Flash de sangue engolfada pela boca

E penso que há blocos sonoros e táteis onde essas criaturas-eventos ocorrem. 

Ali era o escuro da sala de cinema vasta pela sua solidão p&b. A música que fazem ecoar lá dentro me desloca para aqueles movimentos sonhados: a abertura de camadas sedimentadas pelos discursos dominantes, desfacelando-se, correndo pelo rio a paisagem interior; aqui eu te conheço, Manaus. Brota-se um mundo, habita-o na língua alheia – o botânico alemão, o xamã caxinauá, os padres espanhóis, os portugueses com suas manias excessivas. O mundo é uma fera indizível, se diz numa canção.

Nada; nem as mensagens piscando nos bolsos, ou as ligações perdidas de alguma urgência inútil e familiar, e-mail de noticiário catastrófico ou demissões, me tiram das imagens que estão rodando, sempre. Entre o filme e nossos silêncios me intriguei com o corpo na outra extremidade da mesma fileira. Traços que se recortavam líquidos, com o lançar imprevisível das luzes da tela. Cabelos curtos, olhos como dois reflexos de estrelas-no-rio. Uma presença suave e fictícia, sentada no tempo tênue. Demorei muito naquele imaginar. Minha delicadeza ali, o verbo amoroso entre nós-silêncio, nos deixaríamos partir, que vida errada levávamos nessas avenidas e ruas de São Paulo; será que ela perceberia, a minha delicadeza? Um estrondo nas luzes da câmara de ecos – o herói multilado. Levou um soco na boca, bem no meio desta chuva da rainforest.

Depois que as luzes se acenderam a delicadeza seda flutuante se levantou, o corpo me olhou por instantes e sorriu; éramos só nós dois na sala, estivéssemos a frente da cidade, soubéssemos segredos; e depois foi logo em direção à saída, daí para o calor das ruas. 

Nos nossos passos me percebeu, pensei em segurar seu pulso, entrelaçar-lhe os dedos, mas seria ridículo, apenas disse "vamos nos mandar pra Manaus". A minha delicadeza riu.


Sinéad Morrissey, Uma anatomia do olfacto

tradução de José Manuel Teixeira da Silva

É a melhor parte do dia - quando ele termina
aqui mesmo, contigo, entre lençóis que cheiram à nossa pele.
Consigo senti-la na noite: a tua pele, a delicada, magnética membrana
podia trazer de regresso a casa o meu ser perdido
com um simples toque no meio do escuro. Reconheço-a de novo, essa expansão
de sons e luz. Destrói qualquer distância entre nós dois.

Tinham cheiros os vestíbulos dos amigos de infância, cheiros familiares
que perseguiam os membros da família até à escola, quando iam clandestinos
nas mangas dos casacos e nas lancheiras, e eram furtivas revelações
das origens, de quem fez o quê, do que se calou
de súbito tão evidente como se tivesse acabado de chover.
Um exalava vinho, outro caminhara enrodilhado em mantas e em pleno sol;

quanto a ela, levava consigo o aroma antiséptico da caixa de insulina ou de pó de coco
bem junto a si, nos seus cabelos, e uns tempos depois o que tive de aprender
como sendo o discreto e difícil odor de um divórcio -
metal de estaleiro escavado por faíscas, cuspe, brilho de botas e ferrugem.
E sabia bem que tudo o que pairava no meu hall de entrada
revelava como um raio-x o perfil e a inclinação da minha espinha.

Agora, temos os dois também uma identidade -
o nosso cheiro impregnou os lençóis e envolve-nos a casa -
tinta invisível codificada até ao osso.
Tecêmo-lo espessamente como qualquer família
transporta em si o que é totalmente seu, totalmente distinto
e marca cada filho para a vida com a oculta natureza da sua criação.

Vindos de ti, os cheiros do deserto de Tucson:
depósitos de cobre, caveiras de animais, o risco a giz
das estrelas que nenhuma nuvem encobre ou tinge, o ocre e o chilli.
De mim, algodão lamacento, brilhos de carvão, alhos selvagens, o lodo do rio.
De nós dois, apenas sal. Quando um dia mudarmos de casa
vão seguir-nos genealogias assim.
 

Sinéad Morrissey  (Irlanda, 1972), Between Here and There, Carcanet, Manchester, 2002

 

An  Anatomy of Smell

It is the easiest part of the day — the ending of it,
here, with you, among sheets that smell of our skin.
I would know your skin in the dark: its smooth magnetic film
would bring me home and cease my being separate
with one blind touch. I know it again now, this expanse
of noise and light between us. It conquers distance.

Hallways of childhood friends had smells, family smells
that followed family members into school as stowaways
in coat sleeves and lunchboxes — slipped giveaways
of origin, of who made who, of what was left to tell
made suddenly clear in every detail as if recently rained on.
One was made of wine; one walked crushed by blankets even under sun;

one carried the antiseptic of insulin packets and coconut dust
about her, in her hair, and later what I knew by force
 to be the thin, hard odour of divorce —
shipyard metal caving under sparks, spit, boot polish and rust.
And I knew also that whatever was in my hallway
was exposing the line and the set of my spine like an x-ray.

Now we too have an identity —
the smell of us is through our sheets and wrapped around our home —
invisible ink encoded onto bone.
We have wrought it as surely as any family
forges something wholly themselves and wholly different
and marks each child for life with the hidden nature of their generative act.

From you, the smell of the Tucson desert: 
copper deposits, animal skulls, the chalk trajectory
of stars no cloud covers or stains, ochre and chilli. 
From me, bog cotton, coal fires, wild garlic, river dirt.
 And from the two of us, salt. When we move house
such genealogies as these will follow us.

quando em seu bote inflável

Egon Schiele, Danae

Egon Schiele, Danae

quando em seu bote inflável enfim ventanias sopraram e um turbilhão de águas confundiu seu rosto em pavor e pranto ela o filho acolhendo as mãos sobre ele pousou e assim disse: “filho, que dor desabou sobre nós! seu corpo não sabe e você dorme profundamente neste mísero bote de preto látex que sobre o breu-cianuro desliza nesta noite pobre de brilho nem tampouco sente o sal se abater sobre seus cabelos e à voz do vento permanece surdo somente se deita sobre uma sacola um plástico sujo com tão linda tez pois se nosso horror em você causar ainda mais horror cubra os ouvidinhos amor te peço que apenas durma te peço pequeno que também durma o mar e durma o mal que estremeça em brilho toda a mudança vinda de teu gesto e perdoe por favor qualquer pecado em nossa fuga” e contra as rochas se abate à noite quem buscava refúgio enquanto dormimos e o fluxo contínuo das águas de algas o corpo todo cobre e com ânsia da costa os cílios cerrados mantém sem lembrança da mãe não acordem quem longe de casa sobre a areia morre

Entre a obscenidade e a vergonha: do pudor

Burkini vs biquíni.jpg

Numa entrevista dada ao jornal Libération, Eric Fiat relembra a importância do pudor nos jogos eróticos, ao mesmo tempo que desenvolve uma linha argumentativa acerca da mais recente polémica francesa sobre o burkini vs. biquíni. Para este filósofo o pudor, que elogia sem condições, é um “jogo subtil de velamento e de desvelamento”. E o charme está todo aqui: saber fazer esta passagem, na intensidade e momento certos.

Ao longo da história, houve épocas mais e menos pudicas, o século vitoriano levou o puritanismo à sua máxima expressão (maior dissimulação possível do corpo), enquanto os “loucos anos vinte” liberalizaram comportamentos anteriormente considerados obscenos (dança com corpos colados, por exemplo). Por outro lado, ainda dentro do relativismo, o homem pôde mostrar partes do corpo que estavam imperativamente escondidas nas mulheres, o pudor foi, e continua a ser, também uma questão de género. E talvez o uso do Burkini seja a reinvenção de uma discriminação profunda entre o feminino e o masculino. Ao mesmo tempo que a imposição, auto (“servidão voluntária”, La Boétie) ou hetero, do velamento da mulher no Islão fundamentalista revela mais, segundo Eric Fiat, a obscenidade do olhar masculino do que respeito pelo pretenso pudor feminino.

Se à partida o pudor parece ser apenas positivo, o filósofo fala da possibilidade dele deslizar para a ostentação (uma contradição nos termos). “A reivindicação de trazer este vestuário em nome do pudor é estranho. Ao mesmo título que a modéstia, a simplicidade ou a humildade, ele faz parte dessas virtudes frágeis que não se podem afirmar possuir sem imediatamente as perder.” Quando nos consideramos modestos somos orgulhosos, complexos quando nos dizemos simples e impudicos ao proclamarmo-nos pudicos. Como se se tratasse de “uma reserva que se anuncia gritando”. O pudico só pode mostrar-se discretamente, por isso entre uma mulher em biquíni e outra em burkini, a mais pudica não é necessariamente esta última.

É difícil definir filosoficamente a noção de pudor. Os espíritos puros e os corpos puros, “anjos e animais”, não têm pudor. Só o homem, essa “dissonância incarnada”, feito de corpo e espírito, é um animal pudico. E há ainda, claro, uma “geografia do pudor”, nalgumas culturas, por exemplo, não é indecente andar nu desde que se traga uma pulseira, noutras basta um pequeno sinal pintado na cara, ou ter a pélvis depilada...

Nas nossas sociedades, o contrário do pudor está na exposição sem controlo que muitos buscam ao mostrarem-se, "na intimidade", em revistas cor-de-rosa ou programas de televisão populares. Aí, nada de subtilezas, é preciso que as palavras pesem e que as imagens choquem. É esta grande visibilidade que traz a obscenidade. Não há claro-obscuro, tudo está debaixo de potentes holofotes e os espectadores perscrutam os pormenores sórdidos. Se é verdade, diz Éric Fiat, que não se pode viver na obscuridade total (até o mais recatado aspira a algum reconhecimento), o pudor, que comporta, para o ser, a possibilidade da vergonha, é uma componente decisiva na nossa maneira de estar no mundo, de nos relacionarmos com os outros (e também connosco). Além disso, o pudor tem claras virtudes afrodisíacas, bem gerido (que não iniba onde e quando não deve) ele tem um charme profundo. Se desaparecer, “será a morte do amor”, já que há uma “alegria erótica quando o pudico se torna impudico”, tudo feito no momento oportuno, o erotismo, diz o filósofo, é uma “kairologia” (“ciência do momento oportuno”). É por isso que Éric Fiat não se sente minimamente atraído pelo naturismo, porque, sem o saber, promove a obscenidade (quando revela aquilo que devia esconder). Numa praia “normal”, o pudico mostra e esconde simultaneamente, o que alimenta o desejo.

Talvez vivamos hoje num desvio forte do pudico para o obsceno, provocando, na lógica dos contrários, reacções bastante conservadoras, como é o caso do velamento islâmico. Resultado da sociedade ser “talvez adolescente, tendo dificuldade em encontrar a justa medida entre o vício por excesso de pudor, a vergonha, e o vício por falta de pudor, a obscenidade.”

A metáfora mais gentil do mundo gentil, de Carla Diacov (edições Macondo, 2016)

CREISI

 

minha primeira vez no banheiro do CAPS
não vi tranca e acho que não vi mesmo foi a tranca
a trava que não vi
deito-me pela primeira vez no louco mijo
deito-me sobre portos lagos choros
estações
agosto
o mês de sentir ser cão de louco
nunca fui de impedir a ironia na minha loucura
quem sou eu para travar guerra com as portas
com o banheiro do CAPS
agosto com frio e suja
tão suja
de orelhas sujas espalhadas pelo sinal
das visitas
uma namorada e uma minha mãe
bocas cada vez mais precárias
o banheiro pelo amor de deus
deus
uma louca me pediu um beijo de língua
dei intensamente científica amizade
plano de fuga
que tipo de louca eu seria se beijasse uma louca
sem deus no mapa com grades
à porta do banheiro do CAPS
deus está à porta de todos os loucos banheiros
há sempre uma variável disso
claro e dependendo
aquele do beijo
desconfiamos dele
meio barulho penado
mundão de gente num quadrado só de areia na praia
o dia não dura uma onda do CAPS
anote aí
posso afirmar com todos os nós que aqui me dizem
o banheiro dá teto
voar é que não sobra
delibera a porcelana estar trincada
grades e vidro
São Bernardo inteira é de um vidro que conheço há séculos
anote
de dentro há séculos
a trava do banheiro
a trava a tranca
minha vez de gritar coleiras
isto
minha vez de gritar coleiras no banheiro do CAPS
como numa propaganda da saúde
a enfermeira não me pergunta se estou de acordo com
o travesseiro
conforta-te e ponto
o banheiro é logo ali
mas e a tranca?
a loucura
disse
boneca
a loucura é trancada mas vê-se das origens
dois lados um só da tranca
boa noite vem chegando o cowboy das injeções
um beijo de língua afiada
a moça do beijo pedido
anote
um beijo um cobertor e
numa pá de areia mijada
estamos fora da intenção  


LANÇAMENTO

A metáfora mais gentil do mundo gentil, de Carla Diacov
Dia 25/09 a partir das 22h

Eco - Performances poéticas | Café Muzik
Rua Espírito Santo, 1081 - Juiz de Fora, MG

SOBRE O LIVRO:

Uma das poetas mais instigantes da nova geração chega às Edições Macondo trazendo uma "poética dos banheiros". A metáfora mais gentil do mundo gentil, primeiro livro de Carla Diacov editado no Brasil, é um apanhado íntimo de situações e registros de uma voz espantada e eufórica, que corre linhas como se deixasse aberta a porta do banheiro público e chamasse os leitores ao redor.

Ilustração da Capa: Anna Mancini
Revisão: Anelise Freitas
Número de páginas: 40
ISBN: 978-85-921140-2-2

SOBRE A AUTORA:

Carla Diacov é uma poeta brasileira nascida em São Bernardo do Campo em 1975. É formada em Teatro e possui poemas publicados em diversas revistas no Brasil e em Portugal. Amanhã alguém morre no samba, seu livro de estreia, foi publicado em Portugal, em 2015, pela Douda Correria. Ainda esse ano lançará Ninguém vai dizer que eu não disse pela mesma editora.

Carla Diacov na Enfermaria 6


Os livros já podem ser encomendados por e-mail, através da página da Macondo no Facebook ou em alguma das suas lojas virtuais.