

Onde havíamos nós de nos encontrar senão neste parque em tão mau estado
Onde as cercas estão a menos e os ramos das árvores negros?
Pastoral da indústria, nosso circuito
De relva debaixo de cinza, água há tanto tempo parada
E pores de sol sem qualquer importância que se acendem
Por cima da feira meio desmantelada. O nosso lugar
De entrementes, viadutos abandonados
E flores modernas, docas e arbustos,
Rafeiros perdidos, o cantar de aves arranhando a fuligem
Do século passado. Onde havíamos nós de estar
Senão aqui, minha rapariga industrial? Em que outro lugar
Senão nesta cidade aquém da conservação?
Ganho um anel para ti na carreira de tiro
Pela vigésima vez, mas tu escolheste
Um inverosímil peixe amarelo num saco
Que seguras de lado enquanto te beijo.
Sentados na sala de espera às escuras
Junto à lareira de ferro fundido,
Com o derradeiro calor que o tijolo permite,
Não totalmente convencidos de que não haverá mais comboios,
No fim do Verão que nunca começou
Até que o perdemos, e nem podemos crer
Que nos vamos embora. Mal dizemos uma palavra, e já partimos.
Acendes um fósforo para me mostrares o mapa de porcelana
Dos caminhos-de-ferro que seguiam diante de nós.
Carvão e política, décadas invisíveis
De chuva, amor doméstico, fábricas em decadência
Que fecharam numa guerra e depois noutra,
Esbatem-se até se tornarem aquilo que somos: dois jovens
Delicados incapazes, os nossos bilhetes comprados
Com muito tempo de avanço, não passaremos fome, nem morreremos
Excepto da escolha. Não podíamos ter escolhido
Viver este funeral, último Agosto legado
A ninguém pelos mortos, nossos fantasmas.

Sean O’Brien, The Indoor Park, Bloodaxe Books, 1983

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Séneca, Troianas

Séneca, Troianas

As histórias relativas à queda de Tróia encontram-se plasmadas numa muito rica tradição literária, mitográfica e artística. Apesar de a acção da Ilíada terminar antes da destruição da cidade e de o início da Odisseia ser já posterior a esse marco, os episódios decorridos entre as duas épicas homéricas seriam narrados em outras épicas gregas arcaicas hoje perdidas, de que o Saque de Tróia (Iliou Persis, de Arctino de Mileto) e a Pequena Ilíada (Ilias Mikra, de Lesques de Pirra) são exemplo. Para os Romanos, esses episódios ganharam uma ressonância especial com a sua épica nacional, a Eneida, em que não só se narra de forma vívida a queda de Tróia, mas também se celebra a sobrevivência parcial de Tróia no exílio, figurada em Roma como continuidade. À audiência das Troianas de Séneca (leitores / ouvintes), não passariam despercebidos ecos da Eneida (em particular do livro segundo), nem a influência do livro 13 das Metamorfoses de Ovídio na composição da cena de morte de Políxena.

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UMA PONTE NA PRAIA

De Onde fingimos dormir como nos campismos, inédito 

 

Joelho de pedra de duna
açúcar de bola transpiração
entradas eufóricas as cartas 
como balizas grandes na praia 

As melhores blusas e as maneiras
de entoar músicas antigas
outros verões outras areias
montagens no sacrifício  

Entoar quando pedimos
nomes de constelações
bocados de terra favorável
poderemos ali sentar?  

Se fosse assim tinha um sentido
e esbatia o vivo disto
o macio só fica como uma folha
no abordar do joelho mais ligeiro

Luiza

recordo. há quase trinta anos. ir até ao final da rua onde vivia, que, por acaso, fica ao lado desta onde durmo agora, caminhar sob o calor do Sol terrível que até as sombras mata, chegar a uma avenida mais larga do que a minha rua estreita, ver um prédio de dois andares com o Sol por trás, uma varanda grande e bonita onde havia verde nela, e vê-la, de cá de baixo, sentada na sua cadeira de baloiço, sorrindo com aqueles olhos enormes, onde se sentia a vida a marejar, e com a boca pequena e nunca triste. no colo um caderno, na mão um lápis afiado, que acabava de escrever, talvez:

Venho de dentro, abriu-se a porta:
nem todas as horas do dia e da noite
me darão para olhar de nascente
a poente e pelo meio as ilhas.

subo a escada a sorrir, pois, tal como um beijo, este é a única retribuição possível a outro sorriso. lá em cima, na sala arejada de janelas abertas para entrar a luz da manhã sentamo-nos, eu e os meus Pais, que falam contigo preocupados porque a tua voz está rouca e pareces muito pálida. por momentos, olhas-me e o brilho desses dois diamantes que tens na face tocam-me, sentindo-me a vida, a minha infância feliz, o sal do mar no meu cabelo, a areia nas orelhas e queres ser eu, estar comigo na praia, mergulhar ao meu lado por baixo da onda, abrir os olhos a arder debaixo de água, sentir a espuma a desfazer-se quando levantamos juntos a cabeça e, finalmente, abrimos a boca para respirar, deitarmo-nos na toalha que espera por nós ao Sol e respirar fundo o ar quente do verão e rir, rir muito, não para esquecer nada, mas simplesmente para lembrar a vida que há, que sempre haverá, quer estejamos lá ou não... mas não podes, tens de parar de falar um pouco, o meu Pai chega a garrafa de oxigénio para perto de ti, os olhos dele choram devagar e tu agradeces com os diamantes cravados nas mãos dele que te ajudam. respiras pela máscara, e ficamos a ver a tua felicidade em nos ter ali contigo, olhas a minha Mãe e sentes a vida dela, as reuniões no sindicato, as preocupações na biblioteca, sentes tudo, eu sei... é indescritível sentir pelos outros quando já não podemos viver por nós. mais tarde, despedi-mo-nos de ti, os diamantes lacrimejam um pouco, mas não cedem, pois estão felizes, até no adeus.
vamo-nos embora e tu voltas à varanda e escreves mais um pouco, talvez:

Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo
de só imaginá-la a luz fulmina-me,
na outra face ainda é sombra.

Banhos de sol
nas primeiras areias da manhã
Mansidões na pele e do labirinto só
a convulsa circunvolução do corpo.

Luiza Neto Jorge, A Lume, Lisboa: Assírio & Alvim, 1989