Apontamentos sobre o latir dos cães

Corre, bicicleta, corre.
Varre as folhas dos meus joelhos esfolados e diz-me porque é tão curta a estrada,
Que foi inaugurada há cinco minutos e já se fez noite. 

O caminho é de cinza e o pasto secou
As ovelhas emagreceram como os dentes gastos das velhas pretas de roupa e de luz.

As árvores bailam quando curvas o guiador.
Serão salgueiros?
Nem vi, tal a pressa dos rebuçados
Que se derretem nos bolsos descalços
Da rotativa vida a cem à hora
Ou o que a roda permitia.

A geografia muda
Como varia a ementa em casa,
Uma diferença no modo como se fazem as torradas
E as sopas com mais ou menos sal
Como convém aos velhos, senhores de razões.

Os anos dançam no esquecimento de muita coisa.
Morreu o cão,
Mas o gato imita-o. Pede comida e atenção
Na melancolia deste dia de Dezembro
E vai à rua no cio das gatas
E cruza telhados cheios de musgo e de salitre.

O meu corpo vai mudando.
É menos veloz, mais acostumado ao lento modo
De chegar à sala e pedir sono.

Já não recebo telefonemas
Ou quem me liga
Vende pacotes de imagens ou prestações de suor
Com um pequeno riso pelo meio,
A servir de garantia.

Ainda amo.
Ainda sonho com um Verão de nespereiras.
Ainda tenho uma bicicleta obsessiva
No rebentar das ondas do mar
Da minha solidão.

Ainda oiço o latir dos cães,
Quando se faz noite.

E foi um dia como outro qualquer.
Um dia para juntar ao jogo das paciências
E dos calendários.

Para descontar ao tempo.


O próximo livro de Rui Pedro Gonçalves, Um Rapaz à Procura da sua Idade, é apresentado hoje. Foi publicado pela do lado esquerdo.

György Petri, Prendeste-me ao teu anzol, senhor.

Tradução: João Miguel Henriques et al.

 

Prendeste-me ao teu anzol, senhor. 
Há vinte e seis anos 
que me enrolo e contorço 
sedutoramente, mas 
a linha não fica mais tensa. 
É de ver 
que não há peixe no teu rio. 
Se ainda tens esperança, 
escolhe um isco diferente, 
Foi bonito 
ter sido escolhido. 
Mas agora apetece-me 
rastejar e secar ao sol. 

Sólo las manos calientes dentro de un cuerpo

mi abuelo decía: no dejes que el animal huela tu miedo 

mi padre decía: no dejes de mirar al animal porque el caballo nunca cierra los ojos 

en el quirófano alguien decía: no dejes de irrigar con suero caliente los órganos de un vientre abierto 

mi cuerpo se repite sangrando y dice: en cada movimiento ya no soy el cuerpo que fui 

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Scuff marks

Nós a quem foi dito

em reuniões em torno da tese

Break things up

Split paragraphs 

Flag up new things

e sobretudo

Move the argument along

e mais liricamente

A few more signposts / less gentle nudging.

que era maio não era maio
de resto usávamos mal o tempo mas é certo
que víamos snooker até às 5
que às 7 chegavam agentes
para inspeccionar os nossos usos do espaço
contra inventários anteriores
do estado da matéria
(levando em conta a passagem do tempo
o inevitável wear and tear do mundo) 

Nós em exílio rodeados do magro espólio
de visitas à loja dos trezentos
presos aos corpos ao fumo ao eco
ao cotão solto à voz baixa a epígrafes
à marginalia de fábulas mínimas
a um pequeno dicionário de bolso
às contas da luz aos rumores de rios
ocres do outro lado do mundo
– essas veredas e cúpulas –
víamos televisão com o fundo do ar a negro
como num filme
de um cineasta muito político
embora para aguns algo sfumato
agora em fase intimista atonal
de nus reclinados grandes planos de retinas
e torneiras – leu porventura rilke
a mais - filmado talvez em Paris
dentro de portas (e Paris seria a luz
movente e vento nas três janelas altas
que mal abriam sendo que a luz era pouca
e não era Paris) ao longo de três meses
ou quatro meses de desilusão
na desilusão de finais dos anos 70
que pedíramos emprestada
e acordávamos
era já noite num estúdio com um pequeno jardim
nas traseiras ao lado de belíssimas pizzas finas:
quatro ingredientes, 5 libras 

que juntámos assim
mantimentos para mais uma mudança de casa
e colhíamos já meio desfeitos livros
ervas desconhecidas sofás em óptimo estado
que um banco ao virar da esquina
deixara no meio da rua, nós que chorámos
a morte de ratos, encontrámos máquinas
de café krups no lixo, com o verso
que nos parecera autobiográfico: 

sligh leak, no frothing, otherwise fine.