O que é isso de gritarmos em uníssono

O que é isso de gritarmos em uníssono   será
dizer-te nos lábios   isto é   falar encostado
à tua boca    ou deixar que nos comovam
o que é isso   e  agora que baixaste os rios
quantos sulcos lavram a  nossa margem    e já viste
ontem ainda era de noite e falávamos
de outra coisa   o que é isso   não há voz que caia
quando nunca erigimos montes que se possam voar
será por isso que te enterras    que nos enterramos
mas por enquanto ainda nos seguramos   ainda
ainda nos segurámos numa vogal aberta
será por isso que por vezes dizemos a mesma
a mesma coisa   será por isso que gostamos
da uma mesma posição    do nosso lado da cama
o que é isso de nos amarmos durante a chuva
isto é    quando tudo está molhado    mesmo quando
não troveja um único céu     e ainda assim
procurando o meu desconforto   mesmo fingindo
que nunca dizemos a mesma coisa   ou seja
nunca ouvimos a música alto da mesma maneira
ou que nunca disseste     gosto que me doam os ouvidos
sabes    aquele pecado de rebentar as margens
enquanto as encurtamos nos teus lábios
o que é isso de gritarmos em uníssono
ou parados   que é o mesmo que dizer
que é isso de removermos as pedras     de encontrarmos
consolo em ver como fogem as formigas    lembras-te
como naquela garagem sem paredes    ou seria
um tecto sem paredes   lembras-te    quando as formigas
faziam um carreiro e nos deixavam tontos
ao menos aí estava sozinho como sempre estivemos
o que é isso de gritar enquanto se suspira
o que é isso de subir o elevador da Glória
à espera que perca a cor e não o tempo
deve ser porque me tomaste por tolo    não é
não é que esta não seja uma outra forma de estar parado
mesmo quando nos tomam por outra coisa    e não será por isso
que um círculo é uma espera em movimento
e gostei quando disseste esfera como se me amasses
ao ponto de me reconheceres nessa palavra.

"Ex-vida", de Pier Paolo Pasolini

Pasolini.jpg

Tradução: João Coles

No meio de um ténue fedor de matadouro
vejo a imagem do meu corpo:
seminu, ignorado, quase morto.
Assim me queria crucificado,
num clarão de delicado pavor,
quando era criança, já autómata do meu amor.
Mas por trás desta névoa de medula
(há quantos anos ou séculos aqui imóvel?)
ó Indivíduo, ó Sósia, descobres que és
feito de mim, do meu calor, e hostil
a uma morte anterior à minha.

Eu venho até ti depois de uma viagem inebriante.
Toquei, em dias de plena luz, as paredes
enegrecidas e a relva húmida de Casarsa.
Com um gesto negligente de guerreiro
ofereci o corpo nu ao tempo fresco
antiquíssimo, lânguido, de Meschio,
de Livenza, do Po... Brinquei na orla
de uma grande planície, nos seus prados
tórridos, sob céus intermináveis,
nas casas rejubiladas no seio de um leque
de mil cheiros afectuosos, subtis.

Entro no teu círculo, amargo, fresco
como minha mãe à tarde ao passar
o limiar da porta, emperlada de erva seca,
e trago comigo um vento de paisagens,
uma soberba leveza, uma cândida
coragem de forasteiro. E tu não exalas
senão silêncio. Ó desconhecido que foras tudo:
o rapaz perdido em casa,
o jovem burguês que acalentava
os falsos amores no seu amado coração,
agora és nada, O NADA, o puro erro.

E assim, ó esfomeado, ó desejo obscuro,
com um olhar de eras pré-humanas,
exprimes a tua vida de maníaco.
A tua mania é a vida do mundo.
De mim só pretendes que corresponda
ao teu louco esforço de te anulares,
ignoras todas as atracções do meu século,
todos os feriados, todas as paixões aprendidas
nos anos de uma vida abrasada de si mesma:
não te interessa saber que, no tempo, a eternidade
se oferece a festas quase eternas.

Ignoras também jogos ainda mais vitais:
confessar os desejos masculinos,
o amor pela minha mãe, que TU amaste,
a luz estagnada nas profundezas da noite
da infância...(Ó derradeiro candor
deste meu exibir! E tu ignora-lo.)
Amei somente quem tu odiavas.
Eternizei a minha sombra de jovem
para dela lamentar, ávido, os afectos
cheios de esperança, os ardores de lírio,
que inflamavam a minha carne de filho.

Por ti, num deserto de serenidade,
desonro o pobre segredo
do meu sexo, e, despreocupado, confesso-o.
Não sei por que milagre, sossegado
e enfim honesto, invoco das minhas neuroses
céus puros, lugares inodoros,
onde – como Matéria ou Morte – morres.
Sim, muitas vezes estás morto, e o rapaz
volta alegremente ao ventre, e o mitómano
à branda forma pleno de entusiasmo,
quando apenas a vida lhe resta.

Mas tu, nos confins do tempo, aqui me esperas,
dentro de mim, onde o ventre e os músculos
se contaminam de um fedor ameno de musgo
ou de excrementos; e enquanto uma escuridão nua
de vão de escada ou de bivaque
se adensa, vejo-te, múmia, autómato,
e vês-me a mim. Ó nostalgia mortal
para quem nunca te conheceu, e que ignorando,
ó puro Ser Vivo, as tuas angústias de orangotango,
perdia-se no próprio jucundo destino,
coração desconhecido num mundo desconhecido.

Terezín

Terezín,
onde um lugar vivo assombra as nossas mãos mortas

 

 

Em Terezín toda a merenda
sabe ao vazio que a memória vigia.
Avançamos sobre as salas e os corredores
frios, e dar a mão aos amigos cumpre a inutilidade
de enroscar as torneiras em fila
esperando água,
receber a imagem recuperada,
pela metade, dos homens que por ali resistiam. 

Imagino o que será
beber água nos campos de trabalho,
ou nos de concentração: a terminologia da violência soa mais-que-perversa,
cultiva-nos um pouco por todos os atentados. Urge-nos.
Como se houvesse distinção quando a sede já não é a forma elementar imperativa
da força humana.
Por baixo de um drama subjaz outra e outra amputação.
Um crente andrajoso, arrastando-se na mão de deus. 

A água embutida no sal conservava a garganta carcomida.
Baratas estariam de acordo: rápido, indolor,
mais do que a água
jorrante de mentira. 

Talvez aqueles homens que vergavam a cabeça para
que lhes pingassem na boca uns quantos pingos
escassos
de água
procurassem a morte pela fenda,
a vitamina fatal dos inocentes. 

A água mata em Terezín, a água mata quando não
mata a sede. 

Se não acreditam que mesmo os mais malévolos
eram, prisioneiros dos campos nazi, a mais pura das formas
minguando,
convido-vos a sair desta casa,
e a bater à porta de alguém para quem a água
ruma sempre a uma forma de vida. 

Em Terezín, fevereiro de 2016,
engasguei de não haver secura bastante para limpar
a história húmida calada dos tijolos bem alinhados,
serpente sem tempo, roendo-nos os pés acolchoados. 

Chegámos a uma vala,
“aqui fuzilavam os prisioneiros”.
Mas não era um campo de morte,
mas não era um campo de concentração.
Eram só uns tiros,
e a água que matava jamais a sede. 

De volta a Praga, no autocarro,
pude detestar o homem checo
que grunhia — achou que não merecêssemos a língua dos homens,
achou-nos dentro demais do nosso fora bárbaro,
e retumbantes no valor de um bilhete de volta.
Talvez tenha entrevisto uma fraqueza na discórdia,
um golpe de estado na melodia estranha.
Comentei isso com os meus colegas.
Falámos.
Matámos alguma sede.
Procurámos respostas e
conseguimos alguma coisa que fez a duração da paz. 

Chegados ao nosso destino,
de volta ao nosso quarto de hotel,
disse que amava quem amava,
e soube que não havia nada mais frágil que essa liberdade
de dizer “odeio-te” para dizer “amo-te”,
compreendendo, ou não, o que a nós
nos não querem jamais confirmar. 

Hoje deixo que Terezín cresça na ponta dos dedos.
Lembro-a crepuscular quando uso o corpo
para acenar ao trilho escolhido.
Penso, sobretudo, que não há máximas na estrada,
apenas vontades antigas.
Que só persiste a liberdade
— ela não é, ela está na corda bamba das mãos bambas —
quando aprendermos que nada há a confirmar.
Que a memória é a velocidade mais ou menos acidental
de um automóvel sem travões.
É na viagem que escrevemos,
em cada paisagem esquecida, 

o torso quebrado que nos calha que nos perscruta que nos obriga
a ter sede.

Perfil de Maria Brás Ferreira aqui.

Eufeme 18

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Eufeme 18 (Jan/Mar 2021):

Editor e coordenador: Sérgio Ninguém;

Revisor: Luís A. Montes.

Com: Eduardo Quina; Filipe Ribeiro; Isabel Cristina Pires; Joan Perucho (trad. Yvette K. Centeno); Jorge M. Telhas; Luís Filipe Parrado; Luís Fernandes; Neal Whitman (trad. Sérgio Ninguém); Rosa Oliveira; Sérgio Nazar David; Sofia Sampaio; Vesna Lecher-Švarc (trad. Sérgio Ninguém) e Yvette K. Centeno.

Disponível: Eufeme: eufeme.magazine@gmail.com, Livraria Poetria (Porto), Livraria Flâneur (Porto), Livraria Snob (Lisboa), Livraria Alquimia (Lisboa)

Agora quase tudo se lê, ou vê, ou ouve a partir de um imenso coeficiente de adversidade, um crepúsculo da vida que não tem sequer a força para erigir um pequeno esplendor do fim. Tudo parece capturado pelo fim do mundo, pelo menos de um certo mundo de que gostávamos; como nós capturamos há muito as palavras certas para expelirmos os nossos sopros vitais simbólicos.

Mas disto e daquilo que lemos, com os filtros disponíveis, retiramos um feixe de luz que, embora não saiba para onde apontar (tudo parece estar no ângulo morto da visão), ilumina uma parcela do negrume. Dito assim, com ar sério, ou experimentando um qualquer registo paródico (atrevimento que, num consenso estranhamente amplo, reduzimos ao mínimo, e quando a Vacina vier talvez já não saibamos atrever-nos), sondemos o mundo à procura de ideias raras, continuemos, pois, a ler, porque é nos livros que habita uma grande parte da verdade, do bem e do belo.

 

Nesta Eufeme, de grande qualidade poética, temos, entre outros, Eduardo Quina a escrever «cepticamente erigimos a promessa / do tempo sem regresso /estabelecendo as equações doentias da compaixão»; Isabel Cristina Pires, «Ah, a realidade, roubaram-ma / quase toda / nem sequer se ouve / a luz solar; e o que sobre / é da cor dos amputados, a quem abrasa / a perna que não existe.», ou «estou pronta / para dizer que o mundo é bom», ou «Os poemas deviam-se poder comer / e ser de fácil digestão; e eles próprios / deveriam mastigar-nos / e regurgitar depois as nossas cabecinhas / em mais inteligentes do que antes.»; Jorge M. Telhas, «se eu fosse território / fugia e deixava / os homens sós»; Rosa Oliveira, sobre a revolução industrial, «uma coisa que começa com gente a cuspir sangue / e crianças esmagadas por vagões / não pode dar bons conselhos»; Vesna Lecher-Svarc «A brutalidade / recebe-me para jantar / por favor salvem-me»; Yvette Centeno, com vários poemas encaixados na pintura de Pedro Chorão e a tradução do poeta catalão Joan Perucho.

Livros de 2020 – Uma Lista

Natalia Ginzburg e os seus gatos

Natalia Ginzburg e os seus gatos

 

Comecemos com uma declaração do que esta lista não é: não é uma lista exaustiva de todos os livros que li em 2020 e também não é uma lista com aspirações a nomear os melhores livros que li em 2020. Embora mérito literário e preferência coincidam claramente na maior parte dos casos, não em todos. Passei várias horas de 2020 a ler coisas de mérito literário discutível, que, no entanto, me ajudaram a criar a minha própria bolha autista e a traçar a partir de dentro nexos de sentido. Aqui ficam alguns apontamentos sobre isso.

 

Brunetti. Já não me lembro bem o porquê do meu interesse inicial no comissário Brunetti, comissário de polícia em Veneza. Donna Leon é americana, viveu muitos anos em Veneza, tem uma obsessão por ópera, os seus livros são um sucesso de vendas na Alemanha e ela recusa-se a tê-los publicados em Itália, onde não quer ser uma celebridade. A partir de Abril, quando as regras do confinamento em Inglaterra se tornaram mais austeras, devo ter lido compulsivamente qualquer coisa como 15 dos cerca de 30 romances que compõem a série. Há uma máxima que os classicistas gostam de citar que diz que o género policial é de todos os géneros o mais obviamente herdeiro da tragédia grega, porque o seu objectivo é uma reflexão cívica sobre problemas que nos afetam enquanto corpo cívico. Ora, Donna Leon começou a publicar os seus romances sobre o comissário Brunetti na década de 90, numa altura em que o mundo era mais ou menos adoravelmente chato. Os primeiros romances parecem-me mais marcadamente interessados numa certa tradição do género. As suas preocupações temáticas têm a ver com o modo como a psicologia de certos crimes afecta diferentes classes sociais. À medida que os volumes vão avançando, há temas a que Donna Leon volta cada vez mais insistentemente, atribuindo preocupações que são assumidamente suas a diferentes personagens. Uma das mais insistentes de todas é a degradação ambiental que a actividade humana vai impondo aos diferentes ecossistemas em redor de Veneza, o que reflecte a sua preocupação com o contexto de catástrofe ambiental em que estamos a viver. Ler estes romances em curta sucessão expõe o lado formulaico e ao mesmo tempo profundamente idiossincrático do género policial. Há uma profunda empatia e inteligência emocional em Brunetti, algumas das melhores coisas acercas dos romances são as suas cuidadosas observações de outras personagens, o seu vício com a literatura clássica e a sua relação com Patta, o seu chefe siciliano profundamente incompetente, que ele manipula com cuidada cortesia e às vezes perversidade, e de longe, a relação de Brunetti com a sua mulher, Paola Falier, descendente da nobreza veneziana, de um mundo socialmente muito afastado do de Brunetti, mas de uma inteligência e de um pragmatismo que desarmam Brunetti e o leitor.

 

Dos livros que li destacaria três. O primeiro, Death at La Fenice, em que o ponto de partida é a morte de um maestro alemão em La Fenice. É, de toda a série, talvez o romance onde todas as convenções do género são mais óbvias. No entanto, parece-me que se tornou inesperadamente actual, é um romance sobre a má memória do fascismo em Itália, sobre homens com poder que pensam que podem escapar com impunidade a quase tudo e sobre os modos como vingança, expiação e justiça podem convergir, mas não se confundem. É também uma espécie de carta de amor ao mundo da ópera em Veneza. Uniform Justice é o décimo segundo romance na série, é sobre um aluno de um colégio militar que é encontrado enforcado no seu dormitório. É uma narrativa sobre uma perda cruel, sobre as responsabilidades das instituições para com os indivíduos, sobre o lado opressivo das pequenas sociedades que construímos e em que vivemos, microclimas de macroestruturas decadentes, é talvez de todos os romances o mais amargo, o que de resto não é muito comum na série, sobre a impunidade de uma classe privilegiada. O último romance que recomendaria é o vigésimo primeiro. Beastly Things é sobre a crueldade dos homens com os animais e como esta é fatalmente nociva para ambas as espécies. Por outro lado, nunca pensei que a morte de um veterinário que se comporta quase toda a vida de um modo absolutamente anti-heroico e medíocre, mas que por um momento tem um assomo de consciência que dá em revolta, me pudesse comover tanto.

 

Daniel Mendelsohn tem uma respeitada carreira como professor de clássicas, tradutor da mais completa edição de Kaváfis em inglês, crítico de literatura na New Yorker (este ensaio sobre os romances de Mary Renault é uma pequena obra-prima). Em 2013 publicou um livro chamado The Lost: The Search for Six out of Six Million. É um livro sobre a busca, com muito poucas pistas, pelos seus seis familiares que pereceram no Holocausto, dos quais a família que sobrevivera sabia muito pouco, à excepção de um avô destroçado pela culpa que se recusava a falar sobre isso. Não sendo exactamente uma novidade, parece-me que é um livro que importa por dois motivos, por um lado a sua leitura devia ser profilática no sentido em que revisita a intolerável desumanidade de um totalitarismo, a sua falta de gentileza para com a vida humana, uma forma de maldade revoltante. Em contraponto, The Lost demonstra o quão precioso é mesmo o mais pequeno momento da mais anónima vida.

 

The Pike: Gabriele d’Annunzio. Poet, Seducer and Preacher of War de Lucy Hughes-Hallet é também um livro de 2013, uma biografia do escritor italiano Gabriele d’Annunzio. A nossa tendência, a minha pelo menos, é a de nos interessarmos mais pelos poetas do lado do bem, aqueles que ao longo do tempo se mantiveram do lado das resistências e da desobediência civil por razões morais. Esta biografia de d’Annunzio é um estudo exaustivo do percurso de um poeta que teve um papel nefastamente activo na invenção, através da sua obra literária, da ideologia do fascismo. Como disse um dos seus tradutores ingleses, d’Annunzio não era um fascista, mas o fascismo era d’Annunziano.

 

A NYRB publicou em 2019 uma nova tradução inglesa do mais conhecido romance da grega Margarita Liberaki, Three Summers. Three Summers (que não é o título original em grego) foi originalmente publicado em 1946, com Gabriele d’Annunzio morto há mais de uma década e é um romance exactamente nos antípodas do mundo deste autor. Aliás, escrito durante a Segunda Guerra Mundial talvez haja uma condenação implícita desta no facto de se encontrar neste livro apenas uma muito oblíqua alusão a este acontecimento. Three Summers conta a história de três irmãs à medida que elas passam à idade adulta, ao longo de três verões num subúrbio de Atenas. É uma grande alegria este livro. Traz com ele um regresso a um mundo em estado de puro verão. Um mundo imerso em beleza, ternura, personagens singulares e que termina com um gesto absurdamente inesperado, libertador e revolucionário, que desarruma o mundo no melhor dos sentidos. Vale muito a pena ler e reler este romance.

 

Natalia Ginzburg é uma destas escritoras que escreve sobre famílias e sobre amizades como ninguém. Cerca de uma década separa Todos os Nossos Ontens de Léxico Familiar. Todos os Nossos Ontens traça o percurso de um grupo de amigos, vizinhos, durante a Segunda Guerra, é um livro escrito com uma doçura amarga, com um humor diante da crueldade que nos lembra que os outros são uma forma de alegria, que os amores e as amizades verdadeiros têm um lado perene que escapa à mediocridade e à rotina, que se mistura com a discordância, com tensões, com modos muito diferentes de ver o mundo e que é uma forma de harmonia que se vai tentando cultivar em face de um mundo que não faz grande sentido. Os amores perdidos de Natalia Ginzburg, Pavese, Leone Ginzburg, talvez estejam em Cenzo Rena e em Hipólito, mas regressam como eles mesmos em Léxico Familiar, que é sem dúvida um dos grandes romances autobiográficos do século XX. Há um pai déspota em Léxico Familiar, tal como há um em Todos os nossos ontens, e há um momento em Léxico Familiar em que se escreve sobre irmãos e em que se diz que aquele grupo de irmãos vive em cidades diferentes e países diferentes, não se escrevem muito e não falam uns com os outros frequentemente, mas quando se juntam basta que um profira uma dessas expressões do léxico familiar para que se reconheçam imediatamente. Talvez As pequenas virtudes seja um livro de crónicas no mesmo espectro destes dois livros, fala-se de sapatos, amigos perdidos, conjugalidade, sobre ensinar aos filhos a pequena virtude do desprezo pelo dinheiro, há sobretudo uma clarificação de intenções éticas, da função da literatura, em que se diz que, porque vivemos no mundo em que vivemos não podemos mentir aos nossos filhos, a função mais importante da literatura é chegar à verdade.

 

O que me leva ao último livro que li em 2020, Os Anos de Annie Ernaux, que é também ele uma espécie de livro de memórias, uma biografia impessoal de alguém que cresce em França no pós-guerra e se estende até aos nossos dias. O muito pessoal mistura-se com a política, com a história, a biografia do corpo com a biografia do corpo cívico.

 

Queria terminar com uma nota muito breve sobre dois livros de poemas lidos em 2020, Atlas da galega Alba Cid, que venceu em Espanha o prémio Miguel Hernández para Jovem Poesia, um belíssimo livro de estreia que é um atlas de lugares, memórias e migrações, de que publicámos na Enfermaria alguns excertos, e The Years, uma plaquete do poeta britânico Jamie McKendrick, em que se revisitam certos lugares e personagens (incluindo um encontro connosco mesmos) ao longo dos anos. A cada poema corresponde um desenho do autor e é uma breve e maravilhosa viagem, que se estende de Espanha a Liverpool, pela mão daquele que é um dos mais europeus dos poetas ingleses. Também aqui se publicaram alguns poemas.