hay no lobos

“Raoul Silva/Anton Chigurh: A vida se agarrou a mim feito uma doença.

“Now another one bites the dust
Yeah, let's be clear, I'll trust no one
You did not break me”

(Elastic Heart – Sia)

 

a taxidermia é uma arte
um processo
por meio do qual procura-se preservar
animal
durante muito tempo
o mais difícil é a expressão
o olhar
que se quer
que tenha o animal
como é difícil aprender animal
crescer animal
e é por isso que considera-se a taxidermia
uma arte

outra história e outra terra é

e seu movimento cabal
não
é ter um mais velho que a conceda

o pistão de abate
serviço ágil e muito mais pneumático
empalar memórias
claquete que dá no meio
ata esperas e últimas falas
que é que vem depois de

mas nem conseguiu terminar de contar o próprio sonho

e como
é que se conta batidas
de coração nos dedos depois
que decepam-se as mãos
e nos

ah
a gente vai caminhando
aí lado a lado

só a praxe
mesmo

pega aí com os seus nos meus metacarpos
só pra ir andando mesmo

no
country
for old man

conhecer animal
como é difícil

degradar os homens sem perturbá-los


Nota de leitura (9)

Máxima

 

Hoje é dia de dar lugar aos dias
o seu lugar. Está tudo muito difícil,
não há roupa nova mas pareces
seguro e fresco no teu ar concentrado,
a passear na rua que tu queres:
como nas festas antigas, tudo muito fácil,
a luz é justamente a que quiseres
para ler um livro da Fátima Maldonado.
O cão mordeu-me no focinho,
vou a correr para o hospital, ai
Jesus, está sempre a acontecer
uma coisa qualquer, darei aos dias
lugar nenhum: não me quero, sequer,
lembrar, do dia em que nasci
quanto mais comprar petróleo
para ler, à luz da lamparina, seja
lá que livro for. Quero é velocidade,
pressão, vontade, frequência,
interferência, invenção, atenção,
expressão, potência, inconveniência,
informação, alteração, inteligência,
razão, impertinência, emoção,
internacionalização.

Où mort.

Manuel Fernando Gonçalves
A Matiz e o Canto Oposto
Companhia das Ilhas, 1ª edição, 2013, p. 41
 

George Louis Buffon disse um dia: «Nada há de mais antagónico ao belo natural do que o esforço que se emprega para exprimir coisas ordinárias ou comuns de um modo singular ou pomposo; nada degrada mais o escritor.». Esta extraordinária verdade aplica-se a alguma da poesia portuguesa dos últimos vinte anos. É uma poesia de janelas fechadas e demasiado centrada em si. O diálogo que tenta estabelecer com o mundo que a rodeia é um diálogo falacioso, suportado por uma pomposidade que nada acrescenta àquilo que é dito.

Considero que o poema apresentado é o oposto, isto é, é um poema que procura o “belo natural” através das “coisas ordinárias ou comuns”, mas sem o esforço que “degrada” o escritor através duma singularidade e pomposidade abjecta. Manuel Fernando Gonçalves consegue dizer tudo aquilo que tem de ser dito, sem o recurso a um certo folclore sintáctico e morfológico.

Savon de Marseille e Fósforos Azuis

Este sabão trazido de Nice, savon de Marseille, pur vegetal, de fabricação artesanal,
Que passo sobre a pele deste dia e que cobre o vapor de perfume
E me traz de volta àquelas peles de noites quentes, antes da vontade além cueca,
Aquelas emigrantes bem lavadas que regressavam à companhia dos galinheiros e das couves,
Aquelas peles demasiado brancas para o calor da procissão, deixando um rasto de perfume
Que se seguia atrás da cruz, este sabão laranja de jasmim que me traz aquelas manhãs
Em que as mulheres da aldeia se juntavam para fazer sabão azul em caixas de madeira
Forradas com plástico e na aldeia toda o cheiro da roupa lavada no estendal da eira
Com aquelas cuequinhas e cueconas a acender e apagar sonhos e vontades,
Este sabão para turista que me abre a porta de um banho à hora da sesta em verões
Com menos pêlos e lava tanto o sangue das mãos do que mata como do que salva
E me traz a caixa de fósforos de Paterson e todo o potencial das coisas pequenas
Para abrir portas e acender vidas na nossa, na nossa pele que todos tocam e nunca é a mesma.

Turku 10.06.2017

Dois poemas

Temos braços
e com eles, desenhamos uma linha aberta
no ar

O silvo do vento é íngreme
e inclina as chuvas para dentro

Deus tem postura de Deus
mas os homens pouco sabem
sobre o que é isso

Também há o som que
habita no gosto das palavras

E em nós

E nós que de tão juntos
nos descobrimos mais estando em Um

Nossos braços abraçam e afastam
E
Só o são porque vivem a liberdade

Nossos braços que abraçam e afastam
Cortam as ações pelo gesto
E o gesto é presença em nós

__ 

Nossa voz é uma rua larga
onde não adianta olhar para todos os lados. 
A travessia é o perigo. 

 

Poema Victor Prado e Aldovano Barbosa

Page Break

para Ana de Araújo

No campo, as manhãs se formam


No campo, 
as manhãs
se formam

Isso já foi dito, 

Mas novamente: 

No campo, as manhãs se formam como
pequenos adornos que as crianças carregam
por ai

Pequenos brinquedos, esses nossos
velhos dedos: tão sóbrios, tão retilíneos

Distantes dos rizomas, do
líquido viscoso da vida, 
do orvalho, da
coisa bêbada como o vento

Essa dança é uma espécie
de sistema hidráulico
Essa curva é um ritmo verde

Mas a mula sempre empaca
ou
O caminho sempre exige, em sua
rigidez, outras chegadas

II

O fedor da casa antiga, 

igual o da pele a muito presa
dentro do gesso, 

sempre acha um canto, que respinga
tranquilo nos encaracolados das plantas

III

Trabalhosa estação, pronta
a ser onda brava: 

Mãe que dá sua benção
a cria que logo adormece: 

Essa casa erguida no primeiro Sol
Ereta e rija, 
Mas também aberta

IV

A natureza observa

E atua

Tão cotidiana quanto um milagre. 

Charles Bukowski, «Dinosauria, nós»

Tradução de João Coles

Nascemos assim
Nisto
Enquanto as caras de giz sorriem
Enquanto a Sr.ª Morte ri
Enquanto os elevadores se avariam
Enquanto as paisagens políticas se dissolvem
Enquanto o caixeiro do supermercado mostra o seu diploma
Enquanto o peixe sujo de petróleo cospe a presa oleosa
Enquanto o sol está mascarado

Nós
Nascemos assim
Nisto
Nestas guerras cuidadosamente loucas
Neste espectáculo de janelas de fábricas partidas de vazio
Em bares onde as pessoas já não falam umas com as outras
Em rixas de rua que acabam em tiroteios e navalhadas

Nascemos nisto
Em hospitais que são tão caros que é mais barato morrer
Entre advogados que cobram tanto que é mais barato confessar-se culpado
Num país onde as cadeias estão cheias e os manicómios fechados
Num lugar onde as massas elevam cretinos a heróis ricos
Nascemos nisto
Passeando e sobrevivendo nisto
Morrendo por causa disto
Silenciados por causa disto
Castrados
Debochados
Deserdados
Por causa disto
Enganados por isto
Explorados por isto
Mijados em cima por isto
Enlouquecidos e adoecidos por isto
Feitos violentos
Desumanizados
Graças a isto

O coração escureceu
Os dedos procuram a garganta
A pistola
A faca
A bomba
Os dedos procuram alcançar um deus indiferente

Os dedos procuram a garrafa
O comprimido
O pó

Nascemos nesta mortalidade pesarosa
Nascemos num governo endividado em 60 anos
Que em breve será incapaz de pagar os juros dessa dívida
E os bancos hão-de arder
O dinheiro será inútil
Haverá assassínio aberto e impune nas ruas
Serão pistolas e turbas errantes
A terra será inútil
A comida será um retorno decrescente
O poder nuclear será tomado pela multidão
Explosões assolarão continuamente a Terra
Homens-robô radioactivos perseguir-se-ão uns aos outros
Os ricos e os escolhidos olharão do alto de plataformas espaciais

O inferno de Dante será encarado como um recreio para crianças
Não se verá mais o sol e parecerá sempre de noite
As árvores morrerão
Toda a vegetação morrerá
Homens radioactivos comerão a carne de homens radioactivos
O mar será envenenado
Os lagos e os rios desaparecerão
A chuva será o novo ouro

Os corpos pútridos de homens e de animais tresandarão no vento escuro

Os poucos e últimos sobreviventes sofrerão de novas e hediondas doenças
E as plataformas espaciais serão destruídas pelo atrito
O desaparecimento gradual de suplementos
O efeito natural da decadência geral

E haverá o mais belo silêncio alguma vez ouvido

Nascido de tudo isto.

O sol ainda ali escondido
À espera do próximo capítulo.


Dinosauria, We

Born like this
Into this
As the chalk faces smile
As Mrs. Death laughs
As the elevators break
As political landscapes dissolve
As the supermarket bag boy holds a college degree
As the oily fish spit out their oily prey
As the sun is masked

We are
Born like this
Into this
Into these carefully mad wars
Into the sight of broken factory windows of emptiness
Into bars where people no longer speak to each other
Into fist fights that end as shootings and knifings

Born into this
Into hospitals which are so expensive that it's cheaper to die
Into lawyers who charge so much it's cheaper to plead guilty
Into a country where the jails are full and the madhouses closed
Into a place where the masses elevate fools into rich heroes
Born into this
Walking and living through this
Dying because of this
Muted because of this
Castrated
Debauched
Disinherited
Because of this
Fooled by this
Used by this
Pissed on by this
Made crazy and sick by this
Made violent
Made inhuman
By this

The heart is blackened
The fingers reach for the throat
The gun
The knife
The bomb
The fingers reach toward an unresponsive god

The fingers reach for the bottle
The pill
The powder

We are born into this sorrowful deadliness
We are born into a government 60 years in debt
That soon will be unable to even pay the interest on that debt
And the banks will burn
Money will be useless
There will be open and unpunished murder in the streets
It will be guns and roving mobs
Land will be useless
Food will become a diminishing return
Nuclear power will be taken over by the many
Explosions will continually shake the earth
Radiated robot men will stalk each other
The rich and the chosen will watch from space platforms

Dante's Inferno will be made to look like a children's playground
The sun will not be seen and it will always be night
Trees will die
All vegetation will die
Radiated men will eat the flesh of radiated men
The sea will be poisoned
The lakes and rivers will vanish
Rain will be the new gold

The rotting bodies of men and animals will stink in the dark wind

The last few survivors will be overtaken by new and hideous diseases
And the space platforms will be destroyed by attrition
The petering out of supplies
The natural effect of general decay

And there will be the most beautiful silence never heard

Born out of that.

The sun still hidden there
Awaiting the next chapter