Exijo que me tratem pelo nome!

 

Há quem me saúde por “sôtor”.

Há quem me saúde por “sôtor” e incline ligeiramente a cabeça.

Há quem me saúde por “sôtor”, incline ligeiramente a cabeça e coloque a mão no chapéu fazendo menção de o retirar.

Há quem me saúde por “sôtor”, incline ligeiramente a cabeça, coloque a mão no chapéu (e mais do que fazer menção de o retirar) retira-o mesmo.

Há quem me saúde por “sôtor”, incline ligeiramente a cabeça, coloque a mão no chapéu retirando-o e executando todo este malabarismo de honrarias enquanto conduz uma bicicleta.

E ainda há quem ao ver-me aproximar pela mesma calçada prefere, (talvez com o receio de conspurcar a minha passagem), prefere - dizia eu - desviar-se para o meio da estrada. Regressará dezenas depois à segurança do passeio.

TOC, Déficit de atenção, Filhas do espelho

TOC

Se não encontra
De imediato
O lápis e o papel 

Se com seus dedos finos
Derrama café no tapete
Já está dado o tom

Do poema?


Déficit de atenção

Há marceneiros que
Abandonam seus projetos no meio da sala
Batem muito com o mindinho nos móveis

Ligam perguntando por eles
Que não sabem o que dizer
Também não entendem nada do que os outros falam

Costumam dominar muito bem
A arte de manusear copos 

Aceitam a vida tranquila:
Não entender o que os outros dizem
Tropeçar nas dívidas
Possuir os hematomas


Filhas do espelho

Quando as crianças descobrem
Que de uma concha sai o barulho do mar
Em frente ao mesmo
Surpreendem-se

Crescem e atravessam espelhos
Cogitam o azar
Algumas doam livros
Outras perdem anéis e brincos

Encontram sozinhas o caminho de casa 

Sobreviventes
Distanciam-se pelo modo com que riem
Do desastre causado pelo corte
Com alguns lutam
Com outros deitam

Todas as paredes que já deram de cara
Guardam o segredo
Algumas serão amadas
Muito amadas
Nas fotografias

Para as que se flagelam com frequência
Talvez o controle seja algo sutil
Como uma navalha

5 poemas de Lucas Trindade da Silva

DESTOA
 
Destoa
em beiramento de falésia
um sorriso estático
esquálido e ridículo
como um tronco assanhado
se fazendo mangueira
neste setembro cerrado
agreste e vazio

A sombra ausente da galhada seca
faz lembrar essa vida
sem copa
de folha e de fruto
sem cópula
mansa nos carinhos em brisa da flor

É um bravio sem vingança
um bravio só ele
esse marrom seco
essa grama que arranha a planta
do pé
e do juízo

Me esforço em
agreste ser
tanto quanto
mas sinto um eco de mar
Um eco de mar molha o barro
e faz nascer
ipê

Vejo esse amarelo de pétalas
esse querer de horizonte
no mar que volta
em mim


enveredar-se
na ausência
das veredas

retraçar trilhas
sem a margem
oscilante
dos teus ditos

bússola

para assim
desertar
dos desertos
e
destrinchar
as trincheiras
do impensado 

ver
sereno

sete
palmos
abaixo
das nuvens

sete
dias
traçados
no tronco

do tempo
sente

a eternidade
do orvalho
que o carrega
desperto
até o jardim


no princípio era o corpo
e já para o corpo algum tipo de lei
contra a qual lutar
e já para o corpo
a espessura dos vales
a escuridão das matas
e a viva morbidez do olho

e já para o corpo
um desejo que se faz na renúncia
e já para o corpo
                um fogo
                consciência das cinzas


a Bernardo Soares


Toda rede é um pedaço de útero
e nela joga-se a própria sorte

Todo poente um lampejo de morte
e um portal do dessabido
entretido na quimera de um negativo-menos-que-nada
onde reina a coroa de lata

Transpasso a chuva como a retina do mundo
e acesso o brilho das coisas invertidas
tidas como falsas opacidade e engano

Mas é o nariz que fornece
o intelecto inodoro do real
e a nos mostrar o desvivido de tudo


real é tudo aquilo que (des)percebe em si uma fissura
mais que a tangibilidade da criatura
menos que a perfurabilidade da lâmina
a idade do real é o tempo da chama
da lisura do ar rasurado em oceano

sei do devaneio como um meio para o não dizível
por isso te digo
da altura alcançada pelo meu silêncio
que a doçura do abraço dorme em tudo que é capaz de repulsa
e que a nostalgia da terra sonha num leito feito de pedra vidro e aço
 

Aceitação é a espada que corta a resistência

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Esquartejado por uma dor lancinante provocada pela esposa, um peso no espírito pouco explicável em termos racionais, uma aflição por vezes miudinha, outras vezes avassaladora, comparável a uma impiedosa faca estracinhando carne, vísceras, tendões, ossos, até chegar à alma, Túlio rebolava para o trabalho esquecido das razões pelas quais tanto se aborrecia com relatórios e subserviências do mais variado calibre, tendo mera consciência de que se não comparecesse no escritório, não teria como subsistir, nem como alimentar o inocente bebé que noite sim, noite sim lhe roubava horas de sono com um ruidoso choro que chegava a dar a sensação de rachar o tecto. Cumpria com sacrifício as tarefas que lhe eram impostas no serviço, não perdia de vista o relógio e a passagem dos segundos e dos minutos, ardia numa delirante febre que despontava ciúmes e tremores na perna, o pânico consumia-lhe a atenção, sentia-se tentado a pedir a demissão, a pregar um soco em alguém, ignorava diálogos, interacções, repisava as mentiras da mulher, acontecimentos e diálogos mil vezes na sua mente remastigados, disseste isto, fizeste aquilo, mentiste aqui, traíste acolá, meditava sobre o que lhe sucedera, sobre o que lhe poderia ainda ocorrer se não se desligasse de tão inconsequente pessoa como aquela com quem, num momento de clara perturbação, se casara. O bicho encolhia-se em posição fetal no comboio, apertando o dilacerado peito, rogando a uma força maior que aquele mal-estar se extinguisse, que lhe surgisse algo ou alguém que lhe enchesse outra vez o coração de luz, que o resgatasse daquele purgatório sem fim. Abria a porta de casa com aparente tranquilidade, fazendo cara de Buda, ainda influenciado pelas palavras apascentadoras do monge da rádio que lhe ensinava a respirar, abancava a jantar como se ali não estivesse, negligenciando o bebé, que atirava comida para o chão e esfregava as porcas mãos nas paredes, e a mulher, suave mulher, que mantinha o sorriso e um falso optismo que nada acrescentavam ou retiravam à infelicidade que entre o casal se intrometera, fingia mastigar, acenava que sim, que o dia correra bem ou assim assim ou igual aos outros, que tudo regressava ao seu lugar, que perdoava por não haver outro remédio para quem amava a não ser perdoar, mas a cada novo dia aparecia mais mirrado e enrugado e pronto para se entregar a uma morte rápida, indolor, trazida talvez por um frasco de comprimidos e uma corda à volta do pescoço.

Túlio lera algures, provavelmente numa revista abandonada na clínica do dentista que quinzenalmente visitava para chumbar um dente, que um coração partido demorava cerca de três meses a sarar. Essa tão científica previsão fora lida poucos dias após o choque ou, como lhe chamava, o dia em que fora transportado da realidade para um submundo de lágrimas e infindos prantos. Esperara ardemente pela passagem dos malfadados noventa dias, esses noventa dias multiplicaram-se por dois e depois por outros dois, o coração sangrava, Túlio esvaía-se em sangue, as acções da esposa ardiam-lhe na imaginação. Encontrando-o pálido, um conhecido citou-lhe um sábio antigo: não há mal que dure cem anos. Meio ano, oito meses, soava a eternidade. Sofria ainda como um condenado, sem saber para onde se virar, com quem falar ou que fazer para se livrar daquele peso morto que era a enxurrada de memórias e de destruição. Que queres fazer hoje?, perguntava-lhe a estremosa esposa, depois dos seus erros ainda mais estremosa. Túlio, acobardado, calava a verdade dentro de si entranhada, temendo exteriorizar o nojo que por ela sentia, evitando comentários insultuosos, que não a queria mais à frente, que vomitava pensando nela, que olhar-lhe para a cara era o suficiente para que o dia lhe saísse mais azedo. Quero-te daqui para fora, disse-lhe uma vez, talvez pouco convincentemente, uma vez que ela não o levou a sério e ainda gozou com o seu efeminado tom de voz. Raspa-te para longe, berrou-lhe noutra ocasião, mas ela, rainha da miséria, gargalhou, e com a gargalhada enterrou-o numa lama depressiva feita de culpa e de silêncio e de repressão e de raiva.

Espremido pelo sofrimento, desesperado por encontrar alívio, Túlio submeteu-se à meditação, a idas diárias à missa, à leitura regular de passagens da Bíblia, adquiriu crucifixo, alterou hábitos alimentares, dedicou-se à prática de exercício, mudou de café para algo mais calmante, como chá de ervas, comprou caderninho que em pouco tempo ficou abastecido de afirmações positivas e de intenções para o futuro, e a sua personalidade não tardou a evidenciar progressos. Sorria mais, surgia mais amigável e tranquilo em termos de aparência, preocupava-se quase nada com a labuta, adquiria roupagem supimpa, ceava em restaurantes da moda, tratava de si, no fundo, como mandavam os manuais de auto-ajuda e os líderes espirituais com que se ia cruzando, nomeadamente os jovens fumadores de haxixe que em bares e cafés lhe viravam as cartas do tarot e lhe mostravam o caminho dos astros. Mas sempre chegava a altura de se deitar na cama. Tropeçava nas pernas da mulher, enfrentava-lhe a carantonha antes de dormir, e aí todos os esforços de superação emocional e mental caíam por terra. Aos poucos, instalou-se na mente de Túlio a convicção de que, de modo a curar-se do mal de amor, teria de apagar a mulher, não somente afastar-se, pedir o divórcio, apagá-la, matá-la. Gizou um plano. Gizou uns dez planos. Em nenhuma altura ganhou astúcia e determinação para os pôr em prática. Envenená-la trar-lhe-ia problemas com a polícia. Esmurrá-la até lhe desencaixar o cérebro do crânio idem. Esquartejá-la e enterrar os pedaços em diferentes regiões do país também não dava a impressão de ser ideia bem estruturada, que tivesse possibilidades de o livrar de buscas e de interrogatórios policiais. Assim, e visto que a desesperança e os desejos de vingança comandam o animal por educar, Túlio aproveitou o apetite sexual, em certa noite pela esposa evidenciado, para se esgueirar para debaixo dos lençóis e, por intermédio de duas barras de dinamite, rebentar com ela, com o prédio e com essa inútil coisa, a vida.