Arquifono

E disse
Gaiaku Luísa: 
– […] 
nos confins
do Bitêdo, 
onde Malê 
Seja Hundê, 
roça de cima, 
estirava-se
rente a cerca
um facho
de fumo de corda, 
frutas
e litros de vinho
em reverência
aos índios. 
Enquanto no Ilê 
Alabassé, a visão
de um babalaxé 
de Gbessém, 
a grande píton… 
Em névoas
os portos
de onde vem: 
se Congo
ou Mina's Coast, 
Angola
ou Aruanda: 
África ecográfica
de amefricanos. 
Trabalhadoras
da Suerdieck
perceberam: 
O Ifá Dó 
– Irôko! 
Lokosis, 
Temi Aguessis
Bô Omin, 
e em Nagé,  
ainda tem
O Humpaime
Dahoméa… 
E quando
Odé Kojá, 
no peji
aos pés
do atin
– árvore
sagrada – 
no mato, 
na gruta, 
no buraco
oculta
um segredo, 
ou na I.B.M, 
no Ilê Iyá 
Nassô Oká, 
em Salvador
(não importa! 
onde o talabí 
toque o canto
para Gbéssem, 
Obaluaiyê e
Xangô. Eles
vêm…Chegam
até o abassá, 
no runtólogi, 
ou até no Ilê 
Ibecê Alaketu
Axé Ogum
Megegê, 
em Alapini, 
Azon Lepon) 
– : Arotô Seji, 
Obaluaiyê, Omolu, 
enquanto yalodé 
canta egungun
e olunda (erê), 
dança Obaluaiyê 
com folhas de imbaúba
nas mãos e palhas
nos punhos
enquanto Xangô 
aproxima-se do otá 
(ao mesmo tempo) 
Aganju Ominazon Didê 
atravessa o Riacho Capivari.


Dos editores que não publicam livros

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Todos os dias, a partir das sete da tarde, quando os funcionários abandonavam o t-4 no qual a sede da editora se encontrava instalada, o editor seguia o ritual de estalar os dedos, descalçar os sapatos, alisar o cabelo com um pente molhado, folhear o jornal diário enquanto delia o açúcar no café, e responder aos autores que, iludidos pelo delírio de ser incluídos num catálogo que equivalia a prémios literários e a sucesso imediato, lhe enviavam manuscritos, arriscando receber em troca humilhantes e insultuosas cartas — sucintas, impregnadas de azedas observações, como não presta, não apreciei, aprenda a escrever, volte à escola, cosa peúgas.

O editor reservara aquela sexta-feira para reler as páginas finais de um manuscrito que, não lhe tendo desagradado — a prosa não se enodoava com refogados poéticos, não lhe saturava a vista, não lhe puxava as unhas para os dentes, nem o desguedelhava — , apresentava uma pecha inultrapassável: o editor não só conhecia o autor como com ele antipatizava. “Estimado senhor, sobre o seu original não me pronunciarei a não ser para lhe rogar que se dedique a tarefas não associadas à escrita durante os próximos quatro ou cinco anos, talvez os que me faltam para partir desta medonha existência”, redigiu, e pousou a caneta, arrependido de ter iniciado a carta num tão cordato tom. Estimado senhor. Caro cidadão. Boa noite, animal. Soletrou o vocábulo depois de bochechar o café frio. Animal. “Senhor animal”, emendou, “acredite ou não, no exacto segundo em que o carteiro me tocou à campainha com o seu manuscrito nas mãos, cheirou-me a trampa.” Dobrada e enfiada a folha A4 no envelope, costumava apagar-se do pensamento do editor a memória do que acabara de fazer. Enfiava-se no táxi, aterrava na cama, e na manhã seguinte que voltasse mais lixo para rejeitar, mas não naquele dia. Remexia papéis, abria e fechava o jornal, tamborilava no tampo da secretária, numa inquietação de quem, habituado à mecanização do trabalho, se via de repente a cogitar sobre o próprio ofício. “Odeio literatura”, soprou. Odiava o que fazia, detestava livros, ler, escritores, errara na profissão, cogitava que, em vez de telefonar para jornalistas e críticos literários a ameaçar por causa do “trabalho medíocre”, em vez de escrever panfletos contra o recurso à pontuação dos livros mediante recurso a estrelas, em vez de rejeitar noventa e nove ponto nove por cento dos manuscritos recebidos, poderia ter dado melhor uso ao curso de direito e à herança do pai, poderia ter lutado por causas justas, boas, poderia ter procriado, adoptado um menino africano, mas fora editor.

“Excelentíssimo director”, começava o editor, numa nota a remeter para suplemento cultural que o indispunha pela particular razão de raramente publicar recensões negativas. “A literatura hoje existente germinou numa latrina e é minha, nossa obrigação desinfectá-la.” Antes do ponto final, uma última frase: “A minha editora deixa de existir agora.” Passava das duas da manhã, a noite orvalhada convidava a fechar os olhos, e o editor, a morrer de sono, esticou-se no sofá, depois de rasgar a carta, as cartas todas. Era editor, seria sempre editor.

Algo resiste no sentido do centro

Querias as redenções mais rápidas para os teus pecados furtivos
a tua glória silenciosa ardendo por dentro dum peito
frio por fora, aberto às intempéries do real
ciclo orgânico-emocional dos dias, do tempo
sem a lava, sem um sinal exterior do lume, sem ti: mas estás,
algo resiste
no mesmo compasso onde esse algo desaparece e o paradoxo invoca as terras mais inférteis
aquelas onde o grão já plantado não cresce e as orações se tornam espiga
para nenhum pão, porque não as há
as mãos: o templo profanado já não guarda as antigas relíquias
o ouro índio roubado das areias, através das areias marcadas
no mapa e na cartografia fidedigna do corpo: assim se profanam
os templos, com a deslocação espacial da matéria sacra e a sombra
do mito sem esquina para dobrar: foi nos museus abertos
das 8 às 8 onde expuseram as nossas peças mais estimadas
onde turistas hereges se satisfazem com seus tamanhos e suas formas
excepto
nos feriados e na duração da noite, quando penso em ti e nos símbolos
resíduos abstractos do que antes fora religião local
agora credo e rosário conduzido pelos caminhos interiores
no sentido do centro
sempre do centro quando a janela se fecha e os pássaros já não bebem
da água benta das nossas fontes, dos nossos jardins onde os frutos:

Sim, antes havia.

agora nas mãos (apenas as primeiras) seguramos os poucos capitéis que salvámos, mas tornamo-nos mais turistas com os dias, com o tempo real aberto às intempéries, dentro do ciclo orgânico-emocional desta ausência (a nossa) e entramos nos museus como quem confunde o sagrado com o profano, os altares com os quadros e esquece a colheita, a horta esperando outras mãos, sempre as mesmas.

 

Da Vide


Luís Chacho, Vida mulata

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Luís Chacho
Vida mulata
ficção

Enfermaria 6, setembro de 2017, 42 páginas

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Beber sem pressa é poesia, palavras compostas dos outros pelas costuras de outros ainda. Sou das narrativas, quando muito, tensas. Aí, concedo, sou língua ressuscitada. Um espírito que se dessolidariza lateral à carnadura, desenhada esta por braços insuficientemente diurnos, para delinear uma sombra.

O Faulkner do Algarve

Página de um manuscrito do Faulkner real

Página de um manuscrito do Faulkner real

Escriba virtuoso, com pancada para o narcisismo e a estracinhar a mioleira com uma obsessão suicida que a medicação acelerava, Franz Santos  —  o Santos herdara do pai drogadinho e o nome Franz fora roubar a dicionário de pseudónimos achado na biblioteca da junta de freguesia —  anexou nota biográfica ao manuscrito enviado a editora de renome, mas não uma nota de somenos, padronizada, antes um punhado de violáceas palavras que resumiam os seus sentimentos a respeito de si mesmo:

“Franz, nascido a 13 de Setembro de 1978, autor de linhas que em estilo e em génio se equipara a uma espécie de Faulkner metido numa casa de putas.”

Lambido o envelope, enviado o manuscrito, rumou ao café da esquina a trincar cigarro, a cuspir fumaça e a convencer-se de que daquela vez é que era, que terminara o tempo do anonimato, que livro tão fibroso e rendilhado como o que escrevera seria o trampolim para uma boa editora, depois para os jornais literários e para as entrevistas e para o Prémio Nobel e para a imortalidade. Apesar de tantas rejeições. Tantos nãos. Apesar dos séculos a alimentar o ego em isolamento, a idealizar o estrelato, a dizer ao espelho tens talento, tens talento. Apesar da pistola no bolso a servir de comprimido SOS, pronta para resolver por via de balázio súbitos anseios relacionados com o paradoxo que era ambicionar conquistar o universo e, ao mesmo tempo, possuir míseros tostões para um bitoque e uma noite quase bem passada em espelunca na companhia de uma romena com tantos calos nos dedos dos pés como dentes na boca. 

A tasca do senhor Fernando, ou melhor, Nicole, esfinge oriunda do Maranhão, empregada da dita tasca, era o centro de todos os escritos oferecidos à humanidade por Franz. Portento de oitenta quilogramas a rebentar pelas costuras, loira de um loiro caseiro (tinta loiro claro, sete euros no minipreço), abonada em termos de peito e de borbulhas, Nicole, de certa maneira parecida com um pónei, figurava nas páginas de Franz como uma guerreira pela pobreza injustiçada, que enfrentava as adversidades abrindo o decote e levantando a saia a troco de dinheiro num prostíbulo. Ao raspar ao de leve no braço do escritor, Nicole, invariavelmente feia e sorridente, ocasionava imaginativo conto de cariz autobiográfico em que Franz se imaginava num quarto vermelho, a lançar notas ao ar e no marmelanço com a brasileira. As suas histórias eram vira o disco e toca o mesmo, Nicole de perna aberta, Nicole a roçar-se, Nicole assim, Nicole assado. Às cartas de editores a aconselhar mais diversidade temática, Franz respondia professorando que, para além de não ter culpa de amar mulheres feias, os seus estudos ficcionais e não-ficcionais em torno de Nicole eram secundários, dado que o que sobressaía ou merecia ser louvado ou apreciado, como música clássica, era a escrita lírica, faulkneriana, mais faulkneriana do que a própria escrita de Faulkner, que nascera na rica América, e ele, Francisco no berço, Chico durante a infância, pertencia ao Algarve. E o pior era não ser compreendido pelos editores, acabar calado, com um copo e uma caneta à frente.