de Memoria in Memoriã

o dia seguinte é apenas o estorvo circunscrito das mãos. ignoras a voz com que se escreve a palavra.
não sabes da sua transformação audível para que se reverta o processo orgânico e definitivo do regresso do meu corpo sob a água líquida da memória.

há, dentro de ti, a inconfundível verdade da minha memória.
a tua solidão dentro de mim. e ajoelhamo-nos, os dois, diante de nós para nos vermos nesse abraço longilíneo onde nos despedimos para existirmos sozinhos.

 

podemos escolher o fim e o sacrifício. certamente não sabemos o lado certo e o lado errado.
podemos gastar, inutilmente, as forças na espera, última, do corpo que estremece com a chegada da voz que traz violentamente a saudade da luz:
é o teu rosto tapado pela escuridão.

agora a memória traz o lugar inabitado da infância.
jogas um jogo de azar ou de perder no som esquecido do teu corpo. um espelho de vergonha ou fotografia de silêncio.

é o nome que designa o lugar: casa.
e apercebemo-nos do intervalo que separa o teu corpo da noite.

Conduto: Na cidade, o sustento das palavras

Já tive uns mocassins, acreditei enfim que deus me esperava. Um dia, calcei-os, um homem pegou-me de barbas na mão, e disse - vamos à cidade, vai-te fazer bem. Deixei-me ir, na esperança de que aquela barba fosse garantia de encontrar o que me estaria destinado. Ouvi, zeloso, recomendações de cautela - na cidade há génios, propriedades horizontais, palavras que, antes de o serem propriamente, são um símbolo representado como certeza, autoras de muitos presidentes, são tão-somente uma intenção antes de serem um destino.

Na cidade fiquei, conhecendo os estereótipos do very typical, e sobre o que nela é dito das palavras como sustento, faço-me breve, como o mais que é na cidade, referindo apenas, em jeito de aprendizado, que lá as palavras tendem a não existir para o seu autor, são uma espécie de tosse que se usa para a decoração indubitável do ambiente.

Os transeuntes sentem-se proprietários do seu vocabulário, e com este exibem, sem pudor, a sua nudez, como uma baba que pende gratuita dos lábios quando abertos. Insensíveis assim a tão generoso conduto, na cidade, as pessoas deixam de ouvir, de compreender a importância da sorte guardada em expressões, dir-se-ia improváveis, como “vou ali dar fé”.

Por vezes, vou beber um café, que é, a maior parte das ocasiões, uma tosta-mista. Não me corrijo, tal não me é apresentado como necessário, e é talvez esta, poderia sugerir-se, a riqueza recôndita que sobra do que é dito das palavras. Elas já sabem o seu segredo, mas teimam em não nos dar notícias da evolução da sua vida íntima, do que têm feito em congressos, em badanas.

Na cidade, não se usam verdades com maiúscula, é puído o algodão, a palavra dita pelos quase-quase-felizes. Na linha verde, as palavras garantem uma forma de comunicar perplexidades além de toda a causação corporal, satisfazendo os manelinhos, no seu gosto particular de beber galões por perto (uma condição, talvez, de metabolismo basal), e as boas-filhas que mordiscam, sempre nova, boa fruta, pêssegos, clementinas, e gostam das explicações das maiorias, de ir lá fora, de hotéis e de muito.

Na cidade lê-se, e na leitura, as palavras são um conduto posto em prática, uma sequência estabelecida de letras ingredientes, janelas de espreitar, de abrir tanto quanto os atilhos permitem. O corpo faz depois o que é costume fazer-se, numa caligrafia que anoitece a graça dos comuns em mais um regresso das vindimas.

Regista-se, porém, que a cidade comporta de facto génios no seu íntimo canavial, e como os documentários de palavra célere ensinam, era lá que deveríamos todos estar, praticando o absolutamente irrisório, fruindo a tertúlia cosmopolita e a elegância funcional do arvoredo de betão, não fosse a sintaxe servil que nos fixa as condições produtivas (é preciso mais, é preciso mais) em região de candura rural, rigorosamente ajustada à definição de um ambiente operário que articule as mãos sem jeito.

Na infância primária, as palavras são-nos ditas sabendo-se de onde vêm - tão longe tão longe, os rapazes as raparigas de maus humores em reuniões de condomínio - e quando um homem nos leva à cidade, sabemos o que disso dizer com critério. As palavras, no sarro do uso insistente, carecem de variação, de exercício, porquanto são um significado, matéria de ler, de ser, conduto valioso na descoberta do mundo, que diz aos homens que mingam ao balcão que deveriam ser sempre uma fome, o ainda-por-conhecer, o mais que o seu horizonte é dispensado de adivinhar.

Dos amigos, na cidade, há muito me fiz freguês. De cotovelo no balcão rio segundo partes deles, menino sem cuidado numa mesa corrida. Com eles acredito que é possível viver no montijo, que o homem de barbas que um dia me apresentou a cidade, deverá ter sido uma paixão entre-tantas, que interrogou um par de mocassins com olhos de tempo perdido.

No aprumo do seu regresso (aguardo-o em cada esquina), entre uma sopa e uma mancheia de grelos, outras palavras serão ditas, que elucidarão, espero, o espanto de me saber refugiado sob a minha própria pele.

INVERNO

Por aqui, em dias de inverno,
o frio é tão escasso que até se parece
uma destas mínimas canções de amor
que habitam o vento e desaparecem
quando ainda são transparência.

Após muito, ontem choveu.
Eu me preparava para a cama
e escutei o sussurro de passos
sobre o gramado do jardim.

Talvez, afinal, tenha sido mais
névoa do que garoa – a relva
amanheceu queimada de orvalho
e a tarde é de uma fria umidade
que se condensa no céu macio
de nuvens tão cinzas e baixas.

Os carros, regressando ao estacionamento,
lançam uma luz que atravessa a folhagem
das árvores compradas em lojas de departamento –
até então, pareciam-me palmeiras domesticadas
mas olhe, disse Ana, erguendo
uma pétala branca desfeita entre os seus dedos.

Reminiscências Circadianas

Lembras-te do rio no crepúsculo lento daquela cidade antiga, quando passo perto dele
Nunca sou o que conheces, também esse ficou algures entre as portas do elevador,
Que se fechou atrás de mim e encerrou até o para sempre de hoje, o teu cheiro misturado
Com aquele perfume, que tantas vezes encontrei depois, nunca exactamente o mesmo
Ao Sol, será que hoje me pagavas o jantar antes de me encerrares contigo numas águas
Furtadas com vista para o castelo, ou darias pelos anos no meu cabelo, o que me fez o tempo,
Naquele tempo lia Kierkegaard no comboio e passava horas a tentar equilibrar o humor
Na almofada, levava as fodas contadas e depois era tudo um risco que aceitavas também correr,
Tinha mais medo à falência hepática que hoje, apesar de ter mão para tudo, que me fez o tempo,
Tornei-me demasiado amigo dos sofás vazios e dos dias somados aos sonhos rasgados,
Hoje de certeza que não me pagarias um jantar, nem me deixarias adormecer exausto na tua cama,
Sem saberes dizer bem o meu nome, não me chuparias antes do látex, quase desajeitada,
Tu que rejeitaste o senhor arquitecto e deixaste entrar quem te levou uma garrafa de vinho
Do porto, barato, simples, uma cerveja também, em copo de plástico enchendo-se
De pôr-do-sol, tudo fica a brilhar quando se apaga nos olhos, longe, o que me fez o tempo até aqui,
Não sabias que te escrevia, hoje sabes e continuas a não poder ler-me, é pena,
Tantos que me preferem as entrelinhas e os espaços em branco, o tempo que me gastou
E me afastou dos comboios e das cidades antigas, redescobertas na carne exótica,
Será que pensas em mim de vez em quando, e se tivesse ido pelas escadas, teria passado
O tempo como passou, hoje os meus olhos são cansaço, desilusão e uma fome de quem
Comeu sempre demasiado e ficou sem dentes num mundo cada vez mais farto de confusão.

Turku 24/08/2014 

O livro de Jón e uma Língua que não era a sua

É um livro, mas são cartas, mais precisamente 28, escritas por Jón, personagem fictícia e real, à sua mulher Þórunn. Ambos separados por uma ilha, ela no norte, ele no sul, onde se refugiou numa gruta após ser acusado de assassinar o abade que era seu superior e simultaneamente marido da mulher com quem veio a casar. Jón, o pastor sem congregação perseguido por obscuros rumores e que se diz ter realizado um milagre ao desviar um rio de lava, é ainda um desconhecido que chega com o seu irmão a um local estranho, um homem que passa a ser visto com mais suspeita do que aquela que lhe mereceria apenas a deslocação para terras mais meridionais devido às suas ideias, às melhorias que introduz na gruta e nas terras que pertencem por direito à esposa e, sobretudo, aos seus planos optimistas para uma nova Islândia livre do jugo e do monopólio comercial dos invasores dinamarqueses, tema recorrente na literatura histórica islandesa, onde o veio nacionalista se funde com o orgulho de um povo. Rumores, ideias, planos: são estes últimos aquilo que mais partilha com Skúli, seu frequente visitante, também ele – como muitos neste livro – um homem de carne e osso antes de o ser no papel, o meirinho geral que deseja reinventar a Islândia e torná-la um país independente e exportador dos mais variados bens.

                  O livro de Jón é, na sua língua, um romance sobre Jón, e se o último é o mais irmão à originalidade que lhe compõe o título, o primeiro não lhe será menos fiel, pois este é um livro sobre e de Jón: ele é o narrador presente, o autor das cartas, é ele quem nos descreve a Islândia, os episódios bizarros, o clima, as viagens, as suas frustrações, desejos, crenças, ideias filosóficas, desilusões, enquanto somos leitores e, simultaneamente, Þórunn, essa mulher amada e abandonada num período de angústia, num país em que – no ano maldito de 1755 – a terra treme e a lava corre em rios.

Ófeigur Sigurðsson.jpg

A escrita de Jón, que é, por sua vez, também ele Ófeigur Sigurðsson, é um misto de crença nas ideologias e na religião transmitida de geração em geração e das luzes que se fazem sentir na Europa, tardiamente chegadas a uma ilha remota nos confins do mundo habitável; Jón não esconde essa dualidade na sua escrita, nas cartas que envia, feitas de frases longas, onde se usa e abusa da /barra/, composto por afirmações e interrogações longas, repletas de referências culturais islandesas e europeias que tornam difícil a vida ao tradutor de um livro que, com poucos anos de impressão, têm na linguagem o peso de mais de três séculos e a distância de um mar que o separa de um país marginal mas unido ao continente que ambos partilham, tornando o seu trabalho pesaroso, extenuante, envolvente, duros de meses sentados a secretárias dolorosas.

                  Felizmente, para o leitor português, O Livro de Jón será bem mais fácil e celeremente tragado em toda a sua beleza linguística e sumarento conteúdo e, certamente, lido em peças de mobiliário que unirão o conforto da leitura ao das costas…