REMIX: A CULPA É DE PETRÓNIO!

“Tudo o que expurga a sua parte maldita

assina a sua própria sentença de morte.”

- Baudrillard

I

DELÍRIO BÁQUICO

Quiseram todos os senhores que eu me

aprontasse de luvas brancas e de olhos

cristalinos avistasse o puro e pleno dia.

Quiseram todas as senhoras que me

vestisse de branco e dissesse de manhã

à noite palavras de amor e púrpuras

flores cantasse por entre o jardim.

Pediram-me toda a eloquência pureza

amor suave e brancos jasmins de ternura.

Pediram-me tanta suavidade e claridade

que só em amargura soube trazer-lhes o

contraste. Sem que soubessem dei-lhes

a força negativa para se equilibrarem

na doçura e dela fazerem o seu traste.

II

Um Ano sem Barbara Stronger (1983-2019)

    Isto são notas sobre a subtileZa (aqui deixei S/Z, de Roland Barthes, de fora) pelo menos, procuram sê-lo. Depois de derramar tanto sangue, um massacre, quem diria? Ninguém é só uma coisa, somos uma mistura de mil coisas, mil observações opostas; um lado masculino, um lado feminino, ou talvez, mil lados masculinos, mil lados femininos. Um espelho infinito, multiplicando-se. Complexidade, nunca simplicidade. Foi Pessoa, esse grande oxímoro, que disse que tudo é paradoxo, e ele tem imensa razão. Alguns têm essa consciência e praticam-na, outros procuram manter a fachada de que são altos edifícios, blocos rígidos de virilidade e masculinidade oca.

      Vem isso a prepósito de Barba Stronger (1983-2019) que morreu, faz hoje, um ano. Foi com ela, essa grande Mulher, que aprendi algo muito importante: É preciso transformarmo-nos no Monstro para podermos matar o Monstro! Teógnis, há 2 500 anos, terá dito algo parecido, é preciso estar entre os Monstros para descobrirmos a nossa própria Resistência. Com ela aprendi a viver mais, a rir mais, sobretudo de mim. Agora que faz um ano que se suicidou, é preciso lembrá-la, e em agradecimento, contar aquilo que ela me trouxe. Foi tão pouco, e tanto ao mesmo tempo, que não sei por onde começar: trouxe-me Cysneiros, trouxe-me Brueghel, trouxe-me Ana Karerina, trouxe-me o riso, trouxe-me toda a revolta, trouxe-me ao sangue, trouxe-me à vida. Sim, à vida!

      Aqui na moderna e grande cidade, somos todos Zombies, mas a verdade é que os artistas e os poetas sempre foram, de alguma forma, Zombies – seres meio vivos, mortos no seu canto com a luz da lamparina acesa sobre um livro. (Ver: o pensador de Rembrandt). Sozinhos, sempre sozinhos! E “fomos” isso tudo, e “Somos” isso tudo, pois não há criação sem o corte com a vida externa. “(…) a escrita exige solidões e desertos” – Sophia.

      Hoje somos todos Zombies: uns por natureza (o poeta, o artista, o pensador) e os outros por imposição: a cidade, a multinacional, a moda, o fitness, a hiperinformarão, a tecnologia, etc. Estamos todos presos na malha, sem nos conseguirmos libertar! Moscas presas numa grande rede. E quando achamos que estamos livres, aí estamos, ainda, mais presos, presos a nós mesmos. O poeta e o artista estão duplamente presos, presos pelo exterior e pela força interior. O poeta e/ou artista é o Zombie mais putrefacto, aquele que não conhece salvação. Não passam de pontos negros sobre a superfície plana da terra, porros de explosão de matéria negra, forças de passagem de fluxos, “não-lugares” de carne. Trazem a luz à terra e expulsam, pelas suas entranhas, toda a negrura da terra. São meros e impotentes veículos de transformação, transformavam a negra força em luz. Coadores de esperança! E isso é ser Imenso! Pontos de contração negra e explosão de luz, pontos intermitentes, pontos tão incandescentes que cegam. Quanto maior a luz, maior a cegueira!

      E todos querem conhecer o Monstro, e todos querem conhecer a fera, e todos querem conhecer a “ave rara”, aquela que só pede para estar sozinha. Sozinho como Michael K na montanha, o mais lúcido de todos, esse Atlas que suporta o vazio mais profundo, o que se mutila em nome das vozes que percorrem a cidade. E ele corre, percorre e discorre rumo à montanha para nela estender o seu corpo aos bichos da terra alta, é ele que os salva, o que alimenta esses seres da montanha. Sem ele, a montanha cairia sobre as vozes da cidade, sem ele, a montanha aniquilaria toda a vida, toda a forma de esperança; e tudo seria escuridão! E o poeta nega, nega a Escuridão Absoluta; e nega toda a Luz Absoluta! Só nele o equilíbrio existe, o equilíbrio que o constrói e, por vezes, o destrói! Um ponto centrífugo de queda permanente sobre o chão mais duro (Luiza Neto Jorge); chão duro e não pelos coxins de cetim que andam por aí.

    E é por isso que a Barbara Stronger (1983-2019) merece, da minha parte, alguma consideração. Ela puxou-me violentamente para fora e, ainda hoje, trago esfoliações nos joelhos e nas pernas. Puxou-me e rasgou-me o pulso direito, o vermelho; e rasgou-me o pulso esquerdo, o azul. E, hoje, de pulsos rasgados, esvaio-me em sangue e não há quem o pare, não há quem estanque essa fonte que se abriu descontrolada, inundando, contaminando, misturando tudo para aflição dos puristas. Essa fonte espalhando vida e cor a quem já não sabe dormir, rir ou sequer parar.  Deixo-lhe, em sua memória, o seguinte bilhete de amizade, um que seguirá amanhã diretamente para o inferno:                                                                                                                      

                                                     Mad Rush. Porto 10.07.2020

Querida Barbara Stronger,

és aquela em quem sempre quiseram colocar acento! Julgo que é por sofrerem a mania de enfiar carapuças em tudo e em todos. Querem todos viver dentro do texto, o que deve ser muito aborrecido, sobretudo quando não há luz. Mas a culpa sempre foi tua, devias ter beijado a mão do Padre, aquele que depois da missa vai rezar na barquilha do sacristão; devias ter cumprimentado, na hora certa, o Presidente da Câmara; ido na procissão do Senhor; e claro, devias ter lido Horas Fúnebres de Mestre Feliciano e não o Satyricon de Petrónio. E, claro, tudo acabou mal. Mas, como dirás desse lado: Tudo sempre acaba Mal! Esta é a grande e única verdade. Não te roubo mais tempo! Espero que estejas bem aí no inferno! Se precisares de algum livro manda-me um telegrama como os de Lisboa. Tens aí o Quarteto? Ou esse ainda continua requisitado pela Madre Beata do andar de cima?

                                                                                                                  

                               Porta-te mal. Deste que (não) sente a tua falta:   

                                                                                                                   Vítor Teves

Ps- Kafka, o daqui, sente falta da tua cabeleira e unhas de gel sobre o dorso.   

III  

ODE A ALGUNS EDITORES DE POESIA

Lírio Lírio Lírio Lírio Lírio

Lírio Lírio Lírio Lírio Lírio

Lírio Lírio  Foda-se!  Lírio  

Lírio Lírio Lírio Lírio Lírio

Lírio Lírio Lírio Lírio Lírio

IV

EPÍLOGO

SACO DE BOXE

O novo saco de boxe apareceu

pendurado da noite para o dia

no átrio principal do velho edifício.

Toda a criatura de nome passou a

ter por objetivo passatempo irritação

bater no novo saco de boxe.

Havia que deixar a marca no saco

que iria dar alguma existência aos

esquecidos nomes da velha cidade.

Assim em fila todos iam batendo

no novo saco e o saco remexia-se.

Por vezes balançava e no balanço

metia-os a todos no chão com

enorme e barulhento estrondo.

Mas continuavam havia que deixar

a marca de que estavam vivos

a marca da sua pequena existência

sobre a pele negra e brilhante do

novo saco de boxe da cidade.

Bateram tanto que o desprezado

saco tornou-se com o tempo relíquia

e a marca irredutível do seu tempo.

Das mãos que outrora batiam das

leves moças nada ficou registado

no resistente novo saco de boxe.

Nem uma unhada nem a mais intensa

irritação ao novo saco de boxe.

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Dois poemas de Dirceu Villa

sr. barbáro

um poema fere o sr. barbáro na primavera,
no inverno, em qualquer estação; debaixo do
braço, na virilha, na garganta, todos fatais ao
mais rude bufão; que sabe ler, e não sabe ler.

o sr. barbáro pede ajuda de deus quando quer
matar, quando põe pedras na boca para falar,
quando cospe atacando cores e abre um ânus
dentro do crânio; o sr. barbáro caga na bolsa.

soldado, sonha-se o sr. barbáro, e bate muita
continência [o incontinente]; o sr. barbáro é são,
mas é demente. o sr. barbáro tem um esgoto sob
a língua, olhos de estuprador e impotente. não

separa ódio de comoção, ou virtude de covardia:
o sr. barbáro gritava à tv numa poltrona até o dia
em que lhe deram poder. o sr. barbáro parece ter
ratos no rosto. haver vida o fere, é um desgosto.

gentileschi

schloss weißenstein, suzana tem nojo e dor nos olhos, sua
nudez sentada se contorce diante de dois velhos cobiçosos
a despeito do nojo e da dor [ou por causa do nojo e da dor].
artemisia amarrota-lhe os olhos diante do esgar rosnado de

quem segreda o assalto de seu sexo; em quatro anos, suzana
se torna judite, ganha a ajuda de uma amiga, e os dois velhos
se fundem no grande holofernes: as mãos das mulheres forçam
o corpo contorcido do general, a espada trincha pele, músculos

nervos, ossos. a determinação nos olhos de judite e de sua ajuda
só se equipara ao desespero nos olhos da cabeça quase solta
do corpo que fora dois e jaz agora um: as mulheres se afastam
do combate [técnicas da vingança exata] no museo nazionale. 

Susana e os anciãos, Artemisia Gentileschi (detalhe)

Susana e os anciãos, Artemisia Gentileschi (detalhe)

Cosmopolitismo

Ángeles Santos, Um mundo, 1929

Ángeles Santos, Um mundo, 1929

Não se pensa espontaneamente, é-se obrigado a pensar (Gilles Deleuze). A velha definição do humano como ser racional, uma essência que não poderia ser intermitente (é essa a condição das essências), há muito que serve apenas o hábito e o mito (apelando à autoridade, convoque-se, tendo ou não em conta as linhas de desenvolvimento, Darwin, Freud e Nietzsche).

Neste caso, o que me obrigou a pensar foi um artigo de Juan Arnau Navarro para o El País, “Cosmopolitas sin salir de casa”, 11 de julho de 2020, e a visão do Largo da Graça, Lisboa, sem turistas (sobretudo porque redobrou o meu interesse no artigo). O primeiro abanão foi mais conceptual, o segundo mais emocional (mistura necessária ao pensar, segundo António Damásio). A ideia-problema central é a de saber se ainda podemos ser cosmopolitas? Com os aeroportos a meio gás, a imposição de quarentenas, os medos individual e coletivo, parece que teremos de nos enrolar num sedentarismo arcaico, petrificando lenta mas seguramente dentro dos costumes mais conservadores.

Juan Navarro, um viajante aventureiro, escreve que um cosmopolita insiste em contradizer a sua identidade nacional. Este comportamento remonta aos cínicos gregos, Diógenes dizia ser “cidadão do cosmos”, totalidade complexa e diversa. Os cínicos, e também os estoicos, tinham uma vocação errante, “a pátria nas sandálias”. Muito depois, os iluministas, sobretudo Kant, retomaram a ideia de um pós-nacionalismo. Contudo, em vez de um cosmos propuseram um universo, com as suas verdades metaculturais (ou metafísicas). O universalismo é menos cosmopolitismo e mais globalização. Kant, que quase não viajou, procurou encontrar aquilo que era comum a todos os seres racionais, comprimir a diversidade em fórmulas imutáveis. Fê-lo, claro, a partir da sua visão do mundo, da sua cultura pietista e conceptual, da sua crença na infalibilidade das matemáticas e da lógica, na forma como imaginou a arquitetura do entendimento. Se isto continha modelos de colonização cultural? É bem provável, e mesmo que não fizesse parte da sua intenção, acabou por autorizar muitas ações de dominação e uma tendência eurocêntrica.

O verdadeiro cosmopolita não pode escandalizar-se, Diógenes era a personificação do escândalo, e por isso jamais se poderia escandalizar. Há que desabituar-se de si, pôr-se no lugar do outro, rir-se de si, e dos outros. Viver na permanente vertigem do diverso, perspectivar (presente e passado), relativizar o que se julga certo e seguro. Sem se escandalizar, mas espantando-se, disponível para atender às extravagâncias do ser humano.

Portanto, não basta ser anti-kantiano (a maioria das vezes por desconhecimento) para ser cosmopolita. O turista de cartão postal, que escolhe aterrar, cansado, num resort com “tudo incluído” vai à procura do que já conhece. Como refere Juan Navarro, pode-se ser cosmopolita sem sair da biblioteca (Borges) e provinciano viajando permanentemente. Para este autor, o “espírito do cosmopolita encontra-se regido pela hospitalidade e o risco, aceita a vertigem antropológica”. O cosmopolita recria-se pela diversidade. É por isso que “apesar do profuso tráfego aéreo e de transmissão de dados de hoje, a Antiguidade foi uma época mais cosmopolita do que a nossa.” Apesar da nossa hipermobilidade, os Antigos intuíram melhor a natureza errante da condição humana. Sabiam que éramos múltiplos e precários, e nem os deuses fabricavam a verdade.

O ABRAÇO DO PRIOLO

No primeiro dia, meti-me em frente à casa deles. Um telhado igual a barro verdoengo e bastante inclinado, com duas chaminés, janelas altas e madeiradas, tábuas brancas ao comprido e a porta azulada com o batente em ouro velho. Havia um alpendre à americana com cadeira de baloiço, um cepo a servir de mesa, vasos semeados de brincos-de-princesa e marias-sem-vergonha, quatro degraus e a relva. Verdecia em toda a volta.

Tive tempo de apreciar o grulhar do frondoso plátano, a maior ramagem que alguma vez permeei. O bafejo morno descia o tronco velho, ramificava-se e espraiava-se pelo tapete fino, fazendo-o dançar em tufos. Só soube que tinha esperado em demasia quando uma nuvem revelou o azul e o caracol terminou a volta por cima da vedação.

Com mais estilo do que Fred Allen, ele andava de bicicleta, contrariando todos os hábitos das proximidades — nunca vi outros estradistas por ali. Antes de guinar, fez a campainha chilrear tal qual um melro-d’água a cortejar num dia nublado. Depois, subiu a rampa e desmontou em movimento, com uma classe igual à dos filmes. Trajava um fato brunido à ministro e parecia perfumado com ambição, mais do que água no bico.

A cortina da janela mais rés agitou-se, segundos antes de se abrir a porta. Saiu uma criança da metade do tamanho dele, dentro de um vestido ebúrneo, de alças leves e saia boleada. Trazia cabelos doirados e os pés desnudos. Ela correu-lhe para os braços, e enlaçaram-se de afetuosidade.

Gostava eu de saber o que é um abraço, mas as asas não se abraçam, e como não dou importância ao que não sei, não liguei. Mas havia qualquer coisa na beleza do momento, reconheci-o nas minhas penas. Palra-se que só os humanos sabem que morrerão, mas os pássaros também sentem medo.

O homem e a menina entraram, fecharam a porta, e a bicicleta ficou cá fora, na humidade — tal como eu vivo e durmo. Não vi o que sucedia lá dentro, se os abraços continuavam ou se tudo mudava.

À noitinha, eu costumava regressar, só para ver a janela de cima apagar-se. Deslembro-me de experimentar comoção, até porque as primeiras semanas não me combaliram muito. Todas as manhãs, vigiava-o a sair de bicicleta, pelo menos quando não chovia ou ameaçava um outono invernado, pois quando o céu chorava, ele ia de carocha. Todas as tardes, assistia ao seu retorno, aos abraços e às risadas. Quando a lua ficou cheia, descobri quem ali vivia: ele, a tal criança e uma mulher, porventura doméstica domesticada, mas bonita e arranjada.

Chegara o dia de conferir se a decência era mesmo real ou quimérica. Amanheci empolgado com o método que eu próprio forjara, de um cérebro mais ágil do que nalguns sapientes. Tinha chovido toda a noite, eu vivera-o — e era óbvio, pelo regador de latão atestado, aonde fui chuchurrear. Como habitualmente, àquela hora, a janela da cozinha estava entreaberta. Asilei-me no lado de fora, benzi-me em nome de Hórus, de Penates e da Pomba Branca, e pus-me a escutar.

— Pai — garganteou a miúda. — À noitinha lês-me o livro que a mãe trouxe?

— Não sei. Tenho um discurso para escrever. Não tens trabalhos de casa?

Os talheres tilintaram, um prato descaiu na pia e a torneira abriu-se. Depois de a água encher um tacho, a mãe sussurrou:

— Não achas que devias passar mais tempo com a tua filha? Sempre ansiosa que chegues, a contar as horas... Dar-lhe beijos quando ela dorme não a faz sentir-se amada.

— Não me dês lições — corvejou ele. — Sou o sustento da casa. Sabes muito bem que a minha profissão é exigente. Se eu não me dedicar, o dia de gozarmos a felicidade nunca vai chegar.

A palha d’aço coçou-se no vidro.

— Mãe, não quero mais...

— Pronto, filha — serenou a mulher. — Vai lavar os dentes. Daqui a pouco vamos para a escola.

Ouvi mais loiça a retinir e a torneira a cessar funções. Depois da quietude, a janela fechou-se num estrondo que me fez esvoaçar de susto! Privado das vozes deles, subi para camadas mais arejadas. Afinal, os abraços nem sempre são de amor e o amor nem sempre é de abraços. Um abraço pode ser solitário.

Noutro dia qualquer, o portão da garagem abriu-se, chiando e tremelicando como se avisasse que estava a morrer. O homem brotou, bem-posto e de gravata, em cima da bicicleta. Resolvi persegui-lo até onde fosse. Sobrevoei copas verde-lima, plátanos e criptomérias, cedros e araucárias de outros matizes, com a brisa a despentear-me as asas. Ele, diminuído, lá em baixo, equilibrando-se nas vielas e passeios, por entre carros e transeuntes. Após o aglomerado de vivendas, vieram manchas de telhados nervurados, aqui e acolá, na cor laranja do desgaste, edifícios esbranquiçados com pinceladas de basalto, ruas delgadas de paralelepípedos enviesados.

Sobre a esquina do oleiro que vendia bananas, atravessou-se-me um pombo em voo desafável, de mau agouro, como se lhe pertencesse aquele pedaço de céu. Ofereci-lhe um olhar desafiante, convencido de que seria capaz de bicar-lhe a arrogância, mas esbanjaria demasiado sopro.

Enquanto afastava a ideia, surgiu um edifício imponente, cheio de pilares gordos e brancos. No estacionamento, o ciclista agrilhoou o transporte de duas rodas, ajeitou o casaco e subiu a escadaria, rumo à entrada.

Baixei a altitude e fui atrás, pela porta alta, apesar de um homem vestido de negro, boné e bastão olhar-me de viés. Esquivei-me, conquistei o paço interior e vi um corredor amplo, com paredes claras e solo de madeira cheirosa. Mantive-me perto da abóbada, nas alturas, que é onde pertenço. Ele entrou para uma sala central do edifício, uma divisão imensa, em formato de quarto minguante, com desenhos no chão e lugares virados para um estrado central. Havia muita luz e espaço para esvoaçar, mas senti um peso nas gavinhas; pousei num canto com boa vista. Chegava gente em rebanhos, ocupando os assentos no semicírculo.

Ele alisou o colarinho e destacou-se no palanque, antes de testar o som e clarear a garganta. Começou por cumprimentar os presentes, introduziu um tema geral e foi aguçando a voz, afunilando os argumentos. Parecia uma questão séria, de vitória eminente, de levar a sociedade a percorrer novos caminhos, elevar-se a um novo patamar. Sob aquele teto de vidro, naquela acústica maviosa, tudo o que ele proferia atrás do microfone era ampliado: as verdades e as mentiras.

— Quando a terra treme, estamos juntos; quando o mar se agita, estamos juntos; e quando se faz silêncio… — o recinto inundou-se de compromisso, numa vaga apoteótica apenas permitida aos grandes oradores. — Muito obrigado! — completou, sabendo que tinha a plateia na mão.

O rebanho levantou-se e aplaudiu, uns de pé, outros em bicos, como pardais a cobiçar o milho. Era uma orquestra de estalos em cadências que, por vezes, se emparelhavam, por outras, se misturavam.

O pregador agradeceu com adeuses, esperou por uma oportunidade e abandonou o ambão, permeando os apoiantes em sorrisos. Saiu da sala, entre acenos e palmadas nas costas. Seguiu pelo corredor até ao átrio e cumprimentou uma mulher. Pareciam conhecer-se de outras andanças, porque deram um abraço com os olhos. Começo a perceber estes mamíferos que não se julgam animais: vivem de abraços, quer sonhados quer materializados.

Ele saiu pela porta grande, desceu a escadaria e encavalitou-se na bicicleta. Parou após duas dúzias de pedaladas, comprou jornais num quiosque e seguiu viagem, sem nunca reparar no pássaro sobrevoante. Era eu, sempre naquele rasto, por ruas e ruelas, até ao bairro da sua casa, ao jardim e ao descavalgar. Atenuei o voo e desci, para pousar na cerca do jardim. Penteei as asas e assisti à porta a abrir-se, mas não brotou nenhuma menina em busca de abraços.

Desengravatando-se, ele entrou em casa, com os jornais na axila, e eu aproveitei a janela aberta da cozinha para ocupar-lhe o parapeito. Vi-o pendurar o casaco e passar pela mulher com um esgar. Sentou-se e começou a ler as notícias. A filha apareceu e cumprimentou-o com um beijo na face.

Não percebo estes humanos. Num dia, abraçam-se e beijam-se; no outro, ignoram-se. Os pássaros simplesmente vivem.

Enquanto o pai lia o jornal, a filha trocou olhares entristecidos com a mãe, baixou a cabeça e retirou-se. A senhora enfrentou o lava-loiças e respirou fundo:

— Correu bem?

— Sim. Está no papo.

Foi quando a mulher reparou em mim. Um priolo especado no parapeito da janela? Algo raro e poético. Inclinou a cabeça, fez um demorado sorriso de anjo e aproximou-se, o que me deixou desconfortável.

— Um pássaro. Já viste?

O marido produziu um grasnido impercetível, fechou um jornal e abriu o outro, descruzou uma perna e cruzou a outra. Depois, fungou e casquinou em desprezo por um artigo qualquer. Aprendi que nem tudo o que reluz seduz.

Aquela indiferença fez-me palpitar o sangue pelo peito. Num salto, flutuei, e uma força poderosa concentrou-se-me no bico. Dali à ebulição foi um rufo. Passei diante da mãe, que se desviou, assustada com o vento do meu adejar frenético, e atravessei o jornal com afinco. Rasguei-o, uma e outras vezes, puxando e espalhando pedaços de papel pela cozinha. Transformei a pasmaceira num cafarnaum!

O casal protegia-se como podia, as mãos a tapar a cara, a mulher de cotovelos erguidos, o marido salivando e tentando cortar-me as asas. Mas a surpresa assaltou-me, ao sentir aquelas mãos no meu corpo frágil.

Ele agarrou-me em pleno voo.

O nariz dele diante do meu bico, os olhos enraivecidos a embeber-me de ira, a mulher com as mãos sobre a face, a filha com os lábios a tremer. Senti o peito confortado, as penas aconchegadas, o amor a sufocar-me, a falta de ar. Não conseguia respirar. Piei uma vez, e a criança verteu uma lágrima; pipilei outro queixume, e a mãe soluçou; ao meu terceiro guincho, ele baixou o olhar para a filha, como se procurasse absolvição. Depois, regressou a mim e hesitou.

Os homens sonham voar. O que eu anseio é entendê-los. Continuo sem perceber-lhes as intenções, mas agora sei o que é um abraço.

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A DESCER TODOS OS SANTOS AJUDAM - Colagens de Alexandre Sousa

  As colagens homoeróticas de Alexandre Sousa (1996 - ) trazem, em si, um rico ensinamento da matéria e da tessitura das imagens. Recorrendo a diferentes papéis, retirados dos mais variados sítios, nomeadamente das revistas de moda, Alexandre cria um universo narrativo (ou não) de imagens subliminares, um jogo de revelação e ocultação. Interessa-lhe esse ponto de tensão entre o visível e o invisível. A par de diferentes recortes e papéis coloridos, o uso de fita cola, ou de diferentes fibras, acompanham o seu trabalho. O resultado é um encantador emaranhado de imagem e texto.

Sobre o texto, Alexandre opta muitas vezes por simples palavras – “In”, “This”, “For” ou pela apropriação de excertos de música popular (incluindo o pimba) ou até o fado. Exemplos: “Não és homem p`ra mim, se não ouves os meus ais e só a ti tens amor” (Rute Marlene), “Eu tenho dois amores” (Marco Paulo) e “No mercado da ribeira há um romance de amor” (Amália Rodrigues) frases que podemos encontrar em algumas das suas colagens no seu Instagram. Outras vezes opta por títulos de filmes conhecidos: “O bom, o mau e o vilão” numa construção à volta de uma ménage à trois masculina; ou, ainda, por frases e expressões populares, como é a colagem que aqui apresentamos : “A descer todos os santos ajudam”.

O trabalho de Alexandre Sousa não só é uma mistura de diferentes materiais, formas, cores, linhas, texturas, como também é uma mistura de apropriações de universos distintos: moda, pornografia, cultura musical, provérbios e outras expressões. O seu trabalho é um exemplo da revitalização da Colagem no início deste século e, ao mesmo tempo, um exemplo desinibido da exploração do corpo masculino e do universo homossexual, num claro rompimento contra o preconceito associado aos dois universos. A arte ao serviço da inclusão da diferença.

Vítor Teves

26.06.2020

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Alexandre Sousa (1996 - ) - é formado em Artes Plásticas- Multimédia pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Apresenta o seu trabalho como uma procura constante em criar novas narrativas usando a colagem. A representação do corpo masculino é uma forte premissa do seu trabalho. Esta que consequentemente alia-se a outros elementos subjacentes à colagem como texto e texturas.

O seu trabalho pode ser visualizado no seu Instagram: @AlexandreSousa

Se quiser adquirir alguma das suas colagens, pode fazê-lo através do contacto de e-mail:

alexandresousacollage@gmail.com