CALEIDOSCÓPIO


A suspensão coloidal das nuvens no trânsito.
O número de habitantes de Singapura
(新加坡共和国, 5 000 000, [114.º]).
Estar de joelhos onde acabem as tuas costas.
A cor azul dos teus atacadores no tapete
da entrada. Uma péssima tradução de Aristóteles.
Andar para trás na Pan-American Highway.

Como não há semelhanças entre um vinil dos Smiths
e um moinho de vento? São ambos processos
de fragmentação: please please please
let me get what I want

Os solavancos homéricos do autocarro nas manhãs
onde não beijo ninguém. O crânio dançante das galinhas.
Saber que o jazz se ouve de barriga para o ar.
O rapaz que me disse aos 6 que eu era uma varanda
ensinou-me o que era uma metáfora. A + B = C.
Saber quantos fonemas tem a língua portuguesa.
Expulsar o gato. Ficar a sós com Schrödinger
na caixa. “Só plantará um jardim de cabeça para baixo
quem não ler a Historia plantarum”. Naná quem disse.
Uma ferida é a interrupção da continuidade do tecido
corpóreo. Nonsense Botany foi o que escrevi
num bilhetinho para Naná. Naná não respondeu. São 31.

Se Sócrates sorriu para a morte de dedo em riste,
por que não haveria eu de te sorrir na fila do metro?
A primeira nódoa na camisa foi a tua boca.
A indecisão do pássaro em afogar-se no charco ou
o primeiro salto dos jogos olímpicos. Pintar um quadro
numa praia de nudistas. O movimento centrífugo
que os mamíferos desenham antes de deitar-se.
Aprender que o amor não é um rondó: três couplets,
quatro ritornelos, um coração só, A-B-A-C-A-D-A
mão no seu lugar: aos ombros te carrego pelos lábios.
A tosse pneumática a 15 de novembro. As unhas raspadas.
O suicídio do hamster Tobias a 5 de janeiro. Cf. Werther.
A minha festa de aniversário em 1999. A tua saia. Tu.
O último massacre do Sudeste Asiático, quão caro está
o tabaco, o preço da papaia, uma nação nas meias.
Ser perpendicular à porta de tua casa. A vermelha,
que rodopiava. O lavatório, o queixo. Dois olhos
no espelho: girl, girl that I see,/ is there a literary-est
mirror than me?

Três poemas húngaros (1)

I am mainly an idiot
you are almost beautiful 

Robert Creeley

  

eu julgo que és quase bonita
ao ver-te duplicada na janela
imunda de um comboio de inverno 

ajeitas dois fios do teu cabelo
metes a mão à cara, porventura
a cheirar nos dedos o almoço 

conferes o bilhete, o telefone
o conteúdo da mala não sem peso
toda a soma de últimos valores
de boa passageira infrequente 

é que és mesmo quase de se amar
mirando a paisagem desolada
comigo, o maior dos idiotas
suspeitando de repente alguma morte 

vagão quinze, pela tarde
körmend-szombathely

ménades & bassárides

Pagas com duas moedas o teu almoço, massa e molho de tomate. Viajaste de eléctrico, caminhaste por ruas que se te ofereceram em nome, em mapa, e trazias na mala os livros que escolheste na biblioteca, um sobre Pound e outro com os contos de K. Mansfield que gostarias de copiar. Vestiste as calças de ganga de todos os dias, a blusa branca e o casaco de malha que herdaste de uma amiga, bebeste uma imperial, que custou o mesmo que o almoço, e regressaste a casa. Vives com os bolsos vazios e no entanto não te falta nada. A renda do quarto, pagas com a ajuda da tua mãe e de um filósofo suíço, teu benfeitor por interposta pessoa. À noite, quando há serviço, trabalhas num restaurante, serves às mesas em troca de uma refeição e do pagamento mísero que te permite comprar mais massa e mais molho de tomate. A água ferve. Preferias ficar em casa a escrever mas sabes que a escrita, mesmo que o não queiras, vai em tudo o que fazes. Na cozinha, encontras sempre formigas, estremeces. Ao longo do dia agarras no telefone, ponderas mensagens, voltas atrás. Não encontras propósito para a tua própria voz.
E no entanto, quem te livra de ti? Precisas de símbolos, de adornos. No eléctrico invejas os dedos das mulheres, pejados de anéis, as pulseiras de prata, as medalhinhas de ouro. Querias para ti um desses talismãs, ou a necessidade deles, que te é alheia. É isso que invejas, um desejo claro pelo precioso. Desejarias para ti umas perolazinhas nas orelhas que usasses sempre no Natal. E no entanto não são as pérolas que desejas mas apenas o gesto de as colocar, de as mostrar, de ser com elas vista. Poder dizer aos filhos: tenho estas pérolas desde que me casei, usei-as todos os anos nesta época. Poder dizer: os meus talismãs, encontrei-os na escrita.

Arethusa

Tradução de Ricardo Domeneck 

 

I

devíamos nos posicionar bem
estão chegando os corredores
vindos do leste
carregando o abril em caixas 

sob seus pés
nosso fôlego torna-se névoa
sopra como rebanhos compressores
ao pasto dos sonhos

cai a neve penduram-se ovelhas
como roupas vazias sobre o comedouro 

II

é abril e rumoreja
a loucura pastando
são nuvens-cordeiro
que mamam em nós? 

no quartel-general bebem
a água dos mapas 

caímos para cima
em direção ao reflexo
as sombras na órbita

prontas para atravessar

III

colunas são nem
troncos nem chaminés
caímos quebramos
as cúpulas das matas 

ficamos como mámore
de olhos fechados
farpa de lança à direita 

respiramos fundo, michel
gotas que são reunidas
após o sucesso da fuga