Regurgitações Revisitadas 

O verão arrefeceu, a máquina parou, os marmelos, 

Já devem estar maduros, não tardam os vidros embaciados, 

Na cozinha, com a lareira a prometer incêndios caseiros, 

Como no verão do rei leão e os mexilhões do rio, 

Levados quase à extinção, porque a família toda, 

Agora o rio uma amostra de quando se vivia de verdade, 

Como revisitar um álbum de fotografias molhado, 

Umas quantas horas para fingir que ainda se é feliz, 

Uma mão cheia de mexilhões, quanto muito, 

Uma loirinha finlandesa a tomar conta de um vazio 

Demasiado grande para quem quer que seja, 

O verão frio, as andorinhas umas putas que se põem 

A milhas logo que as manhãs não lhe nascem douradas, 

A máquina aqui, a máquina tão longe, espera, 

Não esperes beber o copo que lançaste na terra, 

Nem reacendas o fósforo numa noite apagada, 

Nos primos mais jovens, já a última inocência, 

Viver é uma extinção imensa e singular, 

Na varanda a estas horas só cresce o pó frio das folhas mortas, 

Que esperas de janela aberta quando o Outono regressa, 

Além do cinzento que te pinta os ossos da cor da alma, 

E os meus dentes não trincarão a marmelada deste ano, 

Nem sei se as uvas estão boas, os pés lembram-se, 

O ano acaba logo no fim de Agosto, quando não há mosto 

No ar de Setembro, a aguardente mora ao lado do sono da infância, 

Não há verso que sirva, quando as fotos se descolam do álbum. 

 

18.09.2018 

 

Turku

O TOURO ALEGRE NA ARENA DE CÉSAR

“em pago de sofrer tantas durezas
provai, senhora, em mim vossas cruezas”

                                         Camões

 

Todos em surdina avistavam o Touro, o esquecido,
O destemido Touro, exibindo o velho dorso na pele
Usada da escrita. Alegremente espera o espeto!
Rasgo a pele até ao fio mínimo, onde a vã e seca -
A mioleira - se esgota lentamente. A liberdade
Do outro, daquele que não tem voz, pede, não
A gaivota parva que esvoaça, mas a raiva dos que
Sabem amar todo e qualquer corpo Vivo.

Manet - “O Toureiro morto”, C. 1864-65.

16.11.18

Memórias de um congresso


I

Bisbilhoteiros académicos,
sanguessugas de mártires,
eruditos exibicionistas,
cardume de piranhas.

II

Os vermes ocupam o palco.
O que veio de Princeton
fala, desconexo.
Na sua fábula esquizofrénica,
nada disse,
apenas o ditirambo ao vetusto império.
O lunático coroou os reis do pó,
enquanto o fresco odor a sangue americano
invadia os corredores e as aulas.

III

Simultaneamente,
fartos de fobia,
os vermes comiam fobia,
almoçavam fobia,
jantavam fobia.
Depois regurgitavam nos palanques
com idónea máscara:
cândidos, inocentes pombos,
falaram sobre o incompreendido,
sobre os raros, sobre aqueles enfermos que a destempo morreram,
sobre o fazedor a quem ninguém cuidou das tristes, doces mãos.
Os painelistas, com garras húmidas de sangue,
afundaram suas lanças bakhtinianas,
seus bisturis estruturalistas.
Repetiram como papagaios, entre aspas, a linguagem de outros,
que por sua vez era a de outros.
Note-se que no congresso sobre os criadores,
os criadores não são convidados,
nem bem-vindos.
São pretexto para o negócio
que alimenta os sapatos dos sábios. 

IV

Sempre,
no entanto,
se encontram
ilustres excepções.
Os que por entre o ruído amam o verso e o parágrafo
e reanimam o morto redivivo com roupas de domingo,
e o beijam,
e com ele bebem,
e seu candor escutam,
e com uma piada o fazem rir,
e lhe afagam o cabelo a dar pelos ombros,
e lhe secam uma lágrima.
Logo o abraçam
e guardam no livro,
para que prossiga a vida quotidiana,
entre palavras.


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Luis Marcelino Gómez é escritor nascido em Cuba, com várias obras de contos e de poesia publicados. É há vários anos professor na Universidade da Carolina do Norte – Chapel Hill. Edita a revista Aguas del Pozo.

O poema é retirado do livro Bajo los arces.

 

Tradução do espanhol de Paulo Rodrigues Ferreira

Comizi d'Amore de Pier Paolo Pasolini

1965 foi o ano da estreia do documentário Comizi d’Amore de Pier Paolo Pasolini. A ideia de Pasolini era bastante simples: ir com um microfone, pela Itália fora, a perguntar às pessoas, de todos os quadrantes sociais, com mais ou menos educação, jovens e velhas, como viam elas a sexualidade, o casamento, a homossexualidade, as diferenças entre gerações no que à sexualidade se refere. Porquê ver esta documentário de Pasolini em 2018? Porque nos faz pensar no que mudou e no que se mantém actual e porque é uma espécie de fresco da humanidade. Há uma primeira cena em que Pasolini pergunta a um grupo de crianças de onde chegam os bebés que contém das sequências mais hilariantes que alguma vez vi num documentário. Há um pai de família e um jovem que se pegam sobre o significado social do casamento e as prioridades que este involve. Moravia e Musatti fazem o papel de comentadores (espécie de consciências socráticas, de resto) para as conclusões a que Pasolini tenta chegar. Há um longo monólogo de Moravia, acerca do debate, então vigente em Itália, de a homossexualidade ser ou não uma aberração, a que Moravia responde com qualquer coisa como: o medo do desconhecido, a ignorância, a nossa própria infelicidade levam-nos a julgar que podemos tentar oprimir os outros, reduzindo-os aos nossos julgamentos mais limitados e essa é a aberração. Filmado em 1965, disponível por completo no YouTube (ver abaixo), Comizi d’Amore continua a ser um documentário um pouco desconhecido na filmografia de Pasolini, mas uma das alegrias do género. Há espaço para rir, chorar, e muita candura pelo meio. Fica a nota. Boa semana.