Sergio Maciel, Tanta vez o cântaro vai à fonte

Sergio Maciel
Tanta vez o cântaro vai à fonte
(poemas mudados para o meu corpo)
poesia

Enfermaria 6, janeiro de 2018, 22 páginas

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Sergio Maciel

Sergio Maciel (1992) é poeta, tradutor e editor da revista escamandro. É graduando em Letras Clássicas pela Universidade Federal do Paraná. Publicou recentemente seu primeiro livro de poemas, ratzara (Dybbuk, 2017). Além disso, é um dos integrantes do grupo de performance Pecora Loca.

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após o estampido, 
lasca tênue
no cascalho
                      sobre o entulho,
ainda se ouve (rente

à aurora):
um signo do infinito
a retina
roendo o rubro das bocas; 

acima,

uma pedra tortura outra
pedra,
            quase estrela,
nas treliças do mundo.

Playlist

sobre as pontas; basta o mormaço para secar; entre tantas corridas de fôlego

sobre as pontas

como argila em minhas mãos
meu corpo modula num esforço tétrico
alumínio sílica e água
digerindo-se por curvaturas
minerais
como em minhas mãos
como minhas mãos
já são dez dedos
inócuos
por impulso tátil
mastigo vestígio digital
como mãos


basta o mormaço para secar

foi logo ontem que meu pé esfarelou
todos os vinte e seis ossos e os vinte músculos individuais
a queratina já é resto de cultura agrícola
revolve num limite dos outros elementos
descompactando para maior infiltração
ela é migalha
ou paisagem areada


entre tantas corridas de fôlego

 sua vida sobre quatro apoios estáticos
em cima dela um copo de água dois ou cinco
tudo em volta grão
pilhas de canetas monte de caderno em branco
seus livros por ler e duas vidas por gestar
muito ar e ela sem
sua letra transformada em times new roman
espaçamento 1,5 mínimo de 100 laudas
há uma atualização pendente e ela sem
seu itinerário em rodas giratórias
banhas unhas pulmões miolos
seus pedaços abafados sobre grãos
compondo eles próprios a massa
de onde imerge o tubo que faz da sua traqueia
traqueia


história de uma banheira

Sylvia Plath
Tradução
de Stefano Calgaro

 

A fotográfica câmara do olho
grava as nuas paredes pintadas, enquanto uma luz elétrica
esfola os nervos de cromo do encanamento; 
tal pobreza assalta o ego; pega
nua no mero quarto atual, 
a estranha no espelho do lavabo
veste um sorriso público, repete nosso nome
mas escrupulosamente reflete o terror usual. 

Quão culpados nós somos quando o teto
não revela rachaduras que podem ser decifradas? Quando
o lavatório sustenta não ter mais chamada santa
que ablução física, e a toalha secamente
nega que as caras ferozes do troll espreitam
em suas dobras explícitas? Ou quando a janela, 
cega de vapor, não admitirá a escuridão
que envolve nossas expectativas em sombra ambígua? 

Vinte anos atrás, a banheira familiar
gerava uma leva de presságios; mas agora
a água da torneira não jorra perigo; cada caranguejo
e polvo – esperneando logo além da vista, 
esperando por alguma pausa acidental
em rito, para atacar – definitivamente se foi; 
o mar autêntico os nega e arrancará 
a carne fantástica até o osso. 

Tomamos o mergulho; sob a água, nossas pernas
vacilam, levemente verdes, estremecendo diferente
da genuína cor de pele; podem nossos sonhos
manchar as linhas intransigentes que desenham
a forma que nos encerra? O fato absoluto
Invade mesmo quando o olho revoltado
está fechado; a banheira existe atrás de nossas costas: 
suas superfícies reluzentes são em branco e verdadeiras. 

Ainda assim, os ridículos flancos nus incitam
a fabricação de algum tecido para cobrir
essa dureza; a precisão não deve seguir à solta: 
cada dia exige criarmos nosso mundo inteiro de novo, 
disfarçando o horror constante em um casaco
de ficções multicores; mascaramos nosso passado
no verde do éden, fingimos que a fruta iluminada do futuro
pode brotar do umbigo deste desperdício presente. 

Nesta banheira em particular, dois joelhos se sobressaem
como icebergs, enquanto mínimos pelos castanhos se arrepiam
nos braços e pernas em uma franja de algas; sabão verde
navega a maré que jorra dos mares
rebentando em praias legendárias; com fé 
nós deveremos embarcar em nosso navio imaginado
e navegar selvagemente entre ilhas sagradas da loucura
até que a morte estilhace as fabulosas estrelas e nos torne reais. 


tale of a tub 

The photographic chamber of the eye
records bare painted walls, while an electric light
lays the chromium nerves of plumbing raw; 
such poverty assaults the ego; caught
naked in the merely actual room, 
the stranger in the lavatory mirror
puts on a public grin, repeats our name
but scrupulously reflects the usual terror. 

Just how guilty are we when the ceiling
reveals no cracks that can be decoded? when washbowl
maintains it has no more holy calling
than physical ablution, and the towel
dryly disclaims that fierce troll faces lurk
in its explicit folds? or when the window, 
blind with steam, will not admit the dark
which shrouds our prospects in ambiguous shadow? 

Twenty years ago, the familiar tub
bred an ample batch of omens; but now
water faucets spawn no danger; each crab
and octopus — scrabbling just beyond the view, 
waiting for some accidental break
in ritual, to strike — is definitely gone; 
the authentic sea denies them and will pluck
fantastic flesh down to the honest bone. 

We take the plunge; under water our limbs
waver, faintly green, shuddering away
from the genuine color of skin; can our dreams
ever blur the intransigent lines which draw
the shape that shuts us in? absolute fact
intrudes even when the revolted eye
is closed; the tub exists behind our back; 
its glittering surfaces are blank and true. 

Yet always the ridiculous nude flanks urge
the fabrication of some cloth to cover
such starkness; accuracy must not stalk at large: 
each day demands we create our whole world over, 
disguising the constant horror in a coat
of many-colored fictions; we mask our past
in the green of Eden, pretend future’s shining fruit
can sprout from the navel of this present waste. 

In this particular tub, two knees jut up
like icebergs, while minute brown hairs rise
on arms and legs in a fringe of kelp; green soap
navigates the tidal slosh of seas
breaking on legendary beaches; in faith
we shall board our imagined ship and wildly sail
among sacred islands of the mad till death
shatters the fabulous stars and makes us real. 

Cinco poemas de Gabriel Resende Santos

potência

só em voga para a alma
dos que são pegos
em fins de semana
na folga da aula
e do estágio: o choque
da tropa que sempre
passou longe e que
de repente perto
virá a ser caldo
da composição
mais tarde alinhavada
no calhau do iphone:
abrir-se das mãos de fabro
na neblina de veneno
e do terceiro olho
até então vedado
que agora arde

é menos distinto
direto da bomba
medir o labor de fêmur ulna
e tendão pela luz
(a que vem na conta)
na pavuna na clausura
das turbas de trem e metrô
antes de reaver outro
metro: a mensura da língua
no falso reino do vigor


fotografia úmida

atrás da lente
voyeur
a vista cansada
súbita se reequilibra
ao conjurar a saída
da dívida da fome da raiva
no extremo do pé da mão do fio
do palimpsesto encardido
tatuagem sobre tatuagem
lábio sobre lábio

flash

no lugar da modelo
livros encharcados
na banheira das sirenas


calma

 reaja ao pavor
da ideia escapista
ao corte da visão
se a corda afrodisíaca
desnuda suas fortes
escamas distendendo
a mão premindo a
traqueia a ponto
de fazer feridas
sua presa moída
no aperto marcial
expelindo vida
não se entregue
à branda lírica
dessa luz do fim
e lance-se ao
tapa-olho e tape
o calvário do bicho
face que morre
asfixiada em couro
e algodão
arrefeça o ódio
em sintaxe
e circulação


a extroversão

 soltar as farpas
na própria língua
e pelo ferro filante
insinuante à mucosa
afetar misantropia
com dentes rúbidos
e na fisionomia
certo descaso
enquanto desova dos lanhos
sílaba por sílaba
a fala afoita
hemorrágica mas
enfim liberta