Vestido Vermelho 

 Nunca serás aquela loira de vestido vermelho a desaparecer na distância 

Como uma brisa fresca, apesar dos quase quarenta graus atenienses, 

Nunca terás todos os nomes possíveis, nem serás a manic pixie dream girl 

Que o tempo desfez, ama-se mais a ilusão que a verdade, 

Nunca te vi de vestido sem estares toda cinzenta, uns minutos e depois, 

Não tu,  um sol impossível nos metálicos invernos nórdicos, 

Nunca serás o que te sonhei, mas a culpa dos sonhos é de quem os sonha, 

Não de quem com um olhar, planta ilusões, que crescem em vazio, 

Maior ainda do que antes da semente, nunca serás aquela loira de vestido vermelho, 

Porque os filmes acabam sempre antes do roer das unhas se entranhar nos nervos, 

Antes do nome carregar toda a frustração e desprezo que os pós-créditos trazem, 

Se se esperar tempo suficiente, nunca serás aquela loira de vestido vermelho, 

Mesmo que tenhas sido aquela loira de vestido vermelho, mesmo que isto 

Quase seja um poema de amor, que nunca será, porque tudo uma vela curta, 

Numa noite de incêndio. 

 

Atenas 

 

09.07.2019 

 

The Torso - poema de Robert Duncan

THE TORSO

 

Most beautiful!      the red-flowering eucalyptus,

           The madrone, the yew

 

        Is he …

 

So thou wouldst smile, and take me in thine arms

The sight of London to my exiled eyes

Is a Elysium to a new-come soul

 

                         If he be truth

                         I Would dwell in the illusion of him

 

His hands unlocking from chambers of my male body

 

                 such an idea in man’s image

 

          rising tides that sweep me towards him

 

                         …homosexual?

 

                                    anda t the treasure of his mouth

 

                         pour forth my soul

 

                                     his soul              commingling

 

I thought a Being more than vast, His body leading

                  into Paradise,      his eyes

                                quickening a fire in me,         a trembling

 

               hieroglyph:          At the root of the neck

 

         the clavicle, for the neck is the stem of the great artery

             upward into his head that is beautiful

 

                                    At the rise of the pectoral muscles

 

the nipples, for the breasts are like sleeping fountains

       of feeling in man, waiting above the beat of his heart,

       shielding the rise and fall of his breath, to be

       awakend

 

                                    At the axis of his mid hriff

 

the navel, for in the pit of his stomach the chord from

     which first he was fed has its temple,

 

                                 At the root of the groin

 

the public hair, for the torso is the stem in which the man

      flowers forth and leads to the stamen of flesh in which

      his seed rises

 

a wave of need and desire over         taking me

 

                              cried out my name

 

              (This was long ago.      It was another life)

 

                                                and said,

                           What do you want of me?

 

 

I do not know, I said.        I have fallen in love.        He

        has brough me into heights and dephts my heart

                        would fear         without him.       His look

 

            pierces my side     .       fire eyes     .

   

          I have been waiting for you, he said:

                                        I know what you desire

 

                       you do not yet know        but through me     .

 

         And I am with you everywhere.         In your falling

 

         I have fallen from a high place.            I have raised myself

  

                          from darkness in your           rising

 

                                                     wherever you are

 

                my hand in your hand         seeking        the locks, the keys

 

I am there.            Gathering me, you gather

 

                    your Self.

 

       From my Other is not a woman but a man

 

      the King upon whose bosom let me lie.         

 

                                                                                                                          Poema de Robert Duncan        1968

Nota: “Torso”, pintura-colagem do poema de Robert Duncan - ”The Torso”, é um livro de artista. É dedicado ao poeta Ricardo Marques.

 

 

 

                                   

 

 

 

Breve ensaio sobre a chegada

1.

 A terra crestada está ali em frente
com as últimas ondas que rosnam
e insistem em seu imprevisível gesto.

Logo o porto se alarga
como goela de animal ferino

e essa pátria ainda sem palavras
abre suas fauces para nós
incrédulos

tomados pelo medo do rapto.

2.

Tanta vida gasta até essa linha
até essas pedras lisas:
Europa, vejo teu rosto limpo
e largo,
no meio da bonança
enquanto o animal ainda está adormecido

então torço com todas as forças:

oxalá a borrasca que sabemos
sempre próxima
a explosão da língua inimiga
não passe de uma ranhura
no assoalho, o estranho esgar
do vento no telhado.

3.

 Para essa terra de abandono
migramos,
carregando o que sobra
do despojo:

nosso rosto virado
rumo ao sol,
rebojo de poeira e vento
na seca

e uma flor, pelo menos,
pelo menos uma flor
aberta apesar da fome

- aquela, que nos sobrevive
e demora

4.

 Entre os trilhos para Ventimiglia
vejo um corredor de ruínas:

ferrugem, chicória e ervas daninhas
os prédios rachados
- áridos, quase cactos
pela maresia

nesse limbo entre duas terras
há uma calça estilhaçada
e um sapato solitário
deitado, como corpo violado

são as relíquias de outra guerra
onde a bomba é o carimbo
e o míssil é a fronteira imaginária

mais adiante
o tesouro saqueado:
a mala aberta
como boca desdentada

a pátria portátil jaz no trilho

logo o trem se moveu na estação,
a mala foi ficando pequena
e longínqua, debaixo do sol cortante

não foi possível ver
o que brilhava dentro dela
- um alfinete
talvez algum pente de nácar:

aquele brilho insólito
que enfrenta as dunas do deserto

- um profeta no meio da devastação.

"A Tempestade" de Georg Trakl

Georg-Trakl.jpg

Tradução: J. Carlos Teixeira

A Tempestade

Vós, selvagens montanhas, das águias
Sublime luto.
Nuvens douradas
Fumegam sobre desertos de pedra.
Paciente silêncio respiram os pinheiros,
Os cordeiros negros no abismo,
Onde subitamente o azul
Estranhamente silencia,
O doce zunir do abelhão.
Ó, verde flor -
Ó, silêncio. 

Oníricos agitam sombrios espíritos
Do ribeiro bravio o coração,
Escuridão
Que desaba dos desfiladeiros.
Vozes brancas,
Errantes pelos pátios lúgubres,
Terraços despedaçados,
A violenta ira dos pais, o lamento
Das mães,
Do menino, o dourado grito de guerra,
Dos não-nascidos,
O gemido de olhos cegos. 

Ó dor, tu, flamejante visão
Da grande alma!
Estremece no negro tumulto
Dos cavalos e vagões
Um raio rosa e horrendo
No abeto ressonante.
Frio magnético
Paira em volta desta altiva cabeça,
Brilhante melancolia
De um Deus enraivecido. 

Medo, ó venenosa serpente,
Negra, morre na pedra!
Lá, caem das lágrimas
Correntes bravias,
Tempestade-compaixão,
Ecos em trovões ameaçadores
Os cumes em neve rodeiam.
Fogo
Purifica noite destroçada. 

in Der Brenner, 1914


Das Gewitter

Ihr wilden Gebirge, der Adler
Erhabene Trauer.
Goldnes Gewölk
Raucht über steinerner Öde.
Geduldige Stille odmen die Föhren,
Die schwarzen Lämmer am Abgrund
Wo plötzlich die Bläue
Seltsam verstummt,
Das sanfte Summen der Hummeln.
O grüne Blume -
O Schweigen.

Traumhaft erschüttern des Wildbachs
Dunkle Geister das Herz,
Finsternis,
Die über die Schluchten hereinbricht!
Weiße Stimmen
Irrend durch schaurige Vorhöfe,
Zerrißne Terrassen,
Der Väter gewaltiger Groll, die Klage
Der Mütter,
Des Knaben goldener Kriegsschrei
Und Ungebornes
Seufzend aus blinden Augen.

O Schmerz, du flammendes Anschaun
Der großen Seele!
Schon zuckt im schwarzen Gewühl
Der Rosse und Wagen
Ein rosenschauriger Blitz
In die tönende Fichte.
Magnetische Kühle
Umschwebt dies stolze Haupt,
Glühende Schwermut
Eines zürnenden Gottes.

Angst, du giftige Schlange,
Schwarze, stirb im Gestein!
Da stürzen der Tränen
Wilde Ströme herab,
Sturm-Erbarmen,
Hallen in drohenden Donnern
Die schneeigen Gipfel rings.
Feuer
Läutert zerrissene Nacht.

in Der Brenner, 1914

Livros feitos humanos

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Friedrich Nietzsche é excessivo, já o sabemos. Daí emerge o poder de fascinar os mais jovens – porque é intempestivo e dá a ideia de que cada um pode criar um mundo à sua vontade – e os entrados no tempo longo, porque encontram, embora em pequenas doses, interpretações mais justas da realidade do que a dos servos do cientificamente correcto (um “verdadeiro” ligado ao congelador académico e ao politicamente anódino).

Bastante se tem escrito sobre a forma, ou formas, de o lermos. Também tenho vindo a falar sobre isso. Por um lado, porque é difícil compreendê-lo satisfatoriamente (isto é, para lá do fogo de artifício hiperbólico, iconoclasta e heterodoxo); por outro lado, porque querendo seguir as suas indicações – que no essencial são duas: lentidão e isomorfismo vital –, nos deparamos com uma distância superior à que julgávamos entre o que ele pensou e sentiu e o que nós podemos pensar e sentir (caso para dizer: “isto é demasiado grande para mim!”). Em resumo: a familiaridade com Nietzsche será sempre uma ilusão. Mesmo quando ele parece sugar-nos o ar todo.

Restam, no entanto, as suas obras, que são mais e menos do que ele. Na verdade, são outra coisa. Dizer que se lê, ou leu, Nietzsche, o próprio autor, é uma falsidade ingénua e, na maioria dos casos, involuntária (temos esse hábito de confundir o que lemos com quem o escreveu). Conhecemos, porém, a sua advertência, que devíamos levar mais a sério: “Uma coisa sou eu, outra são os meus escritos.” (Ecce Homo, “Porque escrevo livros tão bons”, §1) Portanto, o que podemos ler, apanhando alguma das suas intenções, são as obras que nos deixou, muitas involuntárias, já que nos autorizamos, depois do tráfico editorial da irmã e dos Nietzche-Archiv, a publicar quase todas as suas notas pessoais.

Duas citações exemplificam claramente o que venho dizendo:

“O êxito foi sempre a maior mentira – e a própria ‘obra’ é um êxito; o maior homem de Estado, o conquistador, o descobridor disfarçam-se nas suas criações, até se tornarem irreconhecíveis; a ‘obra’, do artista ou do filósofo, é que inventa quem a produziu, quem tinha de a produzir; os ‘grandes homens’, tal como são venerados, são pequenos poemas posteriores de má qualidade; no mundo dos valores históricos dominam os moedeiros falsos.” (Para lá Bem e Mal, §269)

O livro quase feito homem [Das Buch fast zum Menschen geworden]. Surpreende sempre qualquer escritor a maneira como o livro, assim que se separou dele, continua a viver por si uma vida própria; ele sente-se como se uma parte de um insecto se tivesse despegado e prosseguisse, agora, o seu próprio caminho. Talvez ele o esqueça quase por completo, talvez se erga acima das ideias que lá estão postas por escrito, talvez até já não o compreenda e tenha perdido as asas, com as quais voava então, quando ideou aquele livro: entretanto, este procura para si os seus leitores, desperta vida, torna feliz, assusta, produz novas obras, torna-se a alma de desígnios e de acções, em suma, vive como um ser dotado de espírito e de alma e, no entanto, não é uma pessoa. A sorte mais ditosa terá cabido ao autor que, quando velho, possa dizer que tudo quanto nele havia de ideias e sentimentos fecundos, tonificantes, exaltantes, esclarecedores, continua ainda a viver nos seus escritos.” (Humano, Demasiado Humano I, §208)[1]

Estes dois momentos decidem talvez a melhor maneira de pensarmos com Nietzsche a força das ideias para lá da vida dos seus autores. Se é verdade que os seus textos exigem uma ética da leitura que passa muitas vezes por um isomorfismo vital (Nietzsche, amante das contradições, usa grande parte de Ecce Homo, esse modelo de autobiografia descomplexada, para afirmar que só o podem compreender vivendo como ele viveu), também é verdade que outras tantas vezes, como quis realçar no que citei, devemos ler o livro esquecendo o autor, lê-lo como se se tivesse escrito a si mesmo, podendo dizer-se, por exemplo, que Assim Falou [ou Falava] Zaratustra está muito para lá da mão inspirada que o escreveu, que há bastante tempo se fez homem, que é um organismo vivo de alta complexidade.

As obras de Nietzsche, sob a capa de uma “lucidez delirante”, fizeram-se à vida, mantendo-se actuais e inactuais, tempestivas e intempestivas, escrutinando os problemas do presente e abrindo para experiências vitais do futuro, onde, também elas, serão outra coisa, porque terão outros sentidos. Mas é verosímil pensar-se que podem desaparecer, como estiveram esquecidas antes de nascerem os leitores que se fizeram na morbideza, na decadência e, ao mesmo tempo, heroísmo e superação do espírito fin-de-siècle (geração magnificamente descrita por Robert Müsil, em Der Mann ohne Eigenschaften, sobretudo no cap. 15 do livro I. Sendo também aqui que se situou O Declínio do Ocidente de Oswald Spengler e todo um irracionalismo literário e filosófico marginal à Universidade, agrupado na Alemanha em torno da revista Die Blätter für die Kunst).

Apesar desta possibilidade fúnebre, creio que porque falam de solidão e, sobretudo, de renaturalização do humano, os livros de Nietzsche acompanharão o pessimismo ecológico, essa nova sacudidela no optimismo do progresso e no humanismo antropocêntrico, vontade de desacelerar o tempo, de recusar o supérfluo, de imergir nos movimentos vitais da Gaia, de uma terra viva maior do que os humanos. Uma terra de outros homens, como foi escrito por Nietzsche, com a sua gravidade profética, e que talvez hoje como nunca, no meio desta infinita crise civilizacional, a juventude, resumida em Greta Thunberg, espalha mais o medo do que a esperança, mais o dionisíaco do que o apolíneo.

 


[1] De Nietzsche há também o §140 de “Opiniões e sentenças misturadas”, Humano, Demasiado Humano II, que sintetiza a ideia de que o autor deve reservar-se quando o livro toma a palavra: “Der Autor hat den Mund zu halten, wenn sein Werk den Mund aufthut.” (KSA 2, 436)