Lá (em alemão, Erlebnis)

Para poeta a sério falta-me a concretude
de ter um dia percorrido as ruas

as ruas todas

Precisaria para isso de me levantar mais cedo
ou mais tarde
e ter outra soltura rente ao chão

Se soubesse teria aprendido
por exemplo a manobrar binóculos de plástico
passando-o de uma mão para a outra
para maior ligeireza das vistas
a caminho do café para o primeiro da manhã
ou de outro sítio onde talvez me conheçam vagamente

Há sítios onde me conhecem vagamente

Terei experimentado alguns cigarros fora do vício
para melhor custo-benefício

Mas o certo é que não percorri quase ruas nenhumas
não as percorri pelo menos como deve ser
e os meus amigos só bebem quando calha
e às vezes cai-lhes mal

Passeio entre os néons quase sem dar por isso

É que terei percorrido talvez umas quantas ruas
ou seja em termos poéticos
isto é bem medido por medidas rigorosamente poéticas
quase ruas nenhumas

Um dia que tentei melhor performance
deslizando no passeio sujo pelo meio de roupa velha
rente à parede e depois não tanto
três ou quatro pingos de goteiras escusas e tudo
mesmo entre os olhos e os óculos
como mandam as regras
mas desencadeei acidentes
por ir distraído com uma aranha nos cabelos
e a respirar o embalo de versos
boca-a-boca com ângelo de lima

É que não vi verdadeiramente as ruas
Não verei porventura verdadeiramente as ruas
não sou dos filhos certos de cesário
e o álvaro de campos apanhou-me já um pouco de lado
por causa de umas doses de artaud no liceu

(essas acertaram-me em cheio na pestana
que não usava ainda óculos na altura)

Vi quem tenha visto
isso vi e encostei-me fiz-lhes muitas festas nos pés
sei a geografia do calo e do tenro
mas eu próprio
que sou dos filhos também não muito certos de pessanha
por via de coca-cola vídeos de terror e frank zappa
e também de pais embora não saiba ao certo como
não vi não verei não estou sequer bem a ver

mas talvez tenha tocado
por sorte certamente
o ponto onde coisas tocam noutras coisas

Fui lá com a língua

Conhece-te a ti mesmo

Uma das sentenças mais glosadas da história da filosofia é o “conhece-te a ti mesmo” socrático (ou délfico). Em geral, lê-se esta frase como estímulo para o entendimento de si, forma de descobrir as mais exactas linhas de vida que constituem o ser humano. Esta orientação afirmativa tem tanto de narcísica (tendemos a achar-nos mais interessantes do que somos) quanto de preconceituosa (julgamos positivo conhecer, não importa o quê).

Ora, Sócrates erigiu por si só o maior tribunal contra a bazófia humana, todo o seu pensamento se move em torno de uma filosofia da estupidez, uma genealogia, uma crítica, uma denúncia da estupidez. E o gesto dramático que o levou a cumprir a sua condenação à morte pretendeu somente realçar a imbecilidade dos juízes (quase toda a Atenas, na época sinónimo de “quase toda a civilização”). É por isso que gosto do fio interpretativo de Michel Foucault: o “conhece-te a ti mesmo” seria um “não imagines que és um Deus”; ou “Sabe bem qual é a natureza do teu pedido quando vens consultar o oráculo”.

Deslocando-me para o campo actual da selfiemania, e partindo do princípio que nos selfies há um horizonte epistemológico, talvez fosse útil que em cada auto-imagem, reflexo mediado pelo digital e vontade de aparecer, se figurasse também esse questionamento acerca do galho que o acaso nos destinou (“cada macaco...”) e da razão por que utilizamos poderosos algoritmos de comunicação global. Noutros termos: 1- não penses que és tão bonita/o ou interessante quanto julgas; 2- sabe bem a razão por que lanças a tua figura na webosfera (neo-Realidade sagrada).

Não caiamos, porém, em vãs angústias, ou desesperos funestos. Há mais do que uma forma de consolo, a pós-modernidade acabou com vários monopólios, entre eles o da ressurreição (que não é apenas carnal). Como dizia o poeta francês Pierre Reverdy, num contexto bem diferente do meu ateísmo: “Estou armado com uma couraça feita apenas de defeitos.” (Le livre de mon bord, 1948). E a imperfeição é tanto o centro da vida viva como dos gestos mais ilogicamente generosos.