Michael Symmons Roberts, Jairo

Tradução de Hugo Pinto Santos

Então, Deus leva a tua filha pela mão 
e arranca-a do leito de morte. 
E diz: «Dá-lhe de comer, está esfaimada.» 
 
Dás-lhe frutos com exteriores espessos  
– romã, meloa – 
comida dotada de peso, que a mantenha aqui. 
 
Esperas que, se ela comer o suficiente, 
a luz e o pó e o amor 
que tecem a matriz do seu corpo  
 
não se desfiem, nem fiquem tão puídos  
que o sol da manhã a trespasse, 
sem qualquer sombra, completa. 
 
De alguma forma, esta reanimação 
cortou cerce o medo da morte 
o choque da presença. Dá-lhe a comer 

o cordeiro, ovos, pão ázimo: 
põe de lado as ervas, ela tem um doloroso 
jejum a quebrar. Senta-te junto a ela, 

aparta-lhe as peles para que ela possa engolir, 
e repara como a alvorada  
desperta cores no seu rosto recentemente beijado. 

Michael Symmons RobertsCorpus, Jonathan Cape, 2004 

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Sinéad Morrissey, Farol

Tradução de José Manuel Teixeira da Silva

O meu filho ainda está desperto às dez, estirado 
no seu beliche, junto ao tecto, iluminado e vigilante. 
Fins de Agosto. Já o profundo 
céu diurno deste solstício a norte se obscurece 
cada vez mais cedo, numa coroa de nuvens; 
a luz da sua Estrela de David e a lua de plástico 
empurram, lá fora, o crepúsculo para a noite.  

Ao longo do Lough, onde os ferries se aventuram tranquilos 
e certo dia um paquete, vasto como palácio, 
foi avançando, no seu corpo brilhante, para o mar aberto- 
um farol inicia o longo discurso nocturno 
feito de sinais entrecortados; cintila e lança 
a esfera dos seus raios, detém-se e apanha-os 
e de novo os arremessa para lá da sua paralaxe. 

Ele conta cada um dos laços macios que lhe invadem a cabeça, 
todos os intervalos de treva, e imagina que sejam só para si- 
o aceno desse mundo em que se não pode penetrar: 
os dois em parte obscuros, em parte visíveis, 
protegidos numa espécie de conversa de rapazes 
que mais ninguém consegue ouvir. Nesse lugar privado, responde o farol, 
de pássaros e janelas devassadas- sim, eu já lá estive. 


Sinéad Morrissey  (Irlanda, 1972), Parallax, Carcanet, Manchester, 2013 

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Selima Hill, Charlotte

Tradução de Hugo Pinto Santos

Ela vem até ao jardim
trazer para dentro a roupa estendida.
Eleva os braços

até às camisas do marido
como devota e logo
produz um belo monte com elas.

Asas, velas, cúpulas,
estais dobradas e
prontas para o ferro...

E ei-la agora, pacificada,
com a frigidez da roupa
aninhada nos braços.

Selima Hill, London Review of BooksVol. 4 No. 4 · 4 March

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O livro de Jón e uma Língua que não era a sua

É um livro, mas são cartas, mais precisamente 28, escritas por Jón, personagem fictícia e real, à sua mulher Þórunn. Ambos separados por uma ilha, ela no norte, ele no sul, onde se refugiou numa gruta após ser acusado de assassinar o abade que era seu superior e simultaneamente marido da mulher com quem veio a casar. Jón, o pastor sem congregação perseguido por obscuros rumores e que se diz ter realizado um milagre ao desviar um rio de lava, é ainda um desconhecido que chega com o seu irmão a um local estranho, um homem que passa a ser visto com mais suspeita do que aquela que lhe mereceria apenas a deslocação para terras mais meridionais devido às suas ideias, às melhorias que introduz na gruta e nas terras que pertencem por direito à esposa e, sobretudo, aos seus planos optimistas para uma nova Islândia livre do jugo e do monopólio comercial dos invasores dinamarqueses, tema recorrente na literatura histórica islandesa, onde o veio nacionalista se funde com o orgulho de um povo. Rumores, ideias, planos: são estes últimos aquilo que mais partilha com Skúli, seu frequente visitante, também ele – como muitos neste livro – um homem de carne e osso antes de o ser no papel, o meirinho geral que deseja reinventar a Islândia e torná-la um país independente e exportador dos mais variados bens.

                  O livro de Jón é, na sua língua, um romance sobre Jón, e se o último é o mais irmão à originalidade que lhe compõe o título, o primeiro não lhe será menos fiel, pois este é um livro sobre e de Jón: ele é o narrador presente, o autor das cartas, é ele quem nos descreve a Islândia, os episódios bizarros, o clima, as viagens, as suas frustrações, desejos, crenças, ideias filosóficas, desilusões, enquanto somos leitores e, simultaneamente, Þórunn, essa mulher amada e abandonada num período de angústia, num país em que – no ano maldito de 1755 – a terra treme e a lava corre em rios.

Ófeigur Sigurðsson.jpg

A escrita de Jón, que é, por sua vez, também ele Ófeigur Sigurðsson, é um misto de crença nas ideologias e na religião transmitida de geração em geração e das luzes que se fazem sentir na Europa, tardiamente chegadas a uma ilha remota nos confins do mundo habitável; Jón não esconde essa dualidade na sua escrita, nas cartas que envia, feitas de frases longas, onde se usa e abusa da /barra/, composto por afirmações e interrogações longas, repletas de referências culturais islandesas e europeias que tornam difícil a vida ao tradutor de um livro que, com poucos anos de impressão, têm na linguagem o peso de mais de três séculos e a distância de um mar que o separa de um país marginal mas unido ao continente que ambos partilham, tornando o seu trabalho pesaroso, extenuante, envolvente, duros de meses sentados a secretárias dolorosas.

                  Felizmente, para o leitor português, O Livro de Jón será bem mais fácil e celeremente tragado em toda a sua beleza linguística e sumarento conteúdo e, certamente, lido em peças de mobiliário que unirão o conforto da leitura ao das costas…