'Aniversário' de Clara João Silva e José Pedro Moreira

Aniversário
de Clara João Silva
a partir de um poema de José Pedro Moreira
Enfermaria 6
2020

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Clara João Silva nasceu em Braga, em fevereiro de 1999.

Estudou Design Gráfico no Instituto Politécnico do Cávado e do Ave, e lá percebeu a sua paixão por ilustração.

Nos seus tempos livres gosta de ler, ver documentários de true crime e fazer festas à sua gata.

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José Pedro Moreira nasceu em Lisboa, 1983. Vive em Oxford.

Publicou traduções do Agamémnon de Ésquilo (Artefacto Edições, 2012), de Catulo (juntamente com André Simões, Livros Cotovia, 2012), dos Hinos Homéricos (com Tatiana Faia e Miguel Monteiro, Imprensa da Universidade de Lisboa, 2019). Livros de poesia: Gatos no Quintal (Enfermaria 6, 2018), Porque canta um pequeno coração (Não edições, 2019).

REMIX: A CULPA É DE PETRÓNIO!

“Tudo o que expurga a sua parte maldita

assina a sua própria sentença de morte.”

- Baudrillard

I

DELÍRIO BÁQUICO

Quiseram todos os senhores que eu me

aprontasse de luvas brancas e de olhos

cristalinos avistasse o puro e pleno dia.

Quiseram todas as senhoras que me

vestisse de branco e dissesse de manhã

à noite palavras de amor e púrpuras

flores cantasse por entre o jardim.

Pediram-me toda a eloquência pureza

amor suave e brancos jasmins de ternura.

Pediram-me tanta suavidade e claridade

que só em amargura soube trazer-lhes o

contraste. Sem que soubessem dei-lhes

a força negativa para se equilibrarem

na doçura e dela fazerem o seu traste.

II

Um Ano sem Barbara Stronger (1983-2019)

    Isto são notas sobre a subtileZa (aqui deixei S/Z, de Roland Barthes, de fora) pelo menos, procuram sê-lo. Depois de derramar tanto sangue, um massacre, quem diria? Ninguém é só uma coisa, somos uma mistura de mil coisas, mil observações opostas; um lado masculino, um lado feminino, ou talvez, mil lados masculinos, mil lados femininos. Um espelho infinito, multiplicando-se. Complexidade, nunca simplicidade. Foi Pessoa, esse grande oxímoro, que disse que tudo é paradoxo, e ele tem imensa razão. Alguns têm essa consciência e praticam-na, outros procuram manter a fachada de que são altos edifícios, blocos rígidos de virilidade e masculinidade oca.

      Vem isso a prepósito de Barba Stronger (1983-2019) que morreu, faz hoje, um ano. Foi com ela, essa grande Mulher, que aprendi algo muito importante: É preciso transformarmo-nos no Monstro para podermos matar o Monstro! Teógnis, há 2 500 anos, terá dito algo parecido, é preciso estar entre os Monstros para descobrirmos a nossa própria Resistência. Com ela aprendi a viver mais, a rir mais, sobretudo de mim. Agora que faz um ano que se suicidou, é preciso lembrá-la, e em agradecimento, contar aquilo que ela me trouxe. Foi tão pouco, e tanto ao mesmo tempo, que não sei por onde começar: trouxe-me Cysneiros, trouxe-me Brueghel, trouxe-me Ana Karerina, trouxe-me o riso, trouxe-me toda a revolta, trouxe-me ao sangue, trouxe-me à vida. Sim, à vida!

      Aqui na moderna e grande cidade, somos todos Zombies, mas a verdade é que os artistas e os poetas sempre foram, de alguma forma, Zombies – seres meio vivos, mortos no seu canto com a luz da lamparina acesa sobre um livro. (Ver: o pensador de Rembrandt). Sozinhos, sempre sozinhos! E “fomos” isso tudo, e “Somos” isso tudo, pois não há criação sem o corte com a vida externa. “(…) a escrita exige solidões e desertos” – Sophia.

      Hoje somos todos Zombies: uns por natureza (o poeta, o artista, o pensador) e os outros por imposição: a cidade, a multinacional, a moda, o fitness, a hiperinformarão, a tecnologia, etc. Estamos todos presos na malha, sem nos conseguirmos libertar! Moscas presas numa grande rede. E quando achamos que estamos livres, aí estamos, ainda, mais presos, presos a nós mesmos. O poeta e o artista estão duplamente presos, presos pelo exterior e pela força interior. O poeta e/ou artista é o Zombie mais putrefacto, aquele que não conhece salvação. Não passam de pontos negros sobre a superfície plana da terra, porros de explosão de matéria negra, forças de passagem de fluxos, “não-lugares” de carne. Trazem a luz à terra e expulsam, pelas suas entranhas, toda a negrura da terra. São meros e impotentes veículos de transformação, transformavam a negra força em luz. Coadores de esperança! E isso é ser Imenso! Pontos de contração negra e explosão de luz, pontos intermitentes, pontos tão incandescentes que cegam. Quanto maior a luz, maior a cegueira!

      E todos querem conhecer o Monstro, e todos querem conhecer a fera, e todos querem conhecer a “ave rara”, aquela que só pede para estar sozinha. Sozinho como Michael K na montanha, o mais lúcido de todos, esse Atlas que suporta o vazio mais profundo, o que se mutila em nome das vozes que percorrem a cidade. E ele corre, percorre e discorre rumo à montanha para nela estender o seu corpo aos bichos da terra alta, é ele que os salva, o que alimenta esses seres da montanha. Sem ele, a montanha cairia sobre as vozes da cidade, sem ele, a montanha aniquilaria toda a vida, toda a forma de esperança; e tudo seria escuridão! E o poeta nega, nega a Escuridão Absoluta; e nega toda a Luz Absoluta! Só nele o equilíbrio existe, o equilíbrio que o constrói e, por vezes, o destrói! Um ponto centrífugo de queda permanente sobre o chão mais duro (Luiza Neto Jorge); chão duro e não pelos coxins de cetim que andam por aí.

    E é por isso que a Barbara Stronger (1983-2019) merece, da minha parte, alguma consideração. Ela puxou-me violentamente para fora e, ainda hoje, trago esfoliações nos joelhos e nas pernas. Puxou-me e rasgou-me o pulso direito, o vermelho; e rasgou-me o pulso esquerdo, o azul. E, hoje, de pulsos rasgados, esvaio-me em sangue e não há quem o pare, não há quem estanque essa fonte que se abriu descontrolada, inundando, contaminando, misturando tudo para aflição dos puristas. Essa fonte espalhando vida e cor a quem já não sabe dormir, rir ou sequer parar.  Deixo-lhe, em sua memória, o seguinte bilhete de amizade, um que seguirá amanhã diretamente para o inferno:                                                                                                                      

                                                     Mad Rush. Porto 10.07.2020

Querida Barbara Stronger,

és aquela em quem sempre quiseram colocar acento! Julgo que é por sofrerem a mania de enfiar carapuças em tudo e em todos. Querem todos viver dentro do texto, o que deve ser muito aborrecido, sobretudo quando não há luz. Mas a culpa sempre foi tua, devias ter beijado a mão do Padre, aquele que depois da missa vai rezar na barquilha do sacristão; devias ter cumprimentado, na hora certa, o Presidente da Câmara; ido na procissão do Senhor; e claro, devias ter lido Horas Fúnebres de Mestre Feliciano e não o Satyricon de Petrónio. E, claro, tudo acabou mal. Mas, como dirás desse lado: Tudo sempre acaba Mal! Esta é a grande e única verdade. Não te roubo mais tempo! Espero que estejas bem aí no inferno! Se precisares de algum livro manda-me um telegrama como os de Lisboa. Tens aí o Quarteto? Ou esse ainda continua requisitado pela Madre Beata do andar de cima?

                                                                                                                  

                               Porta-te mal. Deste que (não) sente a tua falta:   

                                                                                                                   Vítor Teves

Ps- Kafka, o daqui, sente falta da tua cabeleira e unhas de gel sobre o dorso.   

III  

ODE A ALGUNS EDITORES DE POESIA

Lírio Lírio Lírio Lírio Lírio

Lírio Lírio Lírio Lírio Lírio

Lírio Lírio  Foda-se!  Lírio  

Lírio Lírio Lírio Lírio Lírio

Lírio Lírio Lírio Lírio Lírio

IV

EPÍLOGO

SACO DE BOXE

O novo saco de boxe apareceu

pendurado da noite para o dia

no átrio principal do velho edifício.

Toda a criatura de nome passou a

ter por objetivo passatempo irritação

bater no novo saco de boxe.

Havia que deixar a marca no saco

que iria dar alguma existência aos

esquecidos nomes da velha cidade.

Assim em fila todos iam batendo

no novo saco e o saco remexia-se.

Por vezes balançava e no balanço

metia-os a todos no chão com

enorme e barulhento estrondo.

Mas continuavam havia que deixar

a marca de que estavam vivos

a marca da sua pequena existência

sobre a pele negra e brilhante do

novo saco de boxe da cidade.

Bateram tanto que o desprezado

saco tornou-se com o tempo relíquia

e a marca irredutível do seu tempo.

Das mãos que outrora batiam das

leves moças nada ficou registado

no resistente novo saco de boxe.

Nem uma unhada nem a mais intensa

irritação ao novo saco de boxe.

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Dois poemas de Dirceu Villa

sr. barbáro

um poema fere o sr. barbáro na primavera,
no inverno, em qualquer estação; debaixo do
braço, na virilha, na garganta, todos fatais ao
mais rude bufão; que sabe ler, e não sabe ler.

o sr. barbáro pede ajuda de deus quando quer
matar, quando põe pedras na boca para falar,
quando cospe atacando cores e abre um ânus
dentro do crânio; o sr. barbáro caga na bolsa.

soldado, sonha-se o sr. barbáro, e bate muita
continência [o incontinente]; o sr. barbáro é são,
mas é demente. o sr. barbáro tem um esgoto sob
a língua, olhos de estuprador e impotente. não

separa ódio de comoção, ou virtude de covardia:
o sr. barbáro gritava à tv numa poltrona até o dia
em que lhe deram poder. o sr. barbáro parece ter
ratos no rosto. haver vida o fere, é um desgosto.

gentileschi

schloss weißenstein, suzana tem nojo e dor nos olhos, sua
nudez sentada se contorce diante de dois velhos cobiçosos
a despeito do nojo e da dor [ou por causa do nojo e da dor].
artemisia amarrota-lhe os olhos diante do esgar rosnado de

quem segreda o assalto de seu sexo; em quatro anos, suzana
se torna judite, ganha a ajuda de uma amiga, e os dois velhos
se fundem no grande holofernes: as mãos das mulheres forçam
o corpo contorcido do general, a espada trincha pele, músculos

nervos, ossos. a determinação nos olhos de judite e de sua ajuda
só se equipara ao desespero nos olhos da cabeça quase solta
do corpo que fora dois e jaz agora um: as mulheres se afastam
do combate [técnicas da vingança exata] no museo nazionale. 

Susana e os anciãos, Artemisia Gentileschi (detalhe)

Susana e os anciãos, Artemisia Gentileschi (detalhe)

Cosmopolitismo

Ángeles Santos, Um mundo, 1929

Ángeles Santos, Um mundo, 1929

Não se pensa espontaneamente, é-se obrigado a pensar (Gilles Deleuze). A velha definição do humano como ser racional, uma essência que não poderia ser intermitente (é essa a condição das essências), há muito que serve apenas o hábito e o mito (apelando à autoridade, convoque-se, tendo ou não em conta as linhas de desenvolvimento, Darwin, Freud e Nietzsche).

Neste caso, o que me obrigou a pensar foi um artigo de Juan Arnau Navarro para o El País, “Cosmopolitas sin salir de casa”, 11 de julho de 2020, e a visão do Largo da Graça, Lisboa, sem turistas (sobretudo porque redobrou o meu interesse no artigo). O primeiro abanão foi mais conceptual, o segundo mais emocional (mistura necessária ao pensar, segundo António Damásio). A ideia-problema central é a de saber se ainda podemos ser cosmopolitas? Com os aeroportos a meio gás, a imposição de quarentenas, os medos individual e coletivo, parece que teremos de nos enrolar num sedentarismo arcaico, petrificando lenta mas seguramente dentro dos costumes mais conservadores.

Juan Navarro, um viajante aventureiro, escreve que um cosmopolita insiste em contradizer a sua identidade nacional. Este comportamento remonta aos cínicos gregos, Diógenes dizia ser “cidadão do cosmos”, totalidade complexa e diversa. Os cínicos, e também os estoicos, tinham uma vocação errante, “a pátria nas sandálias”. Muito depois, os iluministas, sobretudo Kant, retomaram a ideia de um pós-nacionalismo. Contudo, em vez de um cosmos propuseram um universo, com as suas verdades metaculturais (ou metafísicas). O universalismo é menos cosmopolitismo e mais globalização. Kant, que quase não viajou, procurou encontrar aquilo que era comum a todos os seres racionais, comprimir a diversidade em fórmulas imutáveis. Fê-lo, claro, a partir da sua visão do mundo, da sua cultura pietista e conceptual, da sua crença na infalibilidade das matemáticas e da lógica, na forma como imaginou a arquitetura do entendimento. Se isto continha modelos de colonização cultural? É bem provável, e mesmo que não fizesse parte da sua intenção, acabou por autorizar muitas ações de dominação e uma tendência eurocêntrica.

O verdadeiro cosmopolita não pode escandalizar-se, Diógenes era a personificação do escândalo, e por isso jamais se poderia escandalizar. Há que desabituar-se de si, pôr-se no lugar do outro, rir-se de si, e dos outros. Viver na permanente vertigem do diverso, perspectivar (presente e passado), relativizar o que se julga certo e seguro. Sem se escandalizar, mas espantando-se, disponível para atender às extravagâncias do ser humano.

Portanto, não basta ser anti-kantiano (a maioria das vezes por desconhecimento) para ser cosmopolita. O turista de cartão postal, que escolhe aterrar, cansado, num resort com “tudo incluído” vai à procura do que já conhece. Como refere Juan Navarro, pode-se ser cosmopolita sem sair da biblioteca (Borges) e provinciano viajando permanentemente. Para este autor, o “espírito do cosmopolita encontra-se regido pela hospitalidade e o risco, aceita a vertigem antropológica”. O cosmopolita recria-se pela diversidade. É por isso que “apesar do profuso tráfego aéreo e de transmissão de dados de hoje, a Antiguidade foi uma época mais cosmopolita do que a nossa.” Apesar da nossa hipermobilidade, os Antigos intuíram melhor a natureza errante da condição humana. Sabiam que éramos múltiplos e precários, e nem os deuses fabricavam a verdade.

O ABRAÇO DO PRIOLO

No primeiro dia, meti-me em frente à casa deles. Um telhado igual a barro verdoengo e bastante inclinado, com duas chaminés, janelas altas e madeiradas, tábuas brancas ao comprido e a porta azulada com o batente em ouro velho. Havia um alpendre à americana com cadeira de baloiço, um cepo a servir de mesa, vasos semeados de brincos-de-princesa e marias-sem-vergonha, quatro degraus e a relva. Verdecia em toda a volta.

Tive tempo de apreciar o grulhar do frondoso plátano, a maior ramagem que alguma vez permeei. O bafejo morno descia o tronco velho, ramificava-se e espraiava-se pelo tapete fino, fazendo-o dançar em tufos. Só soube que tinha esperado em demasia quando uma nuvem revelou o azul e o caracol terminou a volta por cima da vedação.

Com mais estilo do que Fred Allen, ele andava de bicicleta, contrariando todos os hábitos das proximidades — nunca vi outros estradistas por ali. Antes de guinar, fez a campainha chilrear tal qual um melro-d’água a cortejar num dia nublado. Depois, subiu a rampa e desmontou em movimento, com uma classe igual à dos filmes. Trajava um fato brunido à ministro e parecia perfumado com ambição, mais do que água no bico.

A cortina da janela mais rés agitou-se, segundos antes de se abrir a porta. Saiu uma criança da metade do tamanho dele, dentro de um vestido ebúrneo, de alças leves e saia boleada. Trazia cabelos doirados e os pés desnudos. Ela correu-lhe para os braços, e enlaçaram-se de afetuosidade.

Gostava eu de saber o que é um abraço, mas as asas não se abraçam, e como não dou importância ao que não sei, não liguei. Mas havia qualquer coisa na beleza do momento, reconheci-o nas minhas penas. Palra-se que só os humanos sabem que morrerão, mas os pássaros também sentem medo.

O homem e a menina entraram, fecharam a porta, e a bicicleta ficou cá fora, na humidade — tal como eu vivo e durmo. Não vi o que sucedia lá dentro, se os abraços continuavam ou se tudo mudava.

À noitinha, eu costumava regressar, só para ver a janela de cima apagar-se. Deslembro-me de experimentar comoção, até porque as primeiras semanas não me combaliram muito. Todas as manhãs, vigiava-o a sair de bicicleta, pelo menos quando não chovia ou ameaçava um outono invernado, pois quando o céu chorava, ele ia de carocha. Todas as tardes, assistia ao seu retorno, aos abraços e às risadas. Quando a lua ficou cheia, descobri quem ali vivia: ele, a tal criança e uma mulher, porventura doméstica domesticada, mas bonita e arranjada.

Chegara o dia de conferir se a decência era mesmo real ou quimérica. Amanheci empolgado com o método que eu próprio forjara, de um cérebro mais ágil do que nalguns sapientes. Tinha chovido toda a noite, eu vivera-o — e era óbvio, pelo regador de latão atestado, aonde fui chuchurrear. Como habitualmente, àquela hora, a janela da cozinha estava entreaberta. Asilei-me no lado de fora, benzi-me em nome de Hórus, de Penates e da Pomba Branca, e pus-me a escutar.

— Pai — garganteou a miúda. — À noitinha lês-me o livro que a mãe trouxe?

— Não sei. Tenho um discurso para escrever. Não tens trabalhos de casa?

Os talheres tilintaram, um prato descaiu na pia e a torneira abriu-se. Depois de a água encher um tacho, a mãe sussurrou:

— Não achas que devias passar mais tempo com a tua filha? Sempre ansiosa que chegues, a contar as horas... Dar-lhe beijos quando ela dorme não a faz sentir-se amada.

— Não me dês lições — corvejou ele. — Sou o sustento da casa. Sabes muito bem que a minha profissão é exigente. Se eu não me dedicar, o dia de gozarmos a felicidade nunca vai chegar.

A palha d’aço coçou-se no vidro.

— Mãe, não quero mais...

— Pronto, filha — serenou a mulher. — Vai lavar os dentes. Daqui a pouco vamos para a escola.

Ouvi mais loiça a retinir e a torneira a cessar funções. Depois da quietude, a janela fechou-se num estrondo que me fez esvoaçar de susto! Privado das vozes deles, subi para camadas mais arejadas. Afinal, os abraços nem sempre são de amor e o amor nem sempre é de abraços. Um abraço pode ser solitário.

Noutro dia qualquer, o portão da garagem abriu-se, chiando e tremelicando como se avisasse que estava a morrer. O homem brotou, bem-posto e de gravata, em cima da bicicleta. Resolvi persegui-lo até onde fosse. Sobrevoei copas verde-lima, plátanos e criptomérias, cedros e araucárias de outros matizes, com a brisa a despentear-me as asas. Ele, diminuído, lá em baixo, equilibrando-se nas vielas e passeios, por entre carros e transeuntes. Após o aglomerado de vivendas, vieram manchas de telhados nervurados, aqui e acolá, na cor laranja do desgaste, edifícios esbranquiçados com pinceladas de basalto, ruas delgadas de paralelepípedos enviesados.

Sobre a esquina do oleiro que vendia bananas, atravessou-se-me um pombo em voo desafável, de mau agouro, como se lhe pertencesse aquele pedaço de céu. Ofereci-lhe um olhar desafiante, convencido de que seria capaz de bicar-lhe a arrogância, mas esbanjaria demasiado sopro.

Enquanto afastava a ideia, surgiu um edifício imponente, cheio de pilares gordos e brancos. No estacionamento, o ciclista agrilhoou o transporte de duas rodas, ajeitou o casaco e subiu a escadaria, rumo à entrada.

Baixei a altitude e fui atrás, pela porta alta, apesar de um homem vestido de negro, boné e bastão olhar-me de viés. Esquivei-me, conquistei o paço interior e vi um corredor amplo, com paredes claras e solo de madeira cheirosa. Mantive-me perto da abóbada, nas alturas, que é onde pertenço. Ele entrou para uma sala central do edifício, uma divisão imensa, em formato de quarto minguante, com desenhos no chão e lugares virados para um estrado central. Havia muita luz e espaço para esvoaçar, mas senti um peso nas gavinhas; pousei num canto com boa vista. Chegava gente em rebanhos, ocupando os assentos no semicírculo.

Ele alisou o colarinho e destacou-se no palanque, antes de testar o som e clarear a garganta. Começou por cumprimentar os presentes, introduziu um tema geral e foi aguçando a voz, afunilando os argumentos. Parecia uma questão séria, de vitória eminente, de levar a sociedade a percorrer novos caminhos, elevar-se a um novo patamar. Sob aquele teto de vidro, naquela acústica maviosa, tudo o que ele proferia atrás do microfone era ampliado: as verdades e as mentiras.

— Quando a terra treme, estamos juntos; quando o mar se agita, estamos juntos; e quando se faz silêncio… — o recinto inundou-se de compromisso, numa vaga apoteótica apenas permitida aos grandes oradores. — Muito obrigado! — completou, sabendo que tinha a plateia na mão.

O rebanho levantou-se e aplaudiu, uns de pé, outros em bicos, como pardais a cobiçar o milho. Era uma orquestra de estalos em cadências que, por vezes, se emparelhavam, por outras, se misturavam.

O pregador agradeceu com adeuses, esperou por uma oportunidade e abandonou o ambão, permeando os apoiantes em sorrisos. Saiu da sala, entre acenos e palmadas nas costas. Seguiu pelo corredor até ao átrio e cumprimentou uma mulher. Pareciam conhecer-se de outras andanças, porque deram um abraço com os olhos. Começo a perceber estes mamíferos que não se julgam animais: vivem de abraços, quer sonhados quer materializados.

Ele saiu pela porta grande, desceu a escadaria e encavalitou-se na bicicleta. Parou após duas dúzias de pedaladas, comprou jornais num quiosque e seguiu viagem, sem nunca reparar no pássaro sobrevoante. Era eu, sempre naquele rasto, por ruas e ruelas, até ao bairro da sua casa, ao jardim e ao descavalgar. Atenuei o voo e desci, para pousar na cerca do jardim. Penteei as asas e assisti à porta a abrir-se, mas não brotou nenhuma menina em busca de abraços.

Desengravatando-se, ele entrou em casa, com os jornais na axila, e eu aproveitei a janela aberta da cozinha para ocupar-lhe o parapeito. Vi-o pendurar o casaco e passar pela mulher com um esgar. Sentou-se e começou a ler as notícias. A filha apareceu e cumprimentou-o com um beijo na face.

Não percebo estes humanos. Num dia, abraçam-se e beijam-se; no outro, ignoram-se. Os pássaros simplesmente vivem.

Enquanto o pai lia o jornal, a filha trocou olhares entristecidos com a mãe, baixou a cabeça e retirou-se. A senhora enfrentou o lava-loiças e respirou fundo:

— Correu bem?

— Sim. Está no papo.

Foi quando a mulher reparou em mim. Um priolo especado no parapeito da janela? Algo raro e poético. Inclinou a cabeça, fez um demorado sorriso de anjo e aproximou-se, o que me deixou desconfortável.

— Um pássaro. Já viste?

O marido produziu um grasnido impercetível, fechou um jornal e abriu o outro, descruzou uma perna e cruzou a outra. Depois, fungou e casquinou em desprezo por um artigo qualquer. Aprendi que nem tudo o que reluz seduz.

Aquela indiferença fez-me palpitar o sangue pelo peito. Num salto, flutuei, e uma força poderosa concentrou-se-me no bico. Dali à ebulição foi um rufo. Passei diante da mãe, que se desviou, assustada com o vento do meu adejar frenético, e atravessei o jornal com afinco. Rasguei-o, uma e outras vezes, puxando e espalhando pedaços de papel pela cozinha. Transformei a pasmaceira num cafarnaum!

O casal protegia-se como podia, as mãos a tapar a cara, a mulher de cotovelos erguidos, o marido salivando e tentando cortar-me as asas. Mas a surpresa assaltou-me, ao sentir aquelas mãos no meu corpo frágil.

Ele agarrou-me em pleno voo.

O nariz dele diante do meu bico, os olhos enraivecidos a embeber-me de ira, a mulher com as mãos sobre a face, a filha com os lábios a tremer. Senti o peito confortado, as penas aconchegadas, o amor a sufocar-me, a falta de ar. Não conseguia respirar. Piei uma vez, e a criança verteu uma lágrima; pipilei outro queixume, e a mãe soluçou; ao meu terceiro guincho, ele baixou o olhar para a filha, como se procurasse absolvição. Depois, regressou a mim e hesitou.

Os homens sonham voar. O que eu anseio é entendê-los. Continuo sem perceber-lhes as intenções, mas agora sei o que é um abraço.

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