“Um Comboio para a Lapónia”

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Como um amor antigo
o Sol toca
a barba gelada. 

Silenciosamente
parte o comboio
quase vazio. 

Quem pisará este chão
quando a neve
uma recordação? 

Que respostas procuro
na lareira
que crepita? 

Aproximo as meias de lã
à lareira estrangeira –
quando um abraço? 

Rodeado por silêncio
branco
a noite estende-se.

Enquanto as batatas
cozem
o peixe espera.  

Que palavras dançam
nas chamas
desta lareira? 

Dois livros
meia-dúzia de paus
e uma noite. 

Protegido por madeira
queimando madeira –
nem uma queixa. 

Uma chávena de café
uma lareira
e todas as distâncias. 

Sobre o mesmo galho
corvos e pombos
aproveitam o Sol. 

Na mão nua
derrete
um punhado de neve.

 

Nos olhos do peixe
uma vida inteira
que passa.

 

No fuso de gelo
o brilho inteiro
de uma estrela.

 

Arrefecem as brasas
nunca esquecerei
as chamas.

 

Iluminado pela lareira
brilha na tua pele
o meu esperma.

 

As crianças fazem
o boneco de neve
como se o Inverno interminável.

 

Neva sobre a pegada
brevemente
ninguém passou.

 

O bruxulear
das últimas chamas
numa noite gelada.

 

Não sabes quão longa
será a noite –
aproveita a última chama.

 

Nunca conseguirás
reacender o que ardeu
até às cinzas.

 

Subir a montanha branca
descer a montanha dourada –
anoitece.

 

Amanhece na montanha
encolhido chego-me
à lareira apagada.

 

Preparo-me para descer
a montanha –
começa a nevar.

 

Esta dor nas costelas
ao inspirar
porque estou vivo.

 

Morreu-me
um amigo –
é tudo.

 

Voltei a sonhar
com o meu amigo –
dia de sol.

 

Reflexo na janela
do comboio –
que fiz dos anos?

 

Pyhä, Fevereiro 2021


* Título pela Tatiana Faia

Pietà Brava

Pietà, Michelangelo (ca.1498), Museus do Vaticano, Roma

Pietà, Michelangelo (ca.1498), Museus do Vaticano, Roma

Por vezes para chegar é preciso que seja longe.

 

 

Bravura a desse olhar parado,
o primeiro depois do último,
onde encontrei as melodias secretas
de forasteiro, como só forasteiro pode ser
o amor. Faz apetecer murmúrios à boca sem boca,
o tocador de salmos, a letra fria, milenar, entretendo o silêncio.
O sopro recolhe-se. A voz extingui-se, pois é o corpo que sempre prova
a bondade e a justiça. A pietà colhida da terra cultivada, ébria de fome,
de breu incauta,
Tão brava,  tão brava.

Aqueles domingos de inverno

 Robert Hayden
Tradução de Tatiana Faia

Aos domingos o meu pai também se levantava cedo
e vestia-se no frio azulnegro,
depois com mãos gretadas que doíam
do trabalho do tempo nos dias da semana fazia
fogos contidos chamejar. Nunca ninguém lhe agradecia. 

Acordava e ouvia o frio lascar-se, quebrar-se.
Quando os quartos aqueciam, ele chamava
e lentamente levantava-me e vestia-me,
temendo as iras crónicas daquela casa.

Falando-lhe indiferentemente a ele,
que expulsara o frio
e engraxara ainda os meus sapatos bons.
Que sabia eu, que sabia eu,
dos ofícios austeros e solitários do amor?

de Collected Poems of Robert Hayden, Liveright, 1985.

Madrugada  

Seis da manhã, não tarda, nascerá dourado o glorioso desespero azul,

Gelado como os sonhos lúcidos, não consigo lembrar-me do teu sorriso

Sem tristeza, que fiz eu dos teus olhos, da inocência que escolhi nunca ver,

Haverá pão fresco no ar dessa distância onde moras, perdoa-me

Todas as madrugadas e todos os cheiros intrusos que arrastava

Atrás do meu desejo por outras perdições, para a nossa cama quente do teu sono,

Dos amores sacrificados, nascem as manhãs de inverno,

Timidamente rasgando as trevas, sou todos os desencontros futuros.

 

11.02.2021

 

Turku

3 poemas de Leopoldo María Panero / Félix J. Caballero

*

A rena avança sobre a neve

E fala aos anjos da nossa vida

E na nossa alma resta apenas um pouco de neve

Lutando contra os anjos e o vento

E caminhando sobre o papel

Como sobre o trilho dos cisnes.

 

*

A cerveja é o símbolo obscuro da vida

Como os rios simbolizam a vida

E actua na minha memória meu nome repetido

Pelas inúteis páginas e pelo esquecimento.

 

*

Ah a rosa da despedida

O mundo inteiro para dizer adeus

O pranto dos lírios

E o peixe para pescar na sombra

Para uivar como o vento

Que é a única testemunha da minha morte

Ah a rima assonante

E o absurdo do sonho

Agonia do verso onde soletra a vida

Como se a agonia fosse um verso.