D.J. Enright, "Dizendo não"

tradução de José Pedro Moreira

Dizendo não

Depois de tantas (em tantos lugares) palavras
Chegou-se a esta, Não.
Épocas de periquitos, pavões, aves paradisíacas –
Então uma coruja careca grasnou, Não.

E agora (neste lugar, uma vez) para celebrar,
Um som servirá,
Depois da conversa entretecida com amor sobre arte, amor e destino –
Apenas, Não.

Alguma virtude aqui, neste inane estupefacto com o discurso,
Para manter as coisas breves.
Apesar, de quão enfadonha, inchada e distendida a dor –
Dizer tão só, Não.

Virtude (ou apenas decência) teria sido,
Mas – não.
Eu envolvo aquela cabeça da morte, tudo demasiado simples, demasiado claro,
Com longas e bonitas ligaduras dizendo,

Não.


Saying no

After so many (in so many places) words,
It came to this one, No.
Epochs of parakeets, of peacocks, of paradisiac birds –
Then one bald owl croaked, No.

And now (in this one place, one time) to celebrate,
One sound will serve,
After the love-laced talk of art, philosophy and fate –
Just, No.

Some virtue here, in this speech-stupefied inane,
To keep it short.
However, cumbrous, puffed and stretched the pain –
To say no more than, No.

Virtue (or only decency) it would have been,
But – no.
I dress that death’s head, all too plain, too clean,
With lots of pretty lengths of saying,

No.

Cantiga da Segunda Primavera

Nem as canções
connosco mudarão
uma vez levada a temporada
e o tambor fresco
para cantar
outra vez e sem maneiras
a renovada temporada
nas coisas que então
daqui poderíamos guardar
mas é tão pouco
tão pouquinho vai ficando
que nem as canções
connosco mudarão
o castigo

de Cantigas da Malta à Janela [inédito, 2021]

Negrilho

 

Quando o negrilho estava vivo, éramos jovens,
Aquela sombra era eterna, junho era verde e fresco,
Havia esperança nas manhãs, a vida parecia um longo início,
Como te posso explicar agora na canícula
Que ali houve uma sombra, uma companhia silenciosa,
Mas tão presente, um negrilho que entretanto secou,
Como a juventude e o futuro, e todos os amores.

 

Turku

 

07.03.2021

Esperando o Café  

Enquanto espero que a água suba e o café desça,
Releio “Lament for Bukowski”, já não é manhã,
A noite passei-a a dialogar com uma encefalopatia hepática
E uma parede, ambas queriam comprar cigarros
Às três da manhã, numa cidade fechada,
Bens essenciais, subitamente a água sobe e quando cai
No nível superior já é café, o Bukowski continua
No seu caixão “dead as hell”, também o Al Purdy,
Não me lembro do que era antes de cair,
Talvez nunca tenha sido puro, a vida também isto,
Um lamento crescente, um poema que nasce de outra dor. 

08.03.2021
Turku

 

Baudelaire

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Delmore Schwartz, em Screeno: Stories and Poems (New Directions, 2004).
Tradução de Tatiana Faia

Quando adormeço, ou mesmo durante o sono,
Ouço, muito distintamente, vozes que dizem
Frases inteiras, lugares-comuns e triviais,
Sem qualquer relação com os meus assuntos. 

Querida mãe, será que nos resta ainda algum tempo
Para sermos felizes? As minhas dívidas são imensas.
A minha conta bancária está sujeita às sentenças dos tribunais.
Não sei nada. Não posso saber coisa nenhuma.
Perdi a habilidade de fazer um esforço.
Mas agora como antes aumenta o meu amor por ti.
Estás armada para me apedrejar, sempre:
É verdade. Isto data da infância. 

Pela primeira vez na minha longa vida
Estou quase feliz. O livro, quase terminado,
Quase parece bom. Durará, um monumento
às minhas obsessões, ao meu ódio, ao meu nojo. 

Dívidas e inquietude persistem e enfraquecem-me.
Satanás paira diante de mim, dizendo docemente:
“Descansa por um dia! Hoje podes descansar e divertir-te.
Trabalharás à noite.” Quando chega a noite,
A minha mente, aterrorizada por pagamentos em atraso,
Aborrecida de tristeza, paralisada de impotência,
Promete: “Amanhã: trabalharei amanhã.”
Amanhã a mesma comédia encena-se a ela própria
Com a mesma resolução, a mesma fraqueza. 

Estou farto desta vida de quartos mobiliados.
Estou farto de ter constipações e dores de cabeça.
Conheces a minha estranha vida. Cada dia traz
A sua prestação de ira. Tu sabes pouco
Da vida de um poeta, querida mãe: tenho de escrever poemas,
A mais cansativa das ocupações. 

Estou triste esta manhã. Não me censures.
Estou a escrever no café perto da estação de correios,
Entre o clique das bolas de bilhar, a algazarra dos pratos,
O martelar do meu coração. Pediram-me para escrever
“Uma história da caricatura.” Pediram-me para escrever
“Uma história da escultura.” Deverei escrever uma história
Das caricaturas das esculturas de ti no meu coração? 

Ainda que te custe uma agonia sem conta,
Ainda que não possas acreditar que é necessário,
E duvides que a quantia esteja certa,
Por favor envia-me dinheiro que chegue para pelo menos três semanas.