Memórias de um congresso


I

Bisbilhoteiros académicos,
sanguessugas de mártires,
eruditos exibicionistas,
cardume de piranhas.

II

Os vermes ocupam o palco.
O que veio de Princeton
fala, desconexo.
Na sua fábula esquizofrénica,
nada disse,
apenas o ditirambo ao vetusto império.
O lunático coroou os reis do pó,
enquanto o fresco odor a sangue americano
invadia os corredores e as aulas.

III

Simultaneamente,
fartos de fobia,
os vermes comiam fobia,
almoçavam fobia,
jantavam fobia.
Depois regurgitavam nos palanques
com idónea máscara:
cândidos, inocentes pombos,
falaram sobre o incompreendido,
sobre os raros, sobre aqueles enfermos que a destempo morreram,
sobre o fazedor a quem ninguém cuidou das tristes, doces mãos.
Os painelistas, com garras húmidas de sangue,
afundaram suas lanças bakhtinianas,
seus bisturis estruturalistas.
Repetiram como papagaios, entre aspas, a linguagem de outros,
que por sua vez era a de outros.
Note-se que no congresso sobre os criadores,
os criadores não são convidados,
nem bem-vindos.
São pretexto para o negócio
que alimenta os sapatos dos sábios. 

IV

Sempre,
no entanto,
se encontram
ilustres excepções.
Os que por entre o ruído amam o verso e o parágrafo
e reanimam o morto redivivo com roupas de domingo,
e o beijam,
e com ele bebem,
e seu candor escutam,
e com uma piada o fazem rir,
e lhe afagam o cabelo a dar pelos ombros,
e lhe secam uma lágrima.
Logo o abraçam
e guardam no livro,
para que prossiga a vida quotidiana,
entre palavras.


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Luis Marcelino Gómez é escritor nascido em Cuba, com várias obras de contos e de poesia publicados. É há vários anos professor na Universidade da Carolina do Norte – Chapel Hill. Edita a revista Aguas del Pozo.

O poema é retirado do livro Bajo los arces.

 

Tradução do espanhol de Paulo Rodrigues Ferreira

Comizi d'Amore de Pier Paolo Pasolini

1965 foi o ano da estreia do documentário Comizi d’Amore de Pier Paolo Pasolini. A ideia de Pasolini era bastante simples: ir com um microfone, pela Itália fora, a perguntar às pessoas, de todos os quadrantes sociais, com mais ou menos educação, jovens e velhas, como viam elas a sexualidade, o casamento, a homossexualidade, as diferenças entre gerações no que à sexualidade se refere. Porquê ver esta documentário de Pasolini em 2018? Porque nos faz pensar no que mudou e no que se mantém actual e porque é uma espécie de fresco da humanidade. Há uma primeira cena em que Pasolini pergunta a um grupo de crianças de onde chegam os bebés que contém das sequências mais hilariantes que alguma vez vi num documentário. Há um pai de família e um jovem que se pegam sobre o significado social do casamento e as prioridades que este involve. Moravia e Musatti fazem o papel de comentadores (espécie de consciências socráticas, de resto) para as conclusões a que Pasolini tenta chegar. Há um longo monólogo de Moravia, acerca do debate, então vigente em Itália, de a homossexualidade ser ou não uma aberração, a que Moravia responde com qualquer coisa como: o medo do desconhecido, a ignorância, a nossa própria infelicidade levam-nos a julgar que podemos tentar oprimir os outros, reduzindo-os aos nossos julgamentos mais limitados e essa é a aberração. Filmado em 1965, disponível por completo no YouTube (ver abaixo), Comizi d’Amore continua a ser um documentário um pouco desconhecido na filmografia de Pasolini, mas uma das alegrias do género. Há espaço para rir, chorar, e muita candura pelo meio. Fica a nota. Boa semana.



HABITAR NA PARTITURA

[Einziger, ewiger, allgegenwärtiger,

unsichtbarer und unvorstellbarer Gott]

 

                                                         “sobre a pele o tropel”

                                                                   Luiza Neto Jorge

 

                                                 Poesenho para um filho de

                                               Calíope: Pedro Braga Falcão

        

         A

 

Entre ilhas há o som de pequenos e amoráveis

pássaros. Não falo de Messiaen!

Seres num ninho oceânico, o ovo primitivo

do dó e do ré, algures entre vagas. Não falo de Debussy!

No imenso da divisão, diferença, há aquilo

que não se pode registar.

E se for registado, não será lido.

Na linha clara do dia veremos

o ponto B e o ponto A na linha constantemente

inter

rompida. Não

falo de Schoenberg!

 

Dita a leitura indecifrável da partitura,

a dissolução da sint

axe,

da palavra, para que

o som escrito

seja redito noutra forma

ainda por ouvir.

 

A página (de palavras, pontos, pequenas vírgulas,

areias, flechas e setas, chuva e poças de

lama infinita)

é

todo um universo a que este pequeno

poema [não] pode aspirar. Fragmento inflexível de

chumbo.

 

Partida a batuta, esmagada pelo peso do martelo,

entre palavras antipoéticas,

eu faço,

eu digo:

no espaço em mim há essas folhas

onde o tempo não tem

nem começo nem fim. Cobracisne.

 

Que sejam os olhos a habitar a

indecifrável partitura

escrita inteiramente

por este coração impuro.

 

                                    

                                   B

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Vítor Teves - folha 4, de 6, de “Das Goldne Kalb”, lado B do Poesenho “Habitar na Partitura” (Agosto-Novembro, 2018).

"Erlkönig" de Johann Wolfgang von Goethe

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Tradução: J. Carlos Teixeira

Rei dos Elfos

Quem cavalga tão tarde, pela noite e ao vento?
É o pai com o seu filho;
Ele segura a criança nos braços,
Ele agarra-a firmemente, ele mantém-na quente.

“Meu filho, o que esconde o teu rosto amedrontado?” –
“Não vês, pai, o Rei dos Elfos?
O Rei dos Elfos, com coroa e cauda?” –
“Meu filho, é só uma linha de névoa.” –

“Tu, bela criança, anda, vem comigo!
Belos jogos jogarei contigo,
Flores coloridas na praia,
A minha mãe com roupas douradas!” –

“Meu pai, meu pai, e não ouves,
As promessas que Rei dos Elfos me sussurra?” –
“Fica calmo, acalma-te, meu filho;
Entre as folhas secas sibila o vento” –  

“Queres, belo menino, vir comigo?
As minhas filhas cuidarão bem de ti;
As minhas filhas conduzem a dança da roda noturna,
E embalam-te, e dançam e cantam para adormeceres.” –

“Meu pai, meu pai, e não vês ali
As filhas do Rei dos Elfos naquele lugar sombrio?” –
“Meu filho, meu filho, eu vejo bem:
Os velhos salgueiros parecem tão cinza.” – 

“Amo-te, a tua bela forma encanta-me;
E se negares, usarei a força.” –
“Meu pai, meu pai, agora ele agarra-me!
O Rei dos Elfos feriu-me.” – 

O pai aterroriza-se, cavalga velozmente,
Segura nos braços a criança em dores,
Chega à corte a muito custo e em derrota;
Nos seus braços, a criança estava morta.

in Die Fischerin (1782)


Erlkönig

Wer reitet so spät durch Nacht und Wind?
Es ist der Vater mit seinem Kind;
Er hält den Knaben wohl in dem Arm,
Er hält ihn sicher, er hält ihn warm.

“Mein Sohn, was birgst du so scheu dein Gesicht?” –
“Siehst, Vater, du den Erlkönig nicht?
Den Erlenkönig mit Kron' und Schweif?” –
“Mein Sohn, es ist ein Nebelstreif.” –

“Du liebes Kind, komm, geh'mit mir!
Gar schöne Spiele spiel'ich mit dir,
Viel bunte Blumen sind an dem Strand,
Mein'Mutter hat manch güldnes Gewand.” –

“Mein Vater, mein Vater, und hörest du nicht,
Was Erlenkönig mir heimlich verspricht?” –
“Sei ruhig, bleibe ruhig, mein Kind,
In dürren Blättern säuselt der Wind.” –

“Willst, feiner Knabe, du mit mir gehn?
Meine Töchter sollen dich warten schön;
Meine Töchter führen den nächtlichen Reihn,
Und wiegen und tanzen und singen dich ein.” –

“Mein Vater, mein Vater, und siehst du nicht dort
Erlkönigs Töchter am düsteren Ort?” –
“Mein Sohn, mein Sohn, ich seh es genau,
Es scheinen die alten Weiden so grau.” –

“Ich liebe dich, mich reizt deine schöne Gestalt,
Und bist du nicht willig, so brauch ich Gewalt.” –
“Mein Vater, mein Vater, jetzt fasst er mich an,
Erlkönig hat mir ein Leids getan!” –

Dem Vater grauset's, er reitet geschwind,
Er hält im Arme das ächzende Kind,
Erreicht den Hof mit Müh' und Not,
In seinen Armen das Kind war tot!

in Die Fischerin (1782)