história de uma banheira

Sylvia Plath
Tradução
de Stefano Calgaro

 

A fotográfica câmara do olho
grava as nuas paredes pintadas, enquanto uma luz elétrica
esfola os nervos de cromo do encanamento; 
tal pobreza assalta o ego; pega
nua no mero quarto atual, 
a estranha no espelho do lavabo
veste um sorriso público, repete nosso nome
mas escrupulosamente reflete o terror usual. 

Quão culpados nós somos quando o teto
não revela rachaduras que podem ser decifradas? Quando
o lavatório sustenta não ter mais chamada santa
que ablução física, e a toalha secamente
nega que as caras ferozes do troll espreitam
em suas dobras explícitas? Ou quando a janela, 
cega de vapor, não admitirá a escuridão
que envolve nossas expectativas em sombra ambígua? 

Vinte anos atrás, a banheira familiar
gerava uma leva de presságios; mas agora
a água da torneira não jorra perigo; cada caranguejo
e polvo – esperneando logo além da vista, 
esperando por alguma pausa acidental
em rito, para atacar – definitivamente se foi; 
o mar autêntico os nega e arrancará 
a carne fantástica até o osso. 

Tomamos o mergulho; sob a água, nossas pernas
vacilam, levemente verdes, estremecendo diferente
da genuína cor de pele; podem nossos sonhos
manchar as linhas intransigentes que desenham
a forma que nos encerra? O fato absoluto
Invade mesmo quando o olho revoltado
está fechado; a banheira existe atrás de nossas costas: 
suas superfícies reluzentes são em branco e verdadeiras. 

Ainda assim, os ridículos flancos nus incitam
a fabricação de algum tecido para cobrir
essa dureza; a precisão não deve seguir à solta: 
cada dia exige criarmos nosso mundo inteiro de novo, 
disfarçando o horror constante em um casaco
de ficções multicores; mascaramos nosso passado
no verde do éden, fingimos que a fruta iluminada do futuro
pode brotar do umbigo deste desperdício presente. 

Nesta banheira em particular, dois joelhos se sobressaem
como icebergs, enquanto mínimos pelos castanhos se arrepiam
nos braços e pernas em uma franja de algas; sabão verde
navega a maré que jorra dos mares
rebentando em praias legendárias; com fé 
nós deveremos embarcar em nosso navio imaginado
e navegar selvagemente entre ilhas sagradas da loucura
até que a morte estilhace as fabulosas estrelas e nos torne reais. 


tale of a tub 

The photographic chamber of the eye
records bare painted walls, while an electric light
lays the chromium nerves of plumbing raw; 
such poverty assaults the ego; caught
naked in the merely actual room, 
the stranger in the lavatory mirror
puts on a public grin, repeats our name
but scrupulously reflects the usual terror. 

Just how guilty are we when the ceiling
reveals no cracks that can be decoded? when washbowl
maintains it has no more holy calling
than physical ablution, and the towel
dryly disclaims that fierce troll faces lurk
in its explicit folds? or when the window, 
blind with steam, will not admit the dark
which shrouds our prospects in ambiguous shadow? 

Twenty years ago, the familiar tub
bred an ample batch of omens; but now
water faucets spawn no danger; each crab
and octopus — scrabbling just beyond the view, 
waiting for some accidental break
in ritual, to strike — is definitely gone; 
the authentic sea denies them and will pluck
fantastic flesh down to the honest bone. 

We take the plunge; under water our limbs
waver, faintly green, shuddering away
from the genuine color of skin; can our dreams
ever blur the intransigent lines which draw
the shape that shuts us in? absolute fact
intrudes even when the revolted eye
is closed; the tub exists behind our back; 
its glittering surfaces are blank and true. 

Yet always the ridiculous nude flanks urge
the fabrication of some cloth to cover
such starkness; accuracy must not stalk at large: 
each day demands we create our whole world over, 
disguising the constant horror in a coat
of many-colored fictions; we mask our past
in the green of Eden, pretend future’s shining fruit
can sprout from the navel of this present waste. 

In this particular tub, two knees jut up
like icebergs, while minute brown hairs rise
on arms and legs in a fringe of kelp; green soap
navigates the tidal slosh of seas
breaking on legendary beaches; in faith
we shall board our imagined ship and wildly sail
among sacred islands of the mad till death
shatters the fabulous stars and makes us real. 

Cinco poemas de Gabriel Resende Santos

potência

só em voga para a alma
dos que são pegos
em fins de semana
na folga da aula
e do estágio: o choque
da tropa que sempre
passou longe e que
de repente perto
virá a ser caldo
da composição
mais tarde alinhavada
no calhau do iphone:
abrir-se das mãos de fabro
na neblina de veneno
e do terceiro olho
até então vedado
que agora arde

é menos distinto
direto da bomba
medir o labor de fêmur ulna
e tendão pela luz
(a que vem na conta)
na pavuna na clausura
das turbas de trem e metrô
antes de reaver outro
metro: a mensura da língua
no falso reino do vigor


fotografia úmida

atrás da lente
voyeur
a vista cansada
súbita se reequilibra
ao conjurar a saída
da dívida da fome da raiva
no extremo do pé da mão do fio
do palimpsesto encardido
tatuagem sobre tatuagem
lábio sobre lábio

flash

no lugar da modelo
livros encharcados
na banheira das sirenas


calma

 reaja ao pavor
da ideia escapista
ao corte da visão
se a corda afrodisíaca
desnuda suas fortes
escamas distendendo
a mão premindo a
traqueia a ponto
de fazer feridas
sua presa moída
no aperto marcial
expelindo vida
não se entregue
à branda lírica
dessa luz do fim
e lance-se ao
tapa-olho e tape
o calvário do bicho
face que morre
asfixiada em couro
e algodão
arrefeça o ódio
em sintaxe
e circulação


a extroversão

 soltar as farpas
na própria língua
e pelo ferro filante
insinuante à mucosa
afetar misantropia
com dentes rúbidos
e na fisionomia
certo descaso
enquanto desova dos lanhos
sílaba por sílaba
a fala afoita
hemorrágica mas
enfim liberta


Epístolas de Horácio - Cassandra Jordão Entrevista Pedro Braga Falcão

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Depois de um longo hiato, Cassandra Jordão volta à carga com uma entrevista a Pedro Braga Falcão, a propósito da sua tradução das Epístolas do poeta latino Horácio.

Ficámos de nos encontrar com o doutor (xôtor) Pedro Braga Falcão na livraria Flâneur no Porto. O tradutor de Horácio atrasou-se meia hora e compareceu no seu melhor fato de treino (ainda sem acertar com o detalhe da peúga por cima da calça, contudo). A livraria encontrava-se fechada e, como é costume nestes encontros entre literatos, dirigimo-nos para o café mais literário, mais boémio e mais próximo que nos foi possível encontrar. Ou assim garantimos ao poeta: as mesas eram de fórmica cinzenta com umas toalhinhas de papel por cima, havia uns croissants solitários e tristonhos (talvez de há dois dias, talvez um pouco mais) no expositor do balcão, e quando pedimos dois copos de vinho rosé não havia. Na verdade, nenhuma variedade de vinho estava disponível. Tivemos de nos contentar com café. Para nossa surpresa apareceu acompanhado do seu filho de cinco anos, que falava claramente demasiado e queria muito os croissants de dois dias. O tradutor não nos dispensou toda atenção que merecíamos por causa do pirralho, o que nunca fica bem num erudito.

Pedro Braga Falcão é doutorado em estudos clássicos com uma tese sobre a música da poesia de Horácio e há ainda uma licenciatura em música, como instrumentista de viola de arco (embora PBF não negue o seu interesse pela trompa). É professor na Universidade Católica Portuguesa, gosta de etimologias (Palavras que falam por nós, Clube do Autor), é autor de um livro de poemas (Do Princípio, também pela Cotovia) e há outro livro de poemas a sair em breve pela Enfermaria 6. Nenhum destes méritos iguala a audácia e a autoridade da sua opção por um venerável bigode (se é que podemos chamar bigode a um conjunto esparso de pêlos sobre o nariz). Juntámo-nos numa tarde de Outono, quase inverno, para falar da nova tradução das Epístolas de Horácio.

Como surgiu a ideia de traduzir as Epístolas de Horácio e porquê esta obra em particular? Foi por gostar de ler correspondência alheia?

Se tentar ler as epístolas de Horácio como correspondência alheia, vai ficar bastante desiludida (risos). Suponho que a única coisa que ficará a saber é que Horácio se tratava de um comilão baixinho, grisalho e corpulento, e que tinha um grupo grande de amigos de quem não sabemos praticamente nada. Bem, a Cassandra na sua qualidade de profetisa poderá saber mais qualquer coisa (risos afectados e estupidamente pedantes). Porque decidi traduzir as Epístolas? Na verdade, era a consequência lógica de traduzir as Odes; cronologicamente, era o que fazia mais sentido: as Epístolas foram publicadas a seguir aos primeiros três livros de odes... Mas a minha intenção é mesmo traduzir toda a obra de Horácio (só faltam os Epodos, as Sátiras e a Arte Poética).

O Pedro já havia traduzido as Odes de Horácio (também na Livros Cotovia, em 2008) e, antes disso, o Carmen Saeculare tinha sido objecto da sua tese de mestrado. Não há mesmo mais nenhum autor clássico que lhe interesse?

Claro que há. Aprecio muito Herberto Helder e António Ramos Rosa. Infelizmente ainda não se encontraram os manuscritos originais das suas obras, que toda a gente sabe que estão em latim.

Podia falar-nos um pouco de como começou a sua obsessão com Horácio e de porque é que continua a insistir nela?

Tudo começou quando a minha mãe me ensinou a ser poeta. Passados vinte anos encontrei Horácio. É claro que por vezes ele me aborrece bastante. Mas ensinou-me toda a imperfeição de um verso demasiado bem composto... nunca mais me esqueci de procurar nos versos essa vertigem de compositor de palavras, em tudo o que escrevo. Gostava de dizer que era uma obsessão essa busca, mas receio que ainda não estou nesse estado; ainda deixo alguns versos em paz.

Horácio tem influência sobre a sua criatividade enquanto poeta ou nem por isso?

Nem por isso. A minha criatividade vem da minha infância e das minhas longas brincadeiras no meu pinhal, a sós com o meu mundo de criança. Horácio é apenas um autor de vários que me ensinaram a estar na poesia. Bach, Beethoven, Tchaikovsky, Tom Jobim, Janis Joplin, Chico Buarque, Leonard Cohen, Jacques Brell, Gabriel Garcia Marquez, José Saramago, entre vários, foram outros poetas a fazê-lo. Sou um privilegiado por ter nascido quando toda essa gente já tinha andado por cá.

Que outro autor da antiguidade gostaria de traduzir?

Vergílio, claro. Outro poeta até à medula. Quando acabar de traduzir tudo de Horácio, talvez venha a traduzir tudo de Vergílio. Quem sabe. 

De todas as traduções de autores clássicos publicadas em Portugal na última década, qual a que mais o influenciou e porquê?

As Odes de Horácio da Cotovia (risos algo boçais). Foi uma influência decisiva para esta minha última tradução (continuam os risos idiotas e algo pedantes)... Bom, para dizer a verdade sou mais influenciado pelo trabalho da academia inglesia... Nisbet, West, Rudd... Enfim, tenho uma dívida de gratidão para com o trabalho de gente como esta, e tento sempre ser tão sério e honesto como estes foram na sua actividade intelectual e académica.

Pode elaborar um pouco – para os nossos leitores – sobre porque devemos ler as cartas de Horácio hoje (além do motivo óbvio de se ficar com a impressão de que estamos a ler o heterónimo com menos talento de Ricardo Reis)?

Em geral nunca elaboro antes do meio-dia, pode cair-me mal (não me parece que esteja a brincar, este tipo é um pouco afectado). Ricardo Reis nunca escreveu cartas em verso, o que me leva a considerar que talvez o seu horacianismo deixe um bocado a desejar (risos parvos). Bom, essa pergunta que faz é difícil de responder. Cada leitor terá a sua motivação para ler. A primeira razão é clássica: um texto que sobreviveu a dois mil anos de história num estado impecável de conservação (como poucos!) diz muito da sua qualidade.  Depois, o facto de ter sido o inaugurador de um género (cartas em verso), que conheceu grande fortuna no Ocidente, até ter caído aparentemente no oblívio...

Mesmo em Portugal?... (fui como que forçada a fazer esta pergunta, embora no fundo não me interessasse muito a resposta)

Sim, mesmo em Portugal, grandes nomes da nossa literatura, particularmente renascentista, como Sá de Miranda, Pêro de Andrade de Caminha, António Ferreira, Diogo Bernardes, cultivaram o género... Mas essa não é a única razão. A principal é o texto em si, e as tensões que ainda hoje encerram. A tensão entre agradar aos poderosos e liberdade artística. A tensão entre a boémia e o regramento. Mas também a truculência com que ataca os vícios da sociedade, e como expõe cruelmente toda a fragilidade da natureza humana. E todos aqueles conselhos que poderiam facilmente tornar-se mantras na nossa vida, nil admirari, “nada admires”, sapere aude, “ousa saber, ousa ser sábio”, ou frases lapidares como “mudam de céu, não de alma, aqueles que correm os mares”…

Na sua opinião, há algum autor clássico que ainda não tenha sido traduzido para português que nos faça uma falta enorme? 

Parece-me que toda a historiografia clássica está lamentavelmente por traduzir. Tito Lívio, Tácito, Políbio, no contexto romano; são autores que nos relevam o mundo apaixonante da história de Roma e quase não têm tradução em português. Lamentável.

Se Horácio escrevesse a letra de uma canção punk como seria?

Uma canção que nunca seria editada. É demasiado erudito para o punk. Mas seria muito bom vê-lo tentar. É claro que o facto de nem sabermos onde estão os seus ossos deverá dificultar muito a tarefa.

Dois textos de Eduardo Quina

EN 236 – 1

“Este mundo, que é o mesmo para todos, nenhum dos deuses ou dos homens o fez; mas foi sempre, é e será um fogo eternamente vivo.” HERACLITO

Dentro do vazio o silêncio: a mudez é o espaço único do vazio.

O corpo rodeado de fogo: um exorcismo doentio. O que pode o humano contra os devaneios do diabo? O que pode o humano contra a falsidade de deus?

Os gritos dentro do medo: porque todo o medo é um grito retraído.

O olhar abismado dentro do fim do mundo. Deus em forma de fogo ou apenas e só um diabo lancinante, inesperado, contra a natureza inofensiva de deus: quem comanda quem?

O corpo afogado dentro do negro do alcatrão.

O olhar preso dentro de um carro: abraçados na construção de uma eternidade resignada: os corpos escondidos dentro da desesperança viva do asfalto.

Não conseguimos respirar na silente inscrição deste prelúdio indizível.

Eclipse insano deste estranho mundo onde calcinamos o corpo sem cálculo, em desafecto imperfeito, sem carícia neste conceito inacabado de deus.

Um caminho de horror onde todos sucumbiram dentro do próprio medo contra o negro da solidão desesperada: contra o alcatrão.

A noite traz a aflição do olhar cativo: um crime bárbaro, sem dono.

Através do olhar um pai e uma mãe abraçados a um filho: o medo dentro do medo: um medo que ninguém escolheu, que ninguém quis.

Um medo que o fogo não apagou.

Morremos à míngua. A língua negra electrificada pelo fogo. Os dentes cerrados para reter a dor.

O coração silencioso, silenciado, nesta asfixia de todas as flores.

Tudo era incandescência neste prodígio do fogo ou clarão impiedoso ou perversa encenação.

Afinal não há purgatório e a condenação única é o fogo primitivo que tudo une, que tudo desfaz.
 

MORTE EM DIRECTO

“Se tudo o que muda lentamente se explica pela vida, tudo o que muda velozmente explica-se pelo fogo.”

G. BACHELARD, A Psicanálise do Fogo

Uma mulher pétrea de mãos postas conduz um credo há muito esquecido. Invoca em vão um deus. Esse mesmo e insignificante que tudo devora.

Tem as mãos calcinadas pelo fogo. Ardem-lhe com uma precisão invulgar todas as feridas. Está só.

Está rodeada de fogo por todos os lados. Desconhece os poderes desta purga.

Castigo? Inoperância? Desafio? Quem comanda quem?
Erigimos o fogo à custa de relâmpagos.

Debaixo da pele cresce a organicidade do medo. Hoje a dor escreve a cinza: Preta. Negrume altíssimo. Inquebrantável.

A inóspita violência do medo. Ali estamos inimaginavelmente. Encurralados dentro do fogo. Do pânico. Da angústia. Da revolta. Da falta de fé.

Ardemos todos até à incompreensão. Ardemos até à dor mais pungente. Em urgência demoníaca.

Ardem em nós todas as inoperantes palavras ditas e silenciadas.

Arde em nós todo o fogo de contrários. Toda a repulsa da insónia que nos atormenta violentamente, doentiamente.

Rodeada de fogo e de silêncio por todos os lados uma mulher pétrea reza de mãos postas, calcinadas.
Desconhece o som e o silêncio de deus. Está só. Tremendamente só. Num horror impronunciável. O corpo aprisionado dentro das imagens.

Já não podemos regressar à infância porque o fogo perdeu o seu fascínio.