5 poemas de "Porque Canta um pequeno coração", de José Pedro Moreira, lidos pelo autor e por João Concha

É fácil perceber quem leu quais: as leituras expressivas e claras são as do João, o tipo com má dicção e que ainda por cima murmura os poemas sou eu (José Pedro).

E alguma publicidade:

Amigos do Porto (e arredores): se puderem venham à leitura conjunta, com a Francisca Camelo, a Mafalda Sofia Gomes e o Vítor Teves, na próxima sexta-feira, 4 de Outubro, pelas 17h30 na Flâneur. Mais informações aqui.

Amigos de Lisboa (e arredores): se puderem, venham à apresentação do livro, no próximo dia 5 de Outubro, pelas 18h30. A apresentação estará a cargo de Elisabete Marques, e contará com leituras de Tatiana Faia e Victor Gonçalves. Mais informações aqui.

Fernando Machado Silva lê quatro poemas do seu livro 'Para um outro dia Lázaro'

Pedro Braga Falcão, Os Poemas Fingidos

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Pedro Braga Falcão
Os Poemas Fingidos

Poesia

Enfermaria 6, Lisboa,
fevereiro de 2018, 168 pp.
Capa de Gustavo Domingues E StudioPilha  

12€

Como comprar
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Nunca souberam mais nada:
inventar que o dia continua.
Decerto solenes procissões, enredos,
preces e votos, e bairros ermos
fizeram para consagrar à ilusão
a luz que ela nunca teve.
Para quê? Para que um dia
pudessem fingir que o sol não importa.


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Pedro Braga Falcão

Pedro Braga Falcão é um poeta nascido de pais açorianos no final do século passado. Talvez por isso ensine línguas clássicas e história das religiões, e insista em traduzir poesia com mais de dois milénios. Como a infância e a juventude foram passadas numa aldeia que ninguém conhece, teve tempo para se tornar também músico. Como seria de esperar, é violetista e especializou-se em música antiga. Por vezes tenta manter-se no seu século ou, em alternativa, no sítio em que vive. A literatura que escreve e publica têm-no ajudado nesse sentido, sem grande sucesso.

Dois poemas de INCÊNDIOS, o novo livro de João Miguel Henriques

João Miguel Henriques, Incêndios
não edições, dezembro 2016
Encomendas: nao.edicoes@gmail.com

As feridas, com a nossa idade

saram lentas as feridas com a nossa idade
os golpes todos fecham só a custo
e devagar cresce a crosta sobre a carne
e como tarda a cair com a nossa idade
os meses que demora, são esperas longas
e a pele com a nossa idade após a crosta
já não é pele como dantes renovada
mas cicatriz dos nossos anos, da nossa idade
marcação de ferida lenta e pena funda
de funda ferida que a idade já não cura


Canção de infância

já noite dentro vimos então um sapo
um vulto escuro e lento
destacado contra o murete caiado
à luz mortiça de uma lua nova

só dias mais tarde, semanas
lembrados do sapo gordo e nocturno
nos veio à cabeça a tal cançoneta de infância

e o batráquio animal, de boca torta
pareceu-nos já outra coisa

o tempo

aquele olhar
a existência

tudo comeu
nem ofereceu


Lançamento do livro terá lugar no dia 20 de Dezembro pelas 21:00, no Bar A Barraca, Lisboa. Ver mais informação aqui.


"On Chesil Beach", um livro sem acontecimentos

On Chesil Beach, de Ian McEwan, não é, ao contrário do que se diz na capa, um livro de cortar a respiração. A bem dizer, pouca literatura corta a respiração. O processo a partir do qual se obtém prazer da literatura está ligado a algo que se poderia apelidar de cansaço. A literatura cansa e derruba o animal, a frase deliciosa convence, sossega o estômago, e desta maneira se vai de livro em livro, a lutar contra a selvajaria de estar vivo,  a preparar o olho vencido para o dia seguinte. Um dia, num concerto de Carlos do Carmo a que por acaso assisti, reparei que o artista detestava as palmas do público e exigia silêncio. Retirar prazer da literatura tem um pouco que ver com a irritação contra as palmas manifestada por Carlos do Carmo. Não há palmas nem paragens de respiração na literatura. O êxtase é silencioso e comedido. O que encontramos nesta novela é intensidade psicológica, cenas, momentos, pedaços de vida descritos a partir do que se sentiu. Estados de alma, sensações, como o nojo sentido pela rapariga ao ser assaltada pelo linguarudo beijo do marido. Longas e belas são as linhas que nos contam que aquele beijo e aquela língua são tão bem-vindas na boca da mulher como uma martelada nos dentes. É disto que este livro a lembrar Stefan Zweig trata, portanto, de sentimentos, de delírios. A história é simples e só um grande escritor conseguiria mantê-la durante duzentas páginas. Um jovem casal recém-casado, e aparentemente muito apaixonado, parte em lua de mel. Ele quer perder a virgindade, ela nem suporta a palavra sexo, a língua e a mão dele pousadas na sua perna nauseiam. Duzentas páginas de avanços e recuos mentais. Houve uma vez alguém que resumiu uma obra de Hemingway como a história de um velho que sai de manhã para pescar e regressa com um balde vazio. Pois bem, esta é a história de um casal que se casa e separa no mesmo dia por a noiva repudiar qualquer contacto físico. Uma história que sugere que o casamento pode ser uma experiência a dois, que pode excluir o sexo mas incluir amor. 

"Perhaps I should be psychoanalyzed. Perhaps what I really need to do is kill my mother and marry my father."