John Wieners: "Um poema para o velho"


 Deus te ame
            Dana, meu amante
perdido na horda
desta noite de sexta
500 homens estão indo de lá
pra cá entre o bar &
o banheiro.
Retire este desejo
do homem que eu amo.
Que abriu pra mim
            a selvageria
do mar. 

Faça que as vontades
dele sejam satisfeitas
na rua California
Dê-lhe a genero-
sidade que permita
paz entre os quadris. 

Não o abandone
às traças.
Faça dele um leão
para que todos que o vejam
idolatrem o seu
peito forte como eu fiz
descendo com a boca
pelas costas dele levando os
nossos corações até alturas
aonde hoje eu nunca mais
            escalo. 

Que o cabelo loiro
possa arder na sua
nuca, que nenhuma dor
desfigure o seu rosto
em desespero, a alma dele
      está tão dependente. 

Em vez de heroína,
forneça estes
cem homens como amantes
dele & o eleve
com o enorme pacote
do desejo alheio. 

Subtraia dele
a fome e os famintos
que se alimentam à noite.
Os carentes & os recém-
descobertos cujo peso o puxaria para baixo.
Aprume esse homem c/ orgulho e
apertando o amor que eu pus
            nos seus olhos. 

Derrame esse amor sobre os 500
Deixe-os estupefatos,
de joelhos, que
se curvem diante dele,
este humano burro
que virou
            meu amante
que me pegou
aos 18 anos & enfiou amor
para os meus bolsos
jamais estarem vazios,
apreciados como são
tocando na pele de dentro
            da perna dele. 

Eu ocupo esse espaço
enquanto os boys à minha volta
engasgam de desejo e
dão carona para nós até
em casa nas mãos
            de estranhos

 


A Poem for the Old Man

God love you
          Dana my lover
lost in the horde
on this Friday night,
500 men are moving up
& down from the bath
room to the bar.
Remove this desire
from the man I love.
Who has opened
            the savagery
of the sea to me. 

See to it that
his wants are filled
on California street
Bestow on him lar-
gesse that allows him
peace in his loins. 

Leave him not
to the moths.
Make him out a lion
so that all who see him
hero worship his
thick chest as I did
moving my mouth
over his back bringing
our hearts to heights
I never hike over
anymore.

Let blond hair burn
on the back of his
neck, let no ache
screw his face
up in pain, his soul
is so hooked. 

Not heroin.
Rather fix these
hundred men as his
lovers & lift him
with the enormous bale
of their desire. 

Strip from him
hunger and the hungry
ones who eat in the night.
The needy & the new
found ones who would weigh him down.
Weight him w/pride and
pushing the love I put
in his eyes. 

Overflow the 500 with it
Strike them dumb,
on their knees, let them
bow down before it,
this dumb human
who has become
my beloved
who picked me up
at 18 & put love
so that my pockets
will never be empty,
cherished as they are
against the inside flesh
of his leg. 

I occupy that space
as the boys around me
choke out desire and
drive us both back
home into the hands
of strangers.

(1958)

O sub-mundo da crítica

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Há pouco tempo, o poeta João Moita partilhou na “terrível aplicação neocapitalista” facebook a crítica que o também poeta Pedro Mexia fez para o jornal Expresso do livro Uma Pedra Sobre a Boca.

Na caixa de comentários surgiram “parabéns” e uma observação inteligente do nosso tradutor mais prolífico, Miguel Serras Pereira. Nela trata de confirmar o João como poeta de Deus, prontamente recusado por este. Os argumentos sucederam-se, com mais um interveniente, até que alguém, cheio de sentido de justiça, refutou de uma penada tudo o que tinha sido dito – até Deus, creio –, e de camisa arregaçada, pronto a matar por uma vírgula, garantiu, sem apelo nem agravo, que Pedro Mexia não sabe escrever, sendo apenas o cachorro do “Sr. Presidente”. Impôs de seguida um “não mereces [João Moita] tanta banalidade”, terminando, num registo épico, com “sem querer ofender ninguém. Só mesmo para dizer a verdade.”

Claro que não ofendeu ninguém, porque, para lá dele próprio, ninguém é filho de boa gente. E depois, se é “só mesmo para dizer a verdade”, de forma tão cândida e lapidar (ainda que a metáfora do “cachorro” contenha mais ambiguidade do que lhe parece), então seja bem-vindo ao sub-mundo da crítica literária (embora no seu caso esteja embrulhada na dos costumes, sobretudo nas rasteiras ad hominem). Um sub-mundo que, como percebeu logo à primeira, venera e zomba do mundo da criação literária. Nos dois casos sustenta maravilhosas emoções trabalhadas por um agonismo primário, amor e ódio, sem matizes. Antes se tratasse de um claro e obscuro, um apolíneo e dionisíaco. E as setas fossem lançadas sobre as palavras imperfeitas ou contra a beleza miserável.

A fúria dionisíaca ou o cinismo apolíneo (arrisco esta caracterização) se acalmassem com piras e piras incandescentes, alimentadas por todos os erros de sintaxe encontrados em autores menores, ou com as banalidades enfeitadas de seriedade bondosa.

Mas não, a crítica, especializada ou popular, subjectivista ou universalista, desolada como em George Steiner ou festiva como nalguns jornalistas, até porque não tem qualquer gosto pela dificuldade, empacota apressadamente com folhas de maledicência ou de elogios desmedidos o lento, dramaticamente lento, labor da criação.

E no entanto, sem críticos seria a própria criação que se empobreceria bastante, faltando-lhe o olhar racional que a obriga, pelo menos quando se trata de uma crítica informada e inteligente, a mostrar esplendorosas partículas que escapam aos que são somente leitores e até aos próprios autores.

Perspectivas do Desastre: quatro poemas

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1.

Chama-se gipsofila. Tem a delicadeza
das nuvens pequenas, voga num ramo alto
um tanto acima das jarras

 

2.

Ao pintar delicadamente
(a óleo sobre madeira)
um ramo de anémonas num copo de água,
Aurélia incluiu no quadro a pequena tesoura
que usara um pouco antes no jardim.
É um pormenor apenas,
uma breve tesoura de corte,
mas une o vidro, o vivo e a morte:
nas flores brancas e lilases faz fluir
o nosso frágil retrato

 

3.

Escrevem, desenham, fotografam
esculpem, filmam, tudo reinventam
e esperam que esses nados vivos
feitos de matéria morta (Wyndham Lewis
assim o disse) vivam para sempre. Mas
não têm conta os poemas desaparecidos
as canções esquecidas, as estátuas
apeadas, histórias desfeitas
pelo fogo e pela água,
casas destruídas
onde as chamas devoraram
o cerne das gavetas;

não têm conta as fotografias destingidas
o celulóide ardido, os dados apagados por engano
nos jogos de fortuna e acaso que nos regem,
às coisas vivas e mortas. 

Há nisto menos fracasso
do que seria de esperar. Gostávamos
de ter lido mais Safo, e todavia
tudo parece estar certo, mesmo assim.
Mais leve, pelo menos.

Um minuto de silêncio
por quantos na linha do tempo
se perderam
com todos os seus pertences;
e outro ainda, por até a linha do tempo
perdermos tantas vezes

4.

Ao largo, grandes massas de plástico
deslocam-se à tona de água. Diz
quem ali mergulhou
que os pedaços descoloridos de polietileno
entretecem
camadas sob camadas
e descem na água
em barreiras de grande espessura.

Agora, o que está em baixo não é igual ao
que está em cima

É ainda pior.

"Um par de lábios me"

Um par de lábios me
resguarda em desafio
são dois ou quatro
lábios?
não são os meus, diz-me a
consciência
que apesar de tudo fura
as imagens que aparecem
ando distraída, a perder a
lucidez
da membrana que vibra foto
sensível
onde está o toque?
no scroll gorduroso do meu
polegar?
no descarte endométrico com que
meço a negligência do meu próprio
ego
precioso?
na embaixada que fundei,
a dos amores emigrantes
investidos das maiores qualificações
em diáspora sem espessura?
na minha mão direita
quando
triste toca a esquerda?
no lençol amarfanhado, preso
no fundo da cama
(por isso desço eu, reduzo)
ou no desviar dos olhos do
falso amigo bem pago?
o mundo anda
bidimensional e a minha
pele e as camadas
dentro
ressentem-se