de «Cenas de uma vida conjugal»

Primavera. Mas quem disse?
É esta a luz que de quando em
quando enterra o bico do lápis,
o erro inteiro que se desprende,
espuma escadeando em sala perdida.

O entardecer, entre outras coisas:
tomando calmamente o fim do mundo
num copo de cerveja morna.
A conversa sempre difícil,
palavras que olhadas cegam.

Nem no fim da madrugada, sentados na
praça escura de pombos adormecidos,
encontramos fim nalgum sentido.
Tão tristes que então somos,
há um ardor mas falta-nos a garganta.

Olhos devassados pelo vento, o riso de
tão farto descola-se-nos dos dedos,
e vencidos retomamos todos os
obstáculos imbecis da noite:
temos muito que fazer.

A nuvem Helena

A nuvem Helena que conduziu os helenos e ainda conduz
é um espectro do Egipto, uma estátua de bruma,
escreveu Eurípides. Helena avança e diz: 

é parecida comigo, quase igual,
reconheço-a mas não sei quem é, um eu de éter,
fizeram-me desaparecer e deram à guerra 

uma imagem, a minha fama
e a minha forma, mas eu estive escondida numa névoa,  
decisão dos deuses que fazem o que não temem 

porque um deus nada deve, de modo
que é deles a dualidade e o desdobramento,
mas o remorso é meu, que estou inocente, 

homens combatem em meu nome, disputam a beleza
que é céu e abismo,
e morrem amigos, irmãos, generais, 

cavalos, dez anos em batalha dez vezes
amarga, ilusão do sangue que corre
por causa do meu sangue ausente, 

«um nome pode estar em muitos sítios
mas um corpo não»,  e eu comovida e desgostosa,
a querer responder 

ao que tantos perguntam: «é por uma sombra
que sofremos?», «é por um fantasma?».
Isso porém não seria honrado: 

Tróia  é imortal, Helena eterna, e eu apenas uma nuvem. 

Um excerto de «Impunidade»

impunidade.jpg

« Avançámos até ao fim da avenida e continuámos pela cidade velha. Demorei a encontrar a saída. À medida que avançava, o carro mergulhava num dédalo de ruas estreitas e sentidos únicos, onde cada opção parecia conduzir a um interior mais profundo, a uma rua ainda mais apertada, a um lugar mais distante de qualquer princípio de organização. O rapaz olhava alternadamente para mim e para as ruas que diante de nós se iam contraindo, com os muros cada vez mais colados às rodas do carro. Via-me prosseguir pelos empedrados, hesitar nos cruzamentos, continuar nos sentidos obrigatórios. Fixava o fim da rua, parecendo duvidar que o carro aí coubesse, voltava-se para mim. De um lado e do outro, paredes brancas, janelas com grades, portas fechadas. Levantava-se no banco e espreitava para trás, como se suspeitasse que a única saída viável fosse meter a marcha atrás e refazer, invertido, o percurso que ali nos conduzira. Metro a metro, centímetro a centímetro. Refazer o caminho, refazendo as dúvidas e as hesitações, e assumindo o erro de ter pretendido optar onde não havia opção. Tarde ou cedo acabaríamos numa rua barrada por um muro caiado. Continuámos ainda durante mais vinte minutos. Um percurso circular. Reconhecia as ruas, os edifícios, os empedrados. Por fim, ele sugeriu que deveríamos parar e perguntar a alguém. Respondi-lhe que não perguntava.
«Nunca.»
Acenou com a cabeça. Talvez compreendesse. Acelerei. Minutos depois acabámos por desembocar junto do rio, não muito longe da ponte romana. Nenhum de nós disse nada. Contornámos os bairros antigos e apanhámos as avenidas novas. Duas faixas em cada sentido.»


Impunidade  (Relógio d' Água, Lisboa, Junho de 2013), de onde foi extraído o excerto que aqui se apresenta, é o mais recente livro de H. G. Cancela. 

2 grados de más

a César Rina
 

Estar enfermo es mantenerse en alerta. Es estar doblemente vivo

para afrontar lo que vendrá.
La poesía es estar enfermo. Imagino que esto lo dijo antes algún escritor.

Yo lo escribo con fiebre, en la cama, 2 grados por encima de la realidad común, literalmente enfermo. 
Lo ven, todo queda reducido a palabras. Un cosmos mínimo que te besa en la frente 
cuando nos dejan solos.
Ahora que lo recuerdo, Bolaño escribió sobre la relación enfermedad-literatura.

Pero él estaba verdaderamente enfermo y, de la misma manera, doblemente en alerta. Por eso su lucidez discutía a menudo con la realidad que está por debajo

de los 37 grados.

La poesía que concibo aparece en los mapas rodeada de países y, aún así,

con salida al mar. Sus tesoros corretean por debajo de su extensión

como cangrejos bajo la basura que flota  en los océanos.

La fertilidad de su pueblo es la fertilidad de su selva. 
En cada palabra, todo lo relacionado con el más allá está unido con el más acá. 
Los delirios de su imaginación son el desayuno para los campeones. Pero no les miento,
de ese plato nutritivo come todo el mundo.

Dicen que nada está escrito hasta que lo está. La poesía que contemplo
vive en el primer estado. Lo demás es lo que se vende en las lonjas,

en los escaparates, lo que traen a los puertos industriales los buques

de más de cincuenta metros. Por qué contar otra cosa.
Aquí los animales expulsados del reino animal y todas las demás especies
pisotean los mismos pastos y se manchan por igual de barro los bajos del pantalón. Repito, nadie queda excluido de esta casa si trae en la boca

un puñado de buenas intenciones.
Aunque para estar enfermo no sea suficiente con decir, este es mi cuerpo.