MIlIMÉTRICO(s) - "Ulrich Leyendecker, 6/17"

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Nota: O que são milimétricos? Milimétricos são desenhos inspirados na escrita musical. São audições de composições de música clássica contemporânea transcritas para papel milimétrico. Essas “transcrições” não são mais do que “recriações livres” da audição. Desenhar, pintar, escrever sobre música sempre foi uma ambição e uma impossibilidade dos homens. A música é por natureza a mais abstrata das artes, e é nesse sentido que são escritos/desenhados os milimétricos. Todos os milimétricos inspiram-se nas partituras musicais de compositores contemporâneos, como por exemplo: Schoenberg, Stravinsky, Boulez, Penderecki, Ligeti, Grisey, Hugues Duford e outros. Nada disto seria possível sem as lições apreendidas de Kandinsky, Klee, Malevitch, Rothko, Cy Twombly e tantos outros. Pode-se resumir um milimétrico com um excerto de um verso de Luís Quintais: “Tempo em quadrícula”. São desenhos abstratos que se aproximam da ideia de escrita e da escrita musical. São construções livres e sem qualquer pretensão de serem estudos rigorosos de música contemporânea. Interessa ao autor esse “não saber”, a sua “impossibilidade de ler ou escrever música”, uma impossibilidade que não o impede de amar a música. Com os milimétricos o autor segue a máxima de Albert Einstein: “a imaginação é mais importante que o conhecimento”.

Pier Paolo Pasolini, “Estamos fartos de nos tornarmos jovens sérios”

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Tradução: João Coles

Senhor professor, vimos o Diabo do Anjo
negro como Luciano o Sarraceno: "Gritem Viva
Benjamin Spock
" diz-nos. Ocorre uma varinha.
Chega de Ágape, queremos Ananke.

Estamos fartos de nos tornamos jovens sérios,
ou felizes à força, ou criminosos, ou neuróticos:
queremos rir, ser inocentes, esperar
alguma coisa da vida, perguntar, ignorar.

Não queremos ter certezas tão depressa.
Não queremos ficar sem sonhos tão depressa.
Greve, greve, camaradas! Pelos nossos deveres!

Senhor professor, pare de nos tratar como otários
que não podem nunca ser ofendidos, magoados,
tocados. Não nos adule; somos homens, senhor professor!

(Pier Paolo Pasolini, in Lettere Luterane)


Siamo stanchi di diventare giovani seri

Signor Maestro, abbiamo visto il Diavolo dell’Angelo
nero come Luciano ‘o Sarracino: «Gridate Viva
Benjamin Spock», ci fa. Occorre la bacchetta.
Basta con l’Agàpe, vogliamo l’Anànke.

Siamo stanchi di diventare giovani seri,
o contenti per forza, o criminali, o nevrotici:
vogliamo ridere, essere innocenti, aspettare
qualcosa dalla vita, chiedere, ignorare.

Non vogliamo essere subito già così sicuri.
Non vogliamo essere subito già così senza sogni.
Sciopero, sciopero, compagni! Per i nostri doveri.

Signor Maestro, la smetta di trattarci come scemi
che bisogna sempre non offendere, non ferire,
non toccare. Non ci aduli, siamo uomini, Signor Maestro!

(Pier Paolo Pasolini, in Lettere luterane)

Naturezas mortas

tradução de Tatiana Faia

Na sala das naturezas mortas lembrei-me;
quando cortas o cacho da vinha
a morte chega à uva
natureza morta e silenciosa
de frutos colhidos de flores desenraízadas
em vasos de cristal
escamas de peixes que perderam o brilho

No Outono as páginas
do calendário caem
uma romã rasga a tela
abre-se em fenda - os arilos inundam o chão
o vermelho é varrido pelos sapatos
dos visitantes
Esquecemo-nos de que as manchas de romã
não desaparecem
como beterrabas e outras coisas indeléveis
das naturezas mortas


Versões grega e inglesa:

Νεκρές φύσεις

 

Στην αίθουσα με τις νεκρές φύσεις θυμήθηκα

όταν κόβεις από το αμπέλι το τσαμπί

έρχεται ο θάνατος του σταφυλιού

Ζωή ασάλευτη και σιωπηρή

Κομμένων καρπών ξεριζωμένων ανθέων

σε κρυστάλλινα δοχεία

Λέπια ψαριών που έχασαν τη γυαλάδα τους

 

Το φθινόπωρο κάνει τα φύλλα

του ημερολογίου και πέφτουν

Ένα ρόδι ξεκολλά από τον καμβά

Σπάζει σπυριά ξεχειλίζουν

στο πάτωμα το κόκκινο παρασύρεται

από τα παπούτσια των επισκεπτών

Ξεχάσαμε πως το ρόδι άμα βάψει

δεν ξεβάφει

όπως τα παντζάρια και άλλα

ανεξίτηλα των νεκρών φύσεων

 

Still lives

 

In the room of still lifes I remembered;

when you cut the cluster from the vineyard

the death of the grape comes

still life and silent 

of cut fruits of flowers uprooted 

in crystal vases 

fish scales that lost their sheen

 

In autumn the pages of

the calendar fall down 

A pomegranate tears off the canvas

It cracks open- its arils overflow 

the floor the red is swept along 

by the shoes of visitors 

We forgot that the pomegranate

stains do not fade 

like beetroots and other 

indelibles of still lifes 

ANDRÓMEDA e outros poemas

ANDRÓMEDA

 

Ajude-nos a salvar

Melania Trump!

Cosido o seu braço

em arame branco

à pele rugosa do Kraken

pouco pode dizer.

O seu sonho é a liberdade.

Assine o abaixo-assinado

e salvemos juntos

Melania Trump.

 

Enquanto isto Perseu ranhoso

uma espécie de Clooney num

filme dos Coen discute com Ares

a importância dos guarda-sóis

deitado numa espreguiçadeira

“São a indiferença dos homens”.

 

 Para Ares Alexandrino tanto se

lhe dá haver guarda-sol ou não.

Uma vez em Myconos tudo o que

quer são umas grossas mãos

umas que saibam esfregar o

protetor solar nas costas.

 

Por favor assinem o abaixo-

-assinado aqui em baixo

____________________________

Para que tudo fique na mesma.

 

Enquanto o Kraken não estiver à

nossa porta o Mal não existe.



ESPARGUETE




and Nat “King” Cole is telling me I’m unforgettable,

Which i aprecciate, although i know full well that

I will be forgotten”

- Ron Padgett

 

Levantou-se da cadeira e escrevendo

no quadro o trabalho de casa

“da página 10 até à página 1943”

disse muito suavemente

no seu tom de sempre

de morto-vivo

“Porque é que há palavras que

aparecem assim do nada?

Ao mesmo tempo o colega do lado

franzindo a sobrancelha perguntava-me

“é 1943 ou 1948?”

 

Entre as duas perguntas

imaginava-me a descalçar as minhas

novas All Star no tampo superior da

Ponte D. Luís e inevitavelmente a saltar!

 

Esparguete, sim! Se lá existe é porque

é um dos alicerces de toda a Ponte.

 

Já viram que coisa feia plantaram agora na

nossa nobre cidade? Dois pisos para quê?



ÁGOAS ETERNAS

 

a Fernando Pessoa

 

agora a

ágoa reporta-se à

doçura de outrora a

ágoa da ternura que

levou na hora certa toda

a amargura.

lavada mágoa a mágoa

a fria agrura

regressou

uma e outra vez

sem que se fechasse a porta.

 

agora

regresso à ágoa

da ágora para lavar-me

a memória

e o corpo futuro que

me agoira.

 

lava-me ágoa de

agora!

leva-me a dor de

outrora e com ela

a fiança do meu fim.



*ágoa - grafia de Pessoa

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Tamara De Lempicka - “Andrómeda”, 1927/28. (Pormenor)