ménades & bassárides

Pagas com duas moedas o teu almoço, massa e molho de tomate. Viajaste de eléctrico, caminhaste por ruas que se te ofereceram em nome, em mapa, e trazias na mala os livros que escolheste na biblioteca, um sobre Pound e outro com os contos de K. Mansfield que gostarias de copiar. Vestiste as calças de ganga de todos os dias, a blusa branca e o casaco de malha que herdaste de uma amiga, bebeste uma imperial, que custou o mesmo que o almoço, e regressaste a casa. Vives com os bolsos vazios e no entanto não te falta nada. A renda do quarto, pagas com a ajuda da tua mãe e de um filósofo suíço, teu benfeitor por interposta pessoa. À noite, quando há serviço, trabalhas num restaurante, serves às mesas em troca de uma refeição e do pagamento mísero que te permite comprar mais massa e mais molho de tomate. A água ferve. Preferias ficar em casa a escrever mas sabes que a escrita, mesmo que o não queiras, vai em tudo o que fazes. Na cozinha, encontras sempre formigas, estremeces. Ao longo do dia agarras no telefone, ponderas mensagens, voltas atrás. Não encontras propósito para a tua própria voz.
E no entanto, quem te livra de ti? Precisas de símbolos, de adornos. No eléctrico invejas os dedos das mulheres, pejados de anéis, as pulseiras de prata, as medalhinhas de ouro. Querias para ti um desses talismãs, ou a necessidade deles, que te é alheia. É isso que invejas, um desejo claro pelo precioso. Desejarias para ti umas perolazinhas nas orelhas que usasses sempre no Natal. E no entanto não são as pérolas que desejas mas apenas o gesto de as colocar, de as mostrar, de ser com elas vista. Poder dizer aos filhos: tenho estas pérolas desde que me casei, usei-as todos os anos nesta época. Poder dizer: os meus talismãs, encontrei-os na escrita.

Arethusa

Tradução de Ricardo Domeneck 

 

I

devíamos nos posicionar bem
estão chegando os corredores
vindos do leste
carregando o abril em caixas 

sob seus pés
nosso fôlego torna-se névoa
sopra como rebanhos compressores
ao pasto dos sonhos

cai a neve penduram-se ovelhas
como roupas vazias sobre o comedouro 

II

é abril e rumoreja
a loucura pastando
são nuvens-cordeiro
que mamam em nós? 

no quartel-general bebem
a água dos mapas 

caímos para cima
em direção ao reflexo
as sombras na órbita

prontas para atravessar

III

colunas são nem
troncos nem chaminés
caímos quebramos
as cúpulas das matas 

ficamos como mámore
de olhos fechados
farpa de lança à direita 

respiramos fundo, michel
gotas que são reunidas
após o sucesso da fuga

Do Basquetebol

1) O Basquetebol é um desporto global, disseminado pelos americanos a partir da 1.ª Guerra Mundial (não prometo rigor científico, quero-me livre para uma escritura impressionista), mostrou adaptar-se bem às culturas onde os jogos populares vivem da relação bola/pé ou, noutro nível estrutural, do disparo de qualquer substituto simbólico e físico das bolas de canhão, contra o adversário (resquício claro dos campos de batalha pré-modernos), como o rugby e já o futebol, o ténis também, embora com essa aristocracia fingida de usar uma catapulta (raqueta) em vez de directamente o corpo, e não invadir explicitamente o campo do adversário. O Basket tinha tudo, até pelo nome (cesto), para cair no ridículo e afogar-se nas risadas dos homens, e algumas mulheres, de barba rija. Claro que os Marines eram tipos bem vistos, com aquele à-vontade de quem confia em Deus e masca pastilha elástica. Tinham também mais e melhores cigarros e chocolates. Foi, portanto, fácil, com esta batotice, transformar um jogo de bola saltitona e cestos de verga rotos num desporto digno.

2) Na segunda metade do século xx, com a fabulosa determinação americana para o divertimento de massas (o que permitiu alterações sucessivas nos regulamentos do jogo para o tornar mais espectacular e a permissão dos espectadores comerem e beberem alarvemente nas bancadas), a vantagem de ser um jogo indoor (como o hóquei no gelo) e o aparecimento, no último quartel do século, de jogadores fabulosos (refiro os que conheço melhor: Wilt Chamberlain, Karrem Abdul-Jabbar, Larry Bird, Magic Johnson, Moses Malone, e, já na viragem para o nosso século, Shaquille O’Neal e o magnífico Michael Jordan), tudo isto bem enquadrado pela relação entre NBA e Televisões nacionais americanas (contratos de transmissão mas também esquemas de recrutamento que facilitam um equilíbrio relativo entre meia dúzia de clubes) e uma passagem bem conseguida de jogadores brancos para jogadores negros, fez explodir a atractividade do jogo.

3) Em Portugal ficamos, contudo, presos a uma profunda modéstia, apesar do impulso que a chegada dos “retornados” das ex-colónias deu à modalidade na década de 70. Hoje vai-se jogando, há miúdos talentosos, alguns clubes bem organizados, zonas do país onde a prática e a formação inicial tem um certo fulgor (“margem sul” e à volta de Aveiro), mas o futebol moldou de tal forma os nossos jogos de pensamento e de emoções, facilita tanto a conversa de ocasião, é tão eficaz a produzir gritaria e cânticos de louvor à porrada e à sexualidade mais bestial, é tão profícuo no insulto, tão fácil de usar em guerrinhas políticas, tendo, além disso, por preguiça e seguidismo, a comunicação social constantemente “em cima do acontecimento”, com horas e horas de discursos sem sentido e de espuma no canto da boca sempre que os comentadores se digladiam em torno da justiça dos resultados. Lembramo-nos do jogador Lisboa, um “estremo” de qualidade europeia; de uma ou outra equipa (Benfica, Porto, PT); mas no resto, o Basket apenas obtém o favor de uma nota de pé de página no grande circo mediático e mental da cultura lusa.

4) Isso não invalida que seja um desporto extraordinário: praticado com regularidade desenvolve quase todo o espectro biomecânico dos jogadores, exige uma inteligência táctica muito superior à do futebol, níveis físicos elevados (apesar da recuperação após cada jogo ser mais rápida do que em desportos com esforço físico contínuo e prolongado) e uma cultura de equipa que mesmo quando deixa brilhar as estrelas é bem superior à de outros desportos colectivos, onde alguns elementos se podem desconectar do plano táctico (Cristiano Ronaldo joga por si, no Andebol há jogadores que só atacam...). Costumo aconselhar os pais preocupados com o sofãsismo e a obsessão multimédia dos filhos a porem os rebentos no Basket, parece-me ser um dos melhores sítios para retornarmos ao way of life grego do “corpo são em mente sã”. Relembro que este slogan era muito mais do que uma mera sugestão de fitness, para os gregos clássicos a vida sem desporto, sem teatro, sem guerra, sem política seria um erro.

5) Servem os 4 pontos anteriores para chegar ao mais importante: dar-vos a conhecer que também eu jogo o meu Basket, numa equipa multicultural e multianual (variam bastante as idades, as profissões, os interesses, os gostos...), aos Sábados de manhã no Estádio Universitário. Rondamos os 10 jogadores e somos “treinados” pelo Pedro. Parte da minha semana é pontuada por esse porto de abrigo onde sei que terei o prazer de correr e saltar, passar e lançar (encestando às vezes) uma bola. Chamo-lhe a minha metafísica da felicidade, que se transforma em física hedonista quando chega a hora do treino (se a filosofia fosse assim teríamos mais praticantes). Claro que também obtenho prazer noutros gestos físicos da vida, no ténis (que pratico imediatamente antes), nas caminhadas, nos abraços, nas mesas com comida ou bebida, na tagarelice... mas no Basket o corpo tem de dançar, os tiros têm de ser precisos (no lançamento ao cesto emerge a angústia e a coragem do caçador primitivo, por vezes recompensada), os passes exactos. Ataca-se já preparando a defesa, não há repouso, cada fragmento do jogo deve ter a intensidade máxima do presente e projectar desde logo o futuro próximo. No Basket joga-se com o tempo, i.e., mergulha-se nele para evitar as quebras da compartimentação passado/presente/futuro. Um jogador que se esqueça de defender quando ainda só está no início do lançamento é um mau jogador. E na defesa, o “cada um defende o seu” é apenas o início de algo de muito mais complexo, de constantes trocas e entreajudas, de laxismos astuciosos e estratégicas pressões de 2/1. A arte de defender está infinitamente mais desenvolvida no Basket do que em todos os outros desportos que conheço. Por exemplo, é impossível ser, como no futebol, um bom defesa sem uma inteligência de contexto e de previsão muito elevadas. Não basta ter talento físico e resiliência, é preciso ser um quase filósofo do desarme ou pelo menos da perturbação sistemática.

5.1) Mas fujamos do angelismo. Algumas vezes, juntando a natural imperfeição humana com pequenos egoísmos (espontâneos ou não), o treino agride o horizonte ético que em geral o cobre (mesmo se, com Michel Serres, se aprende mais ética no desporto do que em qualquer manual de bom comportamento). Assim acontece em todos os desportos, não fossem eles constituídos por jogos onde se ganha e perde. Os gregos, competidores inveterados, só reconheciam o fair play a quem ganhava. José Mourinho criou uma espécie de nova lógica da justiça: “é justo quem ganha”. Ora, também nós, no Basket de fim de semana que adoramos jogar, por vezes nos desentendemos (uma outra forma de dizer que cada um entende para seu lado). Mas é raro, porque somos crescidos (eu lidero o clube do Basket grisalho) e sabemos relativizar o irrelevante, mas também, talvez sobretudo, porque o Pedro, treinador e estrela da companhia (joga para lá do nosso campo de possibilidades, mas como dança com a bola não lhe levamos a mal, nem temos inveja) sabe abafar os pequenos arrufos, orientando os desorientados e esvaziando as energias vingativas que às vezes se levantam (num jogo, o caos aparece quando se acumulam demasiadas forças vingativas). Claro que alguns leitores julgarão que este panegírico ao treinador traz água no bico, talvez, mas isso é claramente falta de fair play.

A pausa

Não são previsíveis mudanças essenciais. Aceita-se um rumo definitivo e não se imagina o que possa gerar perturbação. Ao alterar-se o batimento cardíaco esperas que o motivo não exceda o susto. Agradeces a estabilidade ainda que isso implique o fim da emoção. As emendas passam a ser pontuais, as condutas estão todas mais ou menos alinhadas umas com as outras e mesmo falar em plural, condutas, pode ser excessivo. Lembro-me do dia em que comecei a tomar boas decisões. Não o vou recordar agora. Esse momento merece uma atenção particular. Mas uma das boas decisões que tomei foi, simplesmente, ser prático. Era evidente que devia cortar com algo do meu passado porque isso me ajudaria a manter o controlo. No trabalho que me dava o sustento resolvi, por exemplo, encontrar o meu lugar. Fiz o correcto, gerei confiança em quem devia e num período de tempo mais curto do que era regra promoveram-me a motorista de um dos camiões do lixo. Para a dureza do trabalho, ainda assim, estive demasiado tempo como peão, o nome que damos a quem anda a pé, com o carrinho e a pá e a vassoura. Sabia que quanto mais cedo me habituasse menos resistência oporia e menos duro seria e foi isso que fiz. E então promoveram-me a motorista. Trabalhava todos os dias das 11 horas da noite às 6 horas da manhã. É de um desses turnos que quero falar. De uma dessas noites longas e frias mas também repletas de companheirismo.

Uma das razões que me permitiram ascender a motorista – penso – foi nunca me ter metido nos sindicatos. Não tenho sequer um carácter inconformista – e não o digo com orgulho. Uma das vitórias dos sindicatos foi conseguir uma pausa de 30 minutos a meio do turno, uma pausa oficial. A direcção aceitou impondo a condição única de que os horários de trabalho avançassem quinze minutos. E assim passamos todos a sair quinze minutos mais tarde. O pessoal dos camiões era fixo e eu trabalhava com dois colegas. Durante a pausa um deles tinha por hábito encontrar-se com outros companheiros escalados umas ruas mais a norte. Às vezes dava-lhe boleia e ficava o Carlos comigo, estacionávamos ao lado do depósito de água. Ligávamos o rádio e ficávamos ali a escutar as chamadas telefónicas que faziam ouvintes de um programa nocturno. Se não for por obrigação, não há muitos motivos que te levem a estar acordado às três da manhã em casa, e nenhum, decerto, chega a ser remotamente edificante. Algumas chamadas eram hilariantes e deixávamos quase sempre o rádio naquela emissora. Comentávamos as histórias e era realmente divertido. O Carlos punha as botas em cima do tabliê e descascava amendoins atirando as cascas pela janela.

Uma dessas noites apareceram uns miúdos. Não deviam ter muito menos que a idade do Carlos. Já os tinha visto ao longe: dois rapazes e duas raparigas. Empurravam-se, depois abraçavam-se, davam pontapés no que encontravam pela rua. Quando chegaram perto do camião começaram a apontar e um dos rapazes colocou-se exactamente à nossa frente, rindo-se, fazendo caretas, apertando o nariz e depois movendo a mesma mão diante da cara. O Carlos subiu o volume do rádio mas o rapaz não desistiu e os outros três, provavelmente pisando o monte de cascas de amendoins, riam-se desde o passeio. Por fim, o Carlos abriu a porta e de um salto desceu do camião. Eu segui-lhe o movimento e também desci. O rapaz estava agora em frente ao Carlos gesticulando e insultando-o com todo o tipo de apodos. Avançou um passo e o rapaz empurrou-o sem que Carlos oscilasse um só centímetro. Sabia que aquela pausa estava condenada e não me pude mexer. Carlos respondeu ao empurrão com um murro certeiro no peito e toda a força do impacto se concentrou no rosto do rapaz. Tinha lido algures que uma pancada no peito pode ser mais mortífera que na cabeça e foi nisso que pensei. O rapaz caiu ao chão e não mais se levantou, as raparigas arrojaram-se ao corpo inerte e gritaram. O segundo rapaz estava ao telefone tentando precisar o sítio onde nos encontrávamos. Enquanto Carlos desaparecia rua abaixo lembrei-me de alguns comentários que proferira ao escutarmos uma ou outra chamada telefónica. Parecia que ainda o estava a ouvir. Não os vou aqui lembrar; também os silenciei na altura do julgamento. A dada altura perguntaram-me se em alguma ocasião tinha sido necessário admoestar ou repreender Carlos. Respondi que não, nunca, e essa é a verdade absoluta. Não me passou pela cabeça duvidar um só momento do que conhecia, do que sabia do meu ex-colega. Talvez ele apenas não tivesse tido ainda a sorte de tomar as boas decisões. Talvez ainda fosse muito jovem. Desejei que todos nascêssemos ensinados. Desejei-o com fúria.