«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
Jaime Gil de Biedma — "Durante a invasão"
/Durante a invasão
Sobre a toalha, aberto, está o jornal
da manhã. Brilha o sol nos copos.
Almoço no pequeno restaurante,
um dia de trabalho.
Calamo-nos quase todos. Alguém fala em voz vaga
— e são conversas com a tristeza especial
das coisas que sempre acontecem
e que não acabam nunca, ou acabam em desgraça.
Eu penso que a esta hora amanhece em La Ciénaga,
que tudo está indeciso, que o combate não para,
e procuro nas notícias um pouco de esperança
que não venha de Miami.
Ó Cuba no veloz amanhecer do trópico,
quando o sol não esquenta e o ar está claro:
que tua terra dê tanques e que teu céu partido
esteja cinza com as asas dos teus aviões!
Contigo está a gente da cana de açúcar,
o homem do bonde, os dos restaurantes,
e todos nós que hoje procuramos no mundo
um pouco de esperança que não venha de Miami.
De Moralidades (1966)
Durante la invasión
Sobre el mantel, abierto, está el periódico
de la mañana. Brilla el sol en los vasos.
Almuerzo en el pequeño restaurante,
un día de trabajo.
Callamos casi todos. Alguien habla en voz vaga
–y son conversaciones con la especial tristeza
de las cosas que siempre suceden
y que no acaban nunca, o acaban en desgracia.
Yo pienso que a estas horas amanece en la Ciénaga,
que todo está indeciso, que no cesa el combate,
y busco en las noticias un poco de esperanza
que no venga de Miami.
Oh Cuba en el veloz amanecer del trópico,
cuando el sol no calienta y está el aire claro:
que tu tierra dé tanques y que tu cielo roto
sea gris de las alas de tus aeroplanos.
Contigo están las gentes de la caña de azúcar,
el hombre del tranvía, los de los restaurantes,
y todos cuantos hoy buscamos en el mundo
un poco de esperanza que no venga de Miami.
E. E. Cummings - poema nº 24, in "No thanks"
/tradução: João Coles
24.
“vamos inaugurar uma revista
que se lixe a literatura
queremos algo tinto de sangue
reles de pureza
tresandando de crueza
e destemidamente obscena
mas muito limpa
estão a perceber
não a estraguemos
tornemo-la séria
algo autêntico e delirante
sabem, algo genuíno como uma borrada
na sanita
agraciada com as vísceras e visceralmente
graciosa”
aperta os tomates e dá a cara
― E.E. Cummings, poema nº 24, in No Thanks
24.
“let's start a magazine
to hell with literature
we want something redblooded
lousy with pure
reeking with stark
and fearlessly obscene
but really clean
get what I mean
let’s not spoil it
let’s make it serious
something authentic and delirious
you know something genuine like a mark
in a toilet
graced with guts and gutted
with grace”
squezze your nuts and open your face
― E.E. Cummings, poema nº 24, in No Thanks
No Silêncio...
/“todos iguais a todos. Quando”
- Bernardo Pinto de Almeida
“Isto é excesso de tempo livre!”
- Raul Milhafre
Caspar Friedrich - “View of Arkona with rising moon and nets”, 1803.
Eftychia Panayiotou, «Pouco antes de te levantares»
/Tradução de Michel Kabalan
Pouco antes de te levantares
Não me digas que não quiseste penas de pavão,
um vestido a arrastar pela pista da valsa.
E se o palpitar do coração te roubasse a coroa
quando o mais ousado te olhou nos olhos,
Não digas que foi ele o conquistador
Ele estava já ajoelhado.
Λίγο πριν σηκωθείς
Μην πεις πως δεν πόθησες τα φτερά του παγονιού,
ένα φόρεμα να σκουπίζει την πίστα με βαλς.
Κι αν την κορόνα σού έκλεψε τελικά το καρδιοχτύπι
όταν σε κοίταξε στα μάτια ο τολμηρότερος,
μην πεις πως ήτανε κατακτητής·
στα γόνατα είχε πέσει.
Sobre a autora
Eftychia Panayiotou (Chipre, 1980) é uma poeta e tradutora de poesia (Anne Sexton, Anne Carson, Lord Byron, William Blake, Percy Bysshe Shelley). Já publicou 3 livros de poesia: μέγας κηπουρός, 2007(O grande jardineiro), Μαύρη Μωραλίνα 2010 ( Moralina Negra),e Χορευτές 2014 (Dançerinos). Ela também trabalha com poesia visual (videopoetry) e poesia sonora (soundpoetry).
