«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
:no mato
/:no mato
que é massa
andar
descalço,
e a tudo
atento –
que a flecha
o sol a pedra
a cobra
é uma só,
é uma só
a flecha
que fura
pedra
e a cobra
que caça
sol
pra ir
avante
no mato,
só trato,
coragem,
no mato
que é massa,
mas mande
sempre
um salve,
não siga só:
*
Rodrigo Lobo Damasceno mantém o blogue de tradução de poesia chilena, otra versão.
Olhar sem ver
/© sonja valentina
Aguardo junto da janela, à espera que chegues; estás atrasado, para não variar. Como sempre, olho lá para fora, para a rua e para o céu, para o vazio, para nada em concreto, apenas porque olhar para algures (olhar sem ver) é uma forma eficaz de distrair o pensamento, de ocupar a passagem do tempo. Por vezes, a cortina acaricia-me o rosto, movendo-se quase imperceptivalmente ao ritmo da minha respiração (como se houvesse uma tempestade dentro de mim, a querer sair; como se a minha expiração fosse um vento incontrolável); e nada mais acontece: pensamentos e expirações em turbulência, ténues movimentos, suspensão da vida.
Mas de repente, ao sentir a ocasional carícia da cortina na minha face, surge-me no espírito uma questão súbita e inesperada (como se alguém invisível a gritasse com tal veemência que fosse impossível fugir-lhe): porque haveremos de usar cortinas, porque nos protegemos da luz? Porque não procuramos a luz? Não seria esse um desejo mais natural, uma necessidade mais natural? Afinal, a luz nunca deveria ser demasiada, deveríamos viver sôfregos por ela. Mas não: usamos cortinas. Porquê?
Paro um momento para pensar (ou seja: excluo todos os outros pensamentos da minha mente), percebendo que não estou a ser ensombrada por uma fútil e passageira questão mas por várias e múltiplas perplexidades, que se vão desdobrando, enredando-me em dúvidas. Na verdade, gostaria de estar a conversar estes assuntos contigo. (Lembras-te quando passávamos noites a discutir aquelas irrelevâncias que tanto nos entusiasmavam e comoviam? Teremos alguma vez falado de cortinas? Certamente que sim, porque na nossa primeira casa optámos por não usar cortinados; lembras-te?) Mas estás atrasado, como sempre; e, por isso, terei que conversar sozinha; comigo própria.
Que absurdo é pensar em cortinas; ou talvez não. Na realidade, um pensamento é uma parte de nós, nasce de nós e apenas existe porque nós existimos; deveremos, por isso, assumi-lo como nosso, pois afinal é uma mera exteriorização do que somos; cada pensamento é um pedaço de nós, tal como as mãos, o cabelo, as unhas; ou, noutra dimensão, como cada palavra que dizemos, como o cheiro que emanamos, como cada acção que executamos. Nós somos tudo isso; não apenas corpo e espírito mas também som e cheiro, tudo o que fazemos e sentimos e pensamos.
Pensemos em cortinas, então. (Detesto tanto os teus atrasos.) Usamo-las para nos protegermos do exterior, para não nos revelarmos demasiado; não concordas? Mas a verdade é que queremos revelar-nos um pouco (ou não teríamos janelas; recusaríamos o exterior; tentaríamos permanecer encerrados em nós, fugindo do mundo); queremos revelar-nos parcialmente e as cortinas protegem-nos, impedem que sejamos vistos inteiros e nítidos; as cortinas deformam-nos, desfocam-nos. É para isso que servem, é por isso que as usamos. Mas há um preço, infelizmente: também impedem que o mundo nos chegue completo e inteiro, pleno, fulgurante; filtram o que recebemos do mundo. Ou seja (digo eu a mim própria): o que nos protege também nos empobrece. E fico um instante a imaginar o que responderias a isto. Talvez dissesses: sim, tens razão; o que nos protege do mundo também protege o mundo de nós; e é uma ideia algo perturbadora, não achas? O mundo lá passa, sem nos ver completos, sem nos perceber completos; vê as nossas cortinas, apenas – e falo em cortinas como poderia falar em máscaras, não é? Protegemo-nos do mundo e, por isso, o mundo vê-nos parcialmente, vê um fragmento, uma sombra, uma aparência de nós. Mas será isso que desejamos verdadeiramente? Manipulamos o que o mundo vê de nós e achamos isso inteligente e sensato, pragmático; mas sê-lo-á?
Continuo a olhar lá para fora (o mundo a passar por mim, totalmente indiferente) e reflicto nesta tua ideia, nesta ideia que tive por ti: protegemo-nos com máscaras, como protegemos as janelas com cortinas. E depois, assim de repente e sem aviso, deixo de pensar nisso; não me apetece. Não me apetece pensar seja no que for porque, afinal, os pensamentos também podem ser como cortinas: separam-nos da realidade. E quando deixo de pensar, há algo que se torna óbvio: não me apetece esperar mais. O que desejo verdadeiramente – percebo-o sem surpresa nem receio, sem entusiasmo ou incredulidade – é dispensar a protecção das cortinas e abandonar a penumbra do nosso quarto; o que desejo é enfrentar o mundo e saborear toda a sua luz; mostrar-me ao mundo completa e inteira, ser luz. É isso o que desejo, assim de repente. Acreditas numa coisa destas? Atrasas-te, a cortina toque-o o rosto, os pensamentos atropelam-se: e é tudo; mas o suficiente para que a minha vida mude.
Saio sem sequer trancar a porta, corro pelas escadas e abandono o prédio, atravesso a rua como se fugisse a um qualquer perigo indefinido (ou como se corresse em direcção à felicidade?); mas depois paro, simplesmente paro: e fico a olhar para a nossa janela, vendo-a como nunca a vira antes, vendo-a do lado de fora. Estou parada no meio do passeio, há pessoas indiferentes e apáticas a passarem por mim (desviando-se, sem me tocarem; porque atemorizará tanto o toque de um estranho, o toque a um estranho?); o céu brilha, o ar resplandece de luz. E eu aqui parada, olhando a nossa janela: como se olhasse algo desconhecido e enigmático, algo que não fosse meu; tentando perceber como seria estar do lado de lá da cortina; tentando ver-me como os outros (o mundo) me veriam; olhando-me a mim própria – à versão pública de mim própria – mas sabendo que existe uma cortina pelo meio, a separar-nos. Perguntando-me: porque insistimos em manter duas versões de nós próprios, uma íntima e outra pública, versões irremediavelmente separadas por espessas cortinas inamovíveis? Porquê?
Eis-me, assim, chegada a este inesperado momento. Parada no passeio e sentindo a brisa no rosto, o vestido a esvoaçar ligeiramente, a luz a rodear-me, a envolver-me, a acariciar-me, a clarear-me, a inebriar-me: olho com ternura a nossa janela, a nossa cortina (sim, como se fosse uma despedida); mas não se trata de olhar sem ver, desta vez é algo diferente; olho e vejo mesmo. Vejo a realidade, sem o filtro de cortinas ou máscaras; apenas a realidade concreta e real, materializada numa banal janela, numa perspectiva diferente da mesma banal janela de sempre. E tu continuas sem chegar, atrasado; sempre apressado, apesar de irremediavelmente atrasado em relação à vida, a mim. Mas – e enquanto consciencializo isto talvez esteja a sorrir, o que é um pouco triste – o teu atraso deixa subitamente de ter qualquer importância; porque quando chegares, já não estarei à tua espera.
Para uma Crítica da Razão Vitimista
/Gosto, sem reservas, deste provérbio italiano: “Os tempos são duros mas são modernos.” Sopro de sentido, mais rico do que o “materialismo dialéctico”, importante deus ex machina do século XX, traduz metade do actual centro bipolar: o cinismo. Peter Sloterdijk define-o, distanciando-o do moralismo iconoclasta de Diógenes no seu tonel, como “um caso limite de melancolia que consegue controlar os seus sintomas depressivos e manter-se mais ou menos capaz de trabalhar.” (Crítica da Razão Cínica, p. 31). A outra metade do falso centro é o vitimismo. Reconheço que ele é tão antigo como o sapiens sapiens (parece mais uma gaguez do que um marcador científico), somos desde sempre vitimistas, até porque no princípio, contra Rousseau, não havia qualquer idílio, a vida era brutalmente dura. Daí a necessidade de, além dos múltiplos mecanismos de resiliência, nos envolvermos numa certa auto-comiseração mitigante do niilismo que os golpes do acaso (podia ser uma terrível dor de dentes ou condições climáticas propícias à fome) lançavam sobre a humanidade. A excepção veio sempre de entorses culturais que valorizavam a honra e a coragem, um artificialismo, mesmo quando se dizia naturalista, como em Esparta, ou de seitas religiosas tanatofílicas (a libertação pela morte inverte o processo de vitimização no de culpabilização, redimido na morte).
Mas talvez hoje, herdeiros da última utopia panglossiana, manifestada nos discursos e em algumas realizações empíricas do Estado de Bem Estar (ou Estado Social), abusemos dessa medicina, um pharmakon que por excesso de uso passou de remédio a veneno. Por isso, devíamo-nos armar de uma Crítica da Razão Vitimista para esmiuçar algumas subtilezas que compõem este modus vivendi. Enquanto isso não acontece (se alguém já a escreveu, avisem-me), avanço com certas linhas de sentido para podermos desconstruir o primeiro vitimista que nos aparecer (com o cuidado de não ser o nosso reflexo no espelho).
Num pequeno exercício de objectividade, destaco nele as seguintes características: 1- segue a máxima de Jean-Paul Sartre “O inferno são os outros”. 1.1- Não porque tenha andado na guerra ou precise dessa expressão para fechar o círculo filosófico “do em-si e do para-si”, mas porque é uma sublimação básica da sua própria impotência. 2- O “outro infernal” é uma figura ou força opaca, o vitimista não perde tempo em análises, basta-lhe escolher um outro, às vezes plural, para “bode expiatório”. 3- Alia-se facilmente a outros vitimistas, tem tendências tribais, sofre atrozmente com a solidão. 3.1- Como seria de esperar, enoja-o todos quantos se atrevem a duvidar da sinceridade da vitimização, sobretudo os “espíritos livres”. 4- Mas, paradoxalmente, a sua impotência existencial não se reflecte necessariamente na performance sexual (daí continuar a reproduzir-se). 5- É manhoso e vingativo (finge-se frágil, pede piedade); mas se lhe dão poder esmaga o primeiro que lhe faz frente.
Actualmente, o vitimista profissional, ocupação mais disseminada do que a de advogado ou professor, aumentou tanto a frequência e intensidade dos lamentos, da auto-desculpabilização e da acusação de terceiros pelos males recebidos que é impossível distribuir a justiça pelo mundo. Noutros termos: uma boa dose de vitimização permite aos mecanismos sociais decidir sobre a inocência ou a culpabilidade, e assim distinguir com algum critério os canalhas dos anjos. Pelo contrário, quando quase todos se julgam vítimas (do Passos, do Sócrates, do Paulo, do Jerónimo, da Ângela, dos Americanos, do Capital, das Multinacionais, do chefe, do professor, da polícia, da Globalização, do árbitro, do vizinho, da Crise, do Norte, dos imigrantes, das mulheres, dos homens, do Euro, do Futebol ou da falta dele, da Maçonaria ou da Opus Dei, das leis da física ou das da biologia... Em paroxismo vitimista, um conhecido meu, especialista de práticas conspirativas na Web 2, diz que tudo não passa de uma estratégia dos Duques de Bragança para reeditarem o Absolutismo Monárquico.), além do chumbo emocional que esmaga toda a vontade de viver fora do “ai-jesus”, deixa de se poder fazer justiça porque tudo parece uma sopa turva onde não se distingue, mesmo comendo com o máximo cuidado, os bons dos maus elementos. É a amalgama do "nada vale porque tudo vale". O mundo inteiro parece inclinado a fazer-nos mal, e por isso aos sintomas depressivos do cínico Moderno junta-se a paralisia do ego sob o efeito narcótico da contínua perspectivação do outro como a razão do nosso sofrimento, ou seja, do vitimista.
Hoje um amigo reencontrou-me tropeçou em mim
/[para o Miguel F.]
Hoje um amigo reencontrou-me tropeçou em mim
num livro meu na fnac e foi sentar-se à sombra
de um corredor e leu as minhas estórias e disse-me
isso mesmo com umas palavras hesitantes no gmail
e a alegria que senti não foi além de uns pontos
de exclamação em socorro da memória atrapalhada
foi pelos inícios dos anos oitenta na assírio & alvim
da estação da cp do rossio em lisboa onde poetas
se afadigavam na procura dos corpos e os comboios
para sintra os levavam aos ombros macios dos começos
foi aí na a&a que todos os dias cavalgávamos os livros
e depois subíamos ao bairro pelas escadinhas do duque
foi lá que perdi memória outros perderam só a noite
ou uma espécie de insensibilidade dura os salvou
eu continuo a voltar sempre um dia antes do outro
sem que os fios da memória se fixem de uma vez por todas
eterno recomeço que apenas a espaços se parece com a vida
mas o teu email querido miguel cravou fundo uma estaca
não sei se amanhã daqui a horas ou dias desaparecerá
essa pele que agora parece a dos meus vinte e tal anos
as páginas novas dos livros novos as linhas dos rostos
que afloram à tona do dia os pequenos gestos tão sós
os sentimentos sem corpos os lugares desocupados
como as palavras que sem sabermos nos mentiam
ah se eu soubesse então que as minhas palavras futuras
teria também de as varrer do sarro que nos outros eu via
crescer disfarçadas com o rancor a romper as lantejoulas
tão fácil que era passar pontes a voar e sorrir de lábios
rasgados e a dor a ficar aninhada numa puta do gingão
ou num banco de jardim na madrugada fria do cais
havia muito aço frio naquela maldita estação do rossio
e não sei se terá ficado estes anos a embotar o espaço
e o tempo que se espraiam entre os que se davam
o certo é que morreram alguns de nós
toupeiras inúteis.
Inédito, Julho de 2012
