Pietà Brava

Pietà, Michelangelo (ca.1498), Museus do Vaticano, Roma

Pietà, Michelangelo (ca.1498), Museus do Vaticano, Roma

Por vezes para chegar é preciso que seja longe.

 

 

Bravura a desse olhar parado,
o primeiro depois do último,
onde encontrei as melodias secretas
de forasteiro, como só forasteiro pode ser
o amor. Faz apetecer murmúrios à boca sem boca,
o tocador de salmos, a letra fria, milenar, entretendo o silêncio.
O sopro recolhe-se. A voz extingui-se, pois é o corpo que sempre prova
a bondade e a justiça. A pietà colhida da terra cultivada, ébria de fome,
de breu incauta,
Tão brava,  tão brava.

Aqueles domingos de inverno

 Robert Hayden
Tradução de Tatiana Faia

Aos domingos o meu pai também se levantava cedo
e vestia-se no frio azulnegro,
depois com mãos gretadas que doíam
do trabalho do tempo nos dias da semana fazia
fogos contidos chamejar. Nunca ninguém lhe agradecia. 

Acordava e ouvia o frio lascar-se, quebrar-se.
Quando os quartos aqueciam, ele chamava
e lentamente levantava-me e vestia-me,
temendo as iras crónicas daquela casa.

Falando-lhe indiferentemente a ele,
que expulsara o frio
e engraxara ainda os meus sapatos bons.
Que sabia eu, que sabia eu,
dos ofícios austeros e solitários do amor?

de Collected Poems of Robert Hayden, Liveright, 1985.

Madrugada  

Seis da manhã, não tarda, nascerá dourado o glorioso desespero azul,

Gelado como os sonhos lúcidos, não consigo lembrar-me do teu sorriso

Sem tristeza, que fiz eu dos teus olhos, da inocência que escolhi nunca ver,

Haverá pão fresco no ar dessa distância onde moras, perdoa-me

Todas as madrugadas e todos os cheiros intrusos que arrastava

Atrás do meu desejo por outras perdições, para a nossa cama quente do teu sono,

Dos amores sacrificados, nascem as manhãs de inverno,

Timidamente rasgando as trevas, sou todos os desencontros futuros.

 

11.02.2021

 

Turku

3 poemas de Leopoldo María Panero / Félix J. Caballero

*

A rena avança sobre a neve

E fala aos anjos da nossa vida

E na nossa alma resta apenas um pouco de neve

Lutando contra os anjos e o vento

E caminhando sobre o papel

Como sobre o trilho dos cisnes.

 

*

A cerveja é o símbolo obscuro da vida

Como os rios simbolizam a vida

E actua na minha memória meu nome repetido

Pelas inúteis páginas e pelo esquecimento.

 

*

Ah a rosa da despedida

O mundo inteiro para dizer adeus

O pranto dos lírios

E o peixe para pescar na sombra

Para uivar como o vento

Que é a única testemunha da minha morte

Ah a rima assonante

E o absurdo do sonho

Agonia do verso onde soletra a vida

Como se a agonia fosse um verso.

 

O que é isso de gritarmos em uníssono

O que é isso de gritarmos em uníssono
Pedro Braga Falcão

O que é isso de gritarmos em uníssono   será
dizer-te nos lábios   isto é   falar encostado
à tua boca    ou deixar que nos comovam
o que é isso   e  agora que baixaste os rios
quantos sulcos lavram a  nossa margem    e já viste
ontem ainda era de noite e falávamos
de outra coisa   o que é isso   não há voz que caia
quando nunca erigimos montes que se possam voar
será por isso que te enterras    que nos enterramos
mas por enquanto ainda nos seguramos   ainda
ainda nos segurámos numa vogal aberta
será por isso que por vezes dizemos a mesma
a mesma coisa   será por isso que gostamos
da uma mesma posição    do nosso lado da cama
o que é isso de nos amarmos durante a chuva
isto é    quando tudo está molhado    mesmo quando
não troveja um único céu     e ainda assim
procurando o meu desconforto   mesmo fingindo
que nunca dizemos a mesma coisa   ou seja
nunca ouvimos a música alto da mesma maneira
ou que nunca disseste     gosto que me doam os ouvidos
sabes    aquele pecado de rebentar as margens
enquanto as encurtamos nos teus lábios
o que é isso de gritarmos em uníssono
ou parados   que é o mesmo que dizer
que é isso de removermos as pedras     de encontrarmos
consolo em ver como fogem as formigas    lembras-te
como naquela garagem sem paredes    ou seria
um tecto sem paredes   lembras-te    quando as formigas
faziam um carreiro e nos deixavam tontos
ao menos aí estava sozinho como sempre estivemos
o que é isso de gritar enquanto se suspira
o que é isso de subir o elevador da Glória
à espera que perca a cor e não o tempo
deve ser porque me tomaste por tolo    não é
não é que esta não seja uma outra forma de estar parado
mesmo quando nos tomam por outra coisa    e não será por isso
que um círculo é uma espera em movimento
e gostei quando disseste esfera como se me amasses
ao ponto de me reconheceres nessa palavra.