rangum

a mão em torno da porcelana cingalesa parada na vertical um fio de chá 
a 100ºc a chávena fumega sobre o ébano tagore impresso e estático lê gandhi 
mas o vento adianta quinze páginas a porcelana queima-se e a perna quebra 
 
a boca no entanto não geme não abre não se move a outra mão ápice pára 
as páginas é raríssimo mas uma face assim pode assimilar uma fenda um vértice 
uma janela-céu uma casa uma rua uma cidade um país uma face assim 
 
desloca uma espécie 

A cabeça

Hans sentou-se à secretária. A secretária ficava em frente à janela, que dava para a rua. Em frente ficava uma igreja e uma fila bem construída de casas térreas. Estava a chover e um exército de mães passava com os filhos pela mão, as crianças de uniforme, debaixo dos chapéus de chuva negros. Naquela semana, tinham-lhe encomendado um artigo sobre poesia para sair no jornal Kuntsprache. Hans passara a semana a ver vídeos de jovens poetas, que comentavam os seus poemas, e falavam de como entendiam a poesia na sua geração. Uma jovem de cabelos louros fitava a câmara com um olhar melancólico e baço e declarava, a poesia para mim é o lugar zero, o sítio negativo. Outro dizia, não consigo ler tudo, que há coisas muito más. Vai acabar, dizia um rapaz borbulhento com uma fedora posta. Hans suspirava e o olhar começava a subir para a janela, como um homem atirado para um poço que de repente olha para cima. Havia o vídeo de Joachim.

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