Património

Migalhas muitas e folhas e restos
e periscas que inundam passeios
e caminhos. Palavras assim,
ao abandono, perdidas.
Que não inquietam ninguém,
excepto os doentes
que tudo sentem de modo mais vívido.
Tudo tão volátil
como os textos e imagens
que ficam pelos arquivos
digitais ou físicos, ensimesmados
nas metáforas da selva e do circo.
Isso que, para os mais velhos,
é ainda pura monocromia.
De facto, que seria dos museus
sem estes desperdícios?

Obelisco do Alto da Memória, Angra do Heroísmo. (Pormenor).


"Fraternidade" de Ingeborg Bachmann

Kushner-Ingeborg-Bachmann.jpg

Tradução: J. Carlos Teixeira

Fraternidade

Tudo abre a ferida -
nenhum de nós perdoou o outro.
Ferido como tu e ferindo,
guiei-me em direção a ti.

O mais puro, o espírito do toque,
a cada toque aumenta;
provámo-lo ao envelhecer:
invertidos no mais frio silêncio.

in Gedichte 1957-1961


Bruderschaft

Alles ist Wundenschlagen,
und keiner hat keinem verziehn.
Verletzt wie du und verletzend,
lebte ich auf dich hin.

Die reine, die Geistberührung,
um jede Berührung vermehrt,
wir erfahren sie alternd,
ins kälteste Schweigen gekehrt

in Gedichte 1957-1961

TOLDO

Vítor Teves - “Toldo” - I - XII, 2018.

Nota: Sempre odiei (e odeio) a palavra “Ilustração”; não procuro, nem quero, ilustrar coisa nenhuma. É possível pintar poesia sem ilustrá-la. A ilustração de poesia é reducionista e desinteressante (na sua maioria). 10 anos depois de “Um toldo vermelho”, esta é uma pequena série à volta do livro, uma leitura “emocional” do livro, apenas isso, uma versão entre outras que fiz. Esta é uma versão de 2018, existem muitas mais. A dimensão do papel é fundamental, são trabalhos intimistas e constituem apenas um “quadrado” no seu todo: 4 + 4 + 4 =12. Alguns zonas estão esborratadas (pelo fixador) porque assim o quis. Foi feito a pastel seco e esferográfica. Dedico esta série a todos aqueles que pensam que: a) o desenho só pode ser feito com grafite; b) os que acham que a pintura tem de ter entre 3 a 5 metros; c) os que acham que a pintura só pode ser feita a óleo. Isto é Pintura: a) colorida; b) de pequenas dimensões; c) e sobre papel (sim, papel, nada que não tivessem já feito).

ps- Quando for grande vou pintar hortênsias.

Vítor Teves, 01.2020

Idades do pensamento

Cabelo.png

O título é pomposo, excede o que posso dizer sobre o que representa. É, pois, um mau título, leva ao engano criando falsas expectativas. Mas é um belo título, ou pelo menos assim o considero.

Nesta injunção antagónica emerge uma parcela importante da história da humanidade, resumida na pergunta: importa mais a beleza ou a verdade? Sabemos que as vagas religiosas, depois dos politeísmo festivo e antropomorfismo descarado da Grécia Clássica, hipertrofiaram outro pilar civilizacional: o do bem.

Temos, assim, o belo, a verdade e o bem (que Platão, esse grego desnaturado de uma rara lucidez, acrescentou sem dilemas ao mundo do luxo racional e sonho antropológico a que chamou Ideias). Eu, por pudor espiritual e experiência rasteira de vida, consigo facilmente evitar olhar para a realidade com os óculos do bem (embora me interesse a “common decency” de Orwell) e coloco cada vez menos os da verdade (uma palavra que exalta mais do que harmoniza, que serve melhor estratégias políticas e religiosas do que a ciência ou as boas dialécticas argumentativas).

Restam-me, então, os do belo, e é com eles que formato agora grande parte do meu pensar. Penso para encontrar o belo em cada coisa que leio, que ouço ou que vejo. Em cada coisa que vem do exterior ou do interior. De cima (das alturas inauguradas por Platão) ou de baixo (da espontaneidade, tantas vezes considerada espúria, do dia-a-dia). Até nas ilusões restropectivas ou nessa coragem líquida que é o álcool.

O objectivo, que só recentemente consegui exprimir (é incrível como podemos sentir intensamente uma perspectiva sem o suporte das palavras), embora esteja ainda longe de qualquer explicação mais elaborada, é, como em Georges Perec, procurar simultaneamente o eterno e o efémero (“Je cherche em même temps l’éternel et l’éphémère”, escreve). Até recentemente, acreditei que só os conceitos podiam alcançar a vastidão do tempo (o universal), ficando o temporário a cargo do discurso rotineiro feito de cem palavras que todos percebem. Mas não, terá de ser um dispositivo de linguagem, verbal ou outra, que, a partir do belo, crie uma nova cabeça de Janus, de um lado olhando para o efémero, do outro para o eterno.

Genial complexidade que, paradoxalmente, só se adquire passando por uma genial simplicidade. Nada que tenha que ver com a vontade heróica, é antes uma questão de idade do pensamento. Que não segue, desenganem-se os que romantizam o envelhecimento, a idade cronológica. Trata-se de uma condição adquirida depois de habitar à vez no obscuro e no claro, sempre um pouco por acaso (“Não é meia noite quem quer”, dizia René Char em mais um dos seus belos truques retóricos, socorrendo-se da imunidade artística concedida aos poetas).

ecce homo

há um homem
que atravessa a rua
para comprar pão
que se preocupa com as contas
a pagar no final do mês
há um homem a quem darei lugar
na fila do supermercado
por só trazer com ele
frango grelhado
e um pacote de batatas fritas
talvez lhe dê indicações na rua
quando estiver perdido
para um encontro
ou o avise da mochila aberta
numa manhã no metro
em hora de ponta
quem sabe salvo-lhe um filho
se ele não reparar
que a criança
se aproximava demasiado da estrada

há um homem
com quem me cruzarei
a cidade é pequena
e isso é tão certo
não lhe vou saber a idade
ou como queria ele envelhecer
ou se imaginava algum dia
a que velocidade
faria voar um corpo

não lhe conheço a cara
o nome, preferi também não saber
há um homem que respira
que verá o céu limpo que hoje se pôs
fará as suas plantas crescer
se não se esquecer de as regar
e pouco a pouco
ficará mais perto do chão

sabemos pouco:
há um homem
ele respira
esse homem vivo
que matou alguém que amamos

é este o homem
que fez de nós
árvores perenes da cor da ira,
venham todas as estações
dilúvios bíblicos anos férteis
passem gerações de filhos
casas demolidas antigamente habitadas
esqueçam-se detalhes
de velhas histórias de amor
morram animais dóceis
por mais amados
depois de décadas silenciosos
num recanto doméstico

enquanto um de nós for vivo
seremos sempre estilhaços
de um aperto agudo:
a perpétua busca de alguém
que sem saber
nunca voltaria a casa.