Subsídios para a criação de uma polícia poética

para o Ricardo Marques

 

é altura de admitir
que os esforços
de um ou dois críticos
apesar de heróicos
não são suficientes
e que hoje
mais do que nunca
é necessário
que o estado
tome medidas firmes
sobre o oeste selvagem
que se tornou
a poesia em Portugal

uma entidade isenta
que certifique
a verdadeira poesia
legisle
sobre a temática
regule a forma
promova
a criação de léxicos
de termos poéticos
e anti-poéticos
nomeie comissões
de eventos
defina critérios de avaliação
sem esquecer
os anos de serviço
seja firme
na defesa do interesse público
contra os lobbies
do verso branco
e decida por fim
a penosa questão da rima

e sobretudo
que proteja
os cidadãos cumpridores
da poesia iníqua
o artifício
desprovido de sentido
aplique coimas
aos que escrevem poemas
sobre escrever poemas

Terceira Margem

terceira margem_capa_pequeno.jpg

Poesia de Portugal e do Brasil

Editado por
Francisca Camelo
Bruno M. Silva
J. Carlos Teixeira
Vítor Teves

Prefácio de Pedro Eiras

 Enfermaria 6, Lisboa, novembro de 2019, 174 pp.

Capa de Gustavo Domingues

14€

Tira1.jpg
 

Para revelar o sabor das coisas, para saber o que já se sabia, não há regras, há apenas escritas, procuras, experiências e encontros, a muitas vozes e a muitas mãos – por exemplo, vinte e duas mãos de poetas e poetisas, entre Portugal e o Brasil, vozes que descrevem, revelam, diagnosticam as avarias na máquina do mundo, vozes que se enervam, ironizam, por vezes escondem a dor numa fuga em frente, vozes ríspidas, oníricas, ternas e lentas e velozes ao mesmo tempo, vozes imprevisíveis, que coincidem num mesmo presente e o multiplicam por outros tantos tempos, vozes, idiomas.

Pedro Eiras, “Como se revela o sabor das coisas”

 

Fukao Sumako, “A Casa Iluminada”

Hiroshige, Evening view of a temple in the hills

Hiroshige, Evening view of a temple in the hills

Tradução: Bruno M. Silva

É uma casa iluminada;
nenhum quarto é sombrio.

É uma casa que se ergue alta
sobre os penhascos, aberta
como uma torre de vigia.

Quando a noite chega
eu ponho uma luz dentro,
uma luz maior do que o sol e a lua.

Pensa
em como o meu coração se sobressalta
quando os meus dedos trémulos
acendem um fósforo na noite.

Eu levanto os seios
e inspiro e expiro o som do amor
como a filha apaixonada de um faroleiro.

É uma casa iluminada.
Criarei nela
um mundo que nenhum homem conseguirá construir.

*

Bright House

It is a bright house;
not a single room is dim.

It is a house which rises high
on the cliffs, open
as a lookout tower.

When the night comes
I put a light in it,
a light larger than the sun and the moon.

Think
how my heart leaps
when my trembling fingers
strike a match in the evening.

I lift my breasts
and inhale and exhale the sound of love
like the passionate daughter of a lighthouse keeper.

It is a bright house.
I will create in it
a world no man can ever build.

(Women Poets of Japan, tradução Kenneth Rexroth e Ikuko Atsumi, New Directions Books)

CONDECONDERAÇÕES POST MORTEM

Quando eu morrer voltarei para ir buscar

as jóias e toda a tralha com a marca Sophia:

o saquinho de pano, o marcador de livro,

o cartaz, o panfleto, o livro de bolso, o

livro de tijolo, o colar, o chapéu de palha

e o lenço bordado com musa musa musa.

 

Esta é a madrugada que eu esperava,

o pó e a azia estão, finalmente, na rua e a

multidão, sonâmbula, passa e só pia, só pia.

 

Quero-me longe dessa quimera, pois

tudo é, agora, impuro, profano e sujo.


Giovanni_bellini,_san_francesco_02.jpg

Giovanni Bellini - “O êxtase de S. Francisco”, c. 1480 (pormenor)



MIlIMÉTRICO(s) - "Ulrich Leyendecker, 6/17"

Scan0002.jpg
Scan0003.jpg
Scan0004.jpg
Scan0005.jpg

Nota: O que são milimétricos? Milimétricos são desenhos inspirados na escrita musical. São audições de composições de música clássica contemporânea transcritas para papel milimétrico. Essas “transcrições” não são mais do que “recriações livres” da audição. Desenhar, pintar, escrever sobre música sempre foi uma ambição e uma impossibilidade dos homens. A música é por natureza a mais abstrata das artes, e é nesse sentido que são escritos/desenhados os milimétricos. Todos os milimétricos inspiram-se nas partituras musicais de compositores contemporâneos, como por exemplo: Schoenberg, Stravinsky, Boulez, Penderecki, Ligeti, Grisey, Hugues Duford e outros. Nada disto seria possível sem as lições apreendidas de Kandinsky, Klee, Malevitch, Rothko, Cy Twombly e tantos outros. Pode-se resumir um milimétrico com um excerto de um verso de Luís Quintais: “Tempo em quadrícula”. São desenhos abstratos que se aproximam da ideia de escrita e da escrita musical. São construções livres e sem qualquer pretensão de serem estudos rigorosos de música contemporânea. Interessa ao autor esse “não saber”, a sua “impossibilidade de ler ou escrever música”, uma impossibilidade que não o impede de amar a música. Com os milimétricos o autor segue a máxima de Albert Einstein: “a imaginação é mais importante que o conhecimento”.