Canto heróico e fúnebre para o alferes caído na Albânia

Odysseas Elytis

Tradução de Manuel Resende

(Fragmento)

I

Ali onde primeiro habitava o sol
Onde com os olhos de uma virgem se abriu o tempo
Quando do sacudir da amendoeira se enchia de neve o vento
E subiam ao cimo das ervas os cavaleiros

Ali onde pisava o casco de um plátano esguio
E uma bandeira crepitava no alto terra e água
Onde nenhuma arma pesava no ombro
Mas todo o cansaço do céu
O mundo inteiro brilhava como uma gota de água
De manhã, aos pés do monte

Agora, como dum soluço de deus alastra uma sombra.

Agora, a angústia recurvada com mãos ossudas
Toma e apaga uma a uma as flores por sobre si;
E nas ravinas onde as águas pararam
De fome de alegria jazem as canções;

Monges pedras de frios cabelos
Partem em silêncio o pão do ermo.

O inverno penetra até ao cérebro. Algo de mau
Se vai acender. Embravece a crina do monte.

Os abutres repartem lá em cima as migalhas do céu.

II

Agora sobe nas águas turvas uma agitação

O vento preso nas ramagens
Sopra ao longe a sua poeira
Os frutos cospem as suas sementes
A terra esconde as suas pedras
O medo escava uma mina e penetra correndo
No momento em que na mata dos céus
O uivar de uma nuvem-loba
Estende pela pele do campo uma tempestade de arrepios
E depois espalha espalha neve neve impiedosa
E depois corre enfurecida nas planícies em jejum
E depois põe os homens a saudar-se:
Fogo ou faca!

E para os que com fogo ou faca se moviam
Vai-se o mal acender aqui. Que não desespere a cruz
Mas, as violetas, que rezem longe dela.

III

Para eles a noite era um dia mais amargo
Fundiam o ferro, mascavam a terra
O Deus deles cheirava a pólvora e a pele de mula.

Cada trovão era uma morte a cavalo no vento
Cada trovão um homem a sorrir diante
Da morte - e que diga o destino o que quiser.

Súbito o momento desviou-se do alvo e ganhou coragem
Atirou cacos de vidro em plena face do sol
Lunetas, telémetros, morteiros, ficaram de cera!

Como o vento se rasga com a facilidade da tela!
Como as pedras se abrem com a facilidade de pulmões!
O capacete rolou do lado esquerdo...

Na terra apenas um momento estremeceram as raízes
Depois desfez-se o fumo e o dia foi timidamente
Enganar o nevoeiro com ardis

Mas a noite ergueu-se como víbora pisada
Apenas se deteve um pouco nos dentes a morte -
E depois irrompeu até às suas unhas lívidas.

IV

Jaz agora sobre o manto chamuscado
Com um vento parado nos cabelos calmos
Com um raminho de esquecimento no ouvido esquerdo
Parece um jardim que os pássaros abandonaram
Parece uma canção que amordaçaram no escuro
Parece um relógio de anjo que parou
Mal as pestanas disseram "olá, gente"
E o espanto se petrificou...

Jaz sobre o manto chamuscado.
Séculos negros ali em volta
Uivam com esqueletos de cães o terrível silêncio
E as horas que se mudaram em pombas de pedra
Escutam atentas;
Mas o riso ardeu, mas a terra ensurdeceu,
Mas ninguém ouviu o mais derradeiro grito
O mundo todo se esvaziou com o derradeiro grito.

Sob os cinco cedros
E sem outros círios
Jaz sobre o chamuscado manto;
Vazio o capacete, lamacento o sangue,
No flanco o braço meio acabado
E entre as pálpebras -
Pequeno pequeno poço, marca do destino
Pequeno pequeno poço negro-rubro
Poço onde esfria a memória!

Ah não fiteis não fiteis o ponto -
O ponto por onde se foi a vida. Não digais como
Não digais como subiu muito alto o fumo do sonho
Foi assim então que um momento. Foi assim então
Assim então que um momento abandonou o outro,
E o sol eterno assim de súbito o mundo!

V
Sol não eras eterno?
Pássaro não eras o momento de alegria que não descansa?
Claridade não eras a ousadia da nuvem?
E tu jardim teatro das flores
E tu raiz flauta encrespada da magnólia!

Assim quando estremece a árvore na chuva
E o corpo vazio enegrece com o destino
E um louco se fustiga com a neve
E os dois olhos vão para chorar -
Porquê, pergunta a águia, onde está esse bravo?
E todas as águias perguntam onde estará o bravo!
Porquê, pergunta suspirando a mãe, onde está o meu filho?
E todas as mães perguntam onde estará o rapaz!
Porquê, pergunta o companheiro, onde está o meu irmão?
E todos os companheiros perguntam onde estará o benjamim!
Agarram a neve, e a febre queima
Agarram a mão, e está de gelo,
Vão p'ra comer pão, e o pão escorre sangue
Fitam o céu ao longe, e o céu tinge-se de negro
Porquê porquê porquê porque é que não aquece a morte
Porquê um pão tão sacrílego
Porquê este céu assim, ali onde habitava o sol!
 


A versão que aqui se apresenta foi originalmente publicada por Manuel Resende num número especial da revista Nova Renascença dedicado a traduções de poesia.

Odysseas Elytis (1911-1996, Prémio Nobel da Literatura, 1979). "Lamento heróico e fúnebre para o alferes caído na Albânia" foi publicado originalmente em Atenas, em 1945. Numa nota à edição inglesa das obras completas (Carson & Sarris) pode ler-se o excerto de uma carta de Elytis a Kimon Friar, em que o poeta alude à origem do poema: "The virtues I found embodied and living in my comrades formed in synthesis a brave young man of heroic stature, one whom I saw in every period of our history. They had killed him a thousand times, and a thousand times he had sprung up again, breathing and alive. He was no doubt the measure of our civilization, compounded of his love not of death but of life. It was with his love of Freedom that he recreated life out of death". 

André Jorge (1945-2016)

Factos da vida de André Jorge: editor da Livros Cotovia, amante de livros e de gatos. Um breve editorial em jeito de obrigada. 

Factos da vida de André Jorge: editor da Livros Cotovia, amante de livros e de gatos. Um breve editorial em jeito de obrigada. 

Se fôssemos muito optimistas, talvez pudéssemos dizer que uma casa editorial podia dar em espelho perfeito da vida cultural de um país. Os livros presentes nesse catálogo surgiriam então não apenas como uma resposta às procuras vorazes impostas pelo percurso intelectual de cada um, mas também como gestos de perfeita adequação às necessidades culturais de um país inteiro. Na versão mais pessimista – Portugal, país ignorante que não quer saber de livros para nada –, não teríamos outra hipótese que não classificar uma tentativa que encaixasse nesta descrição como ocorrendo no campo da pura megalomania. Mas é verdade que a existência de determinado livro, o facto de ele poder ser avistado, talvez numa livraria para os lados da Rua Nova da Trindade, habitada por uma gata preta, pode ser suficiente para criar num leitor a necessidade dele, mesmo quando se está no princípio e não se sabe nada de livros. Às vezes a vida de uma pessoa confunde-se com os seus projectos. Editor de Homero, Pavese, Ovídio, Milton, Walser, Horácio, Catulo, Ibsen, Brecht, Christa Wolf, Virginia Woolf, Rohmer, e de uma efémera revista. Talvez seja esse o melhor epitáfio. As dívidas que os vivos reconhecem ter para com os mortos, mesmo aqueles com quem nunca se cruzaram, são também uma maneira de celebrar a vida destes. Certas escadas não têm mesmo degraus. André Jorge (1945-2016). 


Sublinhados noutros lugares:

Obituário, Facebook, Livros Cotovia.
Ricardo Domeneck, "Morreu o editor português André Jorge, amigo de poetas", DW
Joana Amaral Cardoso e Inês Nadas, Morreu André Jorge, o editor que era a Cotovia
Entrevista de Alexandra Lucas Coelho, "Sou feito do avesso", 2008, Público:

Quem gostava de editar?
Alguém que certamente não me queria como editor, o Lobo Antunes. Gosto bastante.
...

 

Quatro poemas de Anelise Freitas

Canto XXVI (ou texto da aliteração velar-oclusiva I)

quando o gato das cordas gastas
pede no cantinho gemido
do ouvido um gesto me distrai
pegaria o resto e o registro
e rasgaria todas as fotos
gritando tus bolas batendo
guá! a onomatopeia ve-
lar e oclusiva enquanto eu pango 

 

Canto XXVII (ou texto da aliteração velar-oclusiva II)

sente enquanto cresce e não tem fim nem pingo
nem ponto nem garantia de que transformar um poema
em uma coisa capenga será extraordinária não garantimos
nada pra hoje gangue gago gota galinha e o paralelismo
de um poema é quando as sílabas apagadas ganham equilíbrio
aliteração e assonância = rima
ainda pingamos um pagode aqui
e outro em pindamoguangaba ou
pasárgada mas é preciso que rime, rimemos
riremos (muda o verso)

 

Canto XXVIII (ou texto da aliteração velar-oclusiva III)

pego um pequeno adendo pra dizer.
diga. digamos que: eu tenha nutrido amor por poeta
e amar é muito mais que corpo, é presença e gosto ainda
de você
enquanto chora,
talvez entre aquele cigarro e o agora
o mundo tenha acabado
e eu nem vi.

 

Canto XXIX (ou texto da aliteração velar-oclusiva IV)

e se eu te dissesse que amo você
que amo a maneira como aquele corpo
se move quando encontra música
que amo o rosto da menina portuguesa enquanto
sorri ou acende um cigarro
(que eu sei, eu estive lá,
eu precisei sair pra encontrar aqueles lábios)
que amo observar as costas
nuas da menina que pratica meditação
que eu amo aquela que dança sobre
a mesa ou veste maiô tatuagem
que eu amo a garota que transforma e
gerencia as coisas e tudo garante engaveta-se nela
que amo também a tua forma
irônica de encarar a vida não
porque eu admire ou me complete, mas
porque é uma forma criativa de ver a poesia
na sujeira dos sapatos que te acompanham
e os críticos guturalmente preveem crise no
pós-guerra


Portugal incandescente

Se falássemos de literatura ou de filosofia, das que se aventuram para lá das grelhas lógicas ou das concordâncias sintácticas, da submissa correcção ortográfica ou da citação exacta, o título desta crónica indicaria um passeio por belos trilhos de ideias e palavras, talvez nos levasse até lugares sublimes, reais ou imaginários, fazendo eclodir o que melhor sabemos ser e fazer, enquanto humanos, sempre primeiro, e portugueses. Infelizmente isto conduz-nos antes para sítios cinzentos, muito cinzentos (uma cor mal-amada porque muita linguagem continua no reino metafórico).

Portugal está literalmente a arder, ou melhor, arde neste país (que nunca é “nosso”, é bom dizê-lo) grande parte daquilo que ainda podia arder: o Trás-os-Montes e Minho mais arborizados, o Douro Litoral e as Beiras Litoral e Alta. Isto deve-se, como referiu Manuel Carvalho no Jornal Público de 14/8/2016, a uma execrável ineficiência política e a preferir-se o lucro fácil e rápido, os arraiais e a Providência; em vez de planear, de prevenir sistematicamente, de realizar um trabalho de base, invisível mas estruturante. Manuel Carvalho acaba, porém, num tom ligeiramente optimista porque remete para o Estado, esse velho mastodonte, e o valor económico da floresta o poder de fazer renascer das cinzas mais uma fénix (ou tirar um coelho da cartola).

Eu, com filtros cada vez mais pessimistas, tenho menos esperança. Parece-me que preferimos o alcatrão e o betão às árvores e arbustos, os estádios de futebol aos jardins, a cidade ao campo. Mesmo a literatura, depois de Miguel Torga e um pouco de Eça e Garrett, abandonou a natureza; ninguém louva ou se interroga sobre a beleza de certas paisagens, a pintura prefere as pessoas, a sociedade ou os conceitos, o cinema as viagens interiores ou a crítica social, a fotografia rostos, pores-do-sol e linhas de horizonte abstractas. Só podemos amar aquilo que compreendemos, diz Maria Filomena Molder, e como compreendemos muito pouco o que ultrapassa o nosso pequeno território biográfico, feito de entretenimento, trabalho, galhofa e queimaduras solares, como nos alienamos ainda mais na ideia de que ser humano é ser tudo, como o contemplador se desqualifica na grelha da seriedade se olhar longamente para a natureza, e depois mergulhar nela para sentir vibrações da alteridade, como não tivemos, nem teremos, um Rousseau, um Goethe, um Nietzsche, repórteres como Albrecht Dürer, Claude Lorrain, Nicolas Poussin, William Turner, Jean-Baptiste Corot, Gustave Courbet, Monet, Renoir, Pissaro, Seurat, Caspar David Friedrich, Cézanne..., homens de suprema inteligência e de amor incondicional às forças vitais da flora, aos arrepios que a montanha provoca num caminhante solitário que se elevou acima da sua condição de existente, como não temos nenhum partido ecologista sério, como erigimos em modelo de vida um apartamento na cidade (melhor, ainda assim, do que as casaronas da periferia, colonizando o dobro do solo que seria necessário), o guarda-sol na praia, a mariscada e o gin, os festivais de verão e as touradas, os centros comerciais e os futebóis... Como gostamos de viajar velozmente através do Marão (o novo túnel evita os “perigos da montanha”) ou do Alvão, parando apenas nas áreas de serviço para energizar as máquinas. Preferimos isto tudo a uma consciência e vivência alargada, acolhendo, e recolhendo-nos, no não-humano, numa encosta de urzes ou giestas ou num ribeiro nascente, num montado de sobreiros ou numa mata de carvalhos, num souto de castanheiros ou num bosque multiforme, na fauna selvagem (mais uma metáfora) ou nas estrelas que pontuam, há milhões de anos, os céus e que agora escondemos com os holofotes da iluminação pública (para “vermos de noite como de dia”, isto é, para não vermos o que a noite é capaz também de mostrar, fonte de inspiração dos grandes mestres da palavra, por exemplo), no lado abrigado de uma fraga que pontua um cume montanhoso. Como preferimos isto tudo, ficamo-nos pela identidade reduzida de um eu cheio de autocontentamento, uma minúscula biografia individual sem exterior, reconhecendo mais facilmente o lateral direito suplente do Benfica do que as espécies arbóreas autóctones representativas da nossa flora. 

Mata naturalmente descuidada numa praia da Costa da Caparica, onde estacionar custa €3,5

Mata naturalmente descuidada numa praia da Costa da Caparica, onde estacionar custa €3,5

Neste drama (os bombeiros e os militares gostam da expressão “teatro de operações”) pícaro ainda há lugar para a indignação, não a sensata, como deve ser sempre, mas expelida aos berros de “ninguém faz nada por isto!” Parecem ser esses “ninguéns” que destroem o país, não eu ou tu, ele ou nós, mas esses gajos que podiam prevenir ou apagar rapidamente os incêndios para que este fumo não incomode, já basta o do churrasco ou da sardinhada.

P.S. 1 Claro que há uma hierarquia na responsabilidade: pesa mais a quem permitiu a pinheirização, primeiro, e a eucaliptização, depois, do centro e norte de Portugal; a quem comprou meios de combate aos incêndios obsoletos; a quem preferiu, sem critério, o combate à prevenção; a quem subsidiou e subsidia cantores pimbas para as festarolas em vez de apoiar associações ambientalistas que intervêm no terreno (e há bastantes, sem reconhecimento ou suporte); a quem gastou rios de dinheiro em estádios ou auto-estradas que estão às moscas; a todos os políticos que tiveram o poder de fazer alguma coisa e não fizeram nada, por indolência, calculismo eleitoralista, convicções destorcidas, análises estúpidas. Não quero, pois, reproduzir a amálgama de “todos somos culpados”, mas também não devo alargar muito o campo da inocência.

P.S. 2 A obra de arte que abre este artigo é de uma pintora, Isa Lotte, que reúne actualmente nos seus trabalhos duas das suas preferências: árvores e fogo. Em simbiose estética. Passar esta simbiose para a vida é a minha utopia. Não escolhi, pois, o quadro por cinismo.

Eu falo para aqueles que correm de seus corações numa tarde de sol

Numa esquina você espera o ônibus
bem na frente do ponto de ônibus
bem na frente de um terreno
um terreno do tamanho da sua mão fechada
mas o terreno é um campo aberto
bem aberto, bem mais que seus dentes
bem mais que a justificação da caminhada
talvez até mais impenetrável que suas unhas

mas seria imponderável calcular um momento ou o todo
ao redor. seria pesado, do tamanho de um olhar que a gente
nunca quer ter.

eu falo para aqueles que correm de seus corações numa tarde de sol
e levam no bolso o passe do ônibus com todos os créditos
eu falo para aqueles que correm descalços pelo asfalto das ruas desossadas
e desatentos não tropeçam nos buracos

eu esfolo os olhos numa tentativa de fala
mas nada
nada
nada
parece alcançar a pequenez necessária
que se deve ter para que escutem a pele

eu falo para aqueles que subiram em suas cabeças e viram de lá
que o mergulho é algo que inunda
e corro atordoado por tantos muros
atento a tantas cercas
e falo para aqueles que ainda correm
falo correndo para aqueles que ainda estão

eu levo no bolso um peito aberto
um rebento
um sopro
uma barragem estourada

e agora te vejo ai
e te aviso:
teu ônibus vem,
mas demora. Os teus pés não precisam da espera, porque são asas.