O corpo diz o que as palavras não conseguem (ou não querem ou não podem)

© sonja valentina

© sonja valentina

Finalmente, beijámo-nos. 

Há muito que havia trocas de olhares e de sorrisos, toques cúmplices e abraços demorados, conversas que apenas não duravam indefinidamente porque eram sempre interrompidas por alguém. Há muito que havia vontade. Há muito que o primeiro beijo era imaginado e antecipado, desejado, fantasiado. Mas apenas hoje aconteceu. 

E foi uma decepção. Quando nos separávamos, ainda sentia o sabor da sua saliva na minha boca; mas o que pensava era isto: será possível anular um beijo? Como voltar atrás, como retirar um beijo que demos a alguém?

Não sei o que esperava; mas julgo que sempre acreditei que o primeiro beijo que dou a alguém deverá ser mágico, deverá ser insuportavelmente intenso e transcendental; deverá fazer-me tremer, fazer-me voar, deverá fazer-me morrer e ressuscitar em simultâneo. Talvez seja excessivamente romântica, talvez seja excessivamente idiota; mas acredito que um primeiro beijo deverá ser tão forte que me faça sentir que, após esse beijo, nada mais será igual, algo mudará de forma subliminar mas inquestionável e irreversível. Contudo, nada disso aconteceu; o nosso primeiro beijo foi, simplesmente, murcho. Tão murcho que desejei apagá-lo, eliminá-lo; para que depois pudesse haver uma segunda tentativa de primeiro beijo? Ou para que o pudesse esquecer para sempre? Não importava, queria apenas retirar algo que dera.

O que me decepcionou mais foi a sua apatia; um beijo sem paixão, sem amor, sem desejo, sem voracidade, sem desespero, sem fome; apenas algo rotineiro e eficiente, algo necessário, algo agradável; na verdade, apenas mais um beijo (pior: apenas mais um toque). Foi isso que me decepcionou: perceber que, para ele, um beijo, cada beijo, não é algo único e irrepetível, mágico, sagrado. Perceber que, para ele, um beijo pode ser apenas uma rotina. Perceber que, para ele, o primeiro beijo pode ser tão indiferente e banal, tão mecanizado, como os beijos de um casal que vive junto há cinquenta anos e não se ama há quarenta. Porque foi algo semelhante a isso que senti: o seu beijo pareceu-me o de um velho que já deixara de acreditar, desejar, sentir.

E o que fazer depois de um beijo assim? O passado não se apaga, é impossível anulá-lo ou cancelá-lo. Contudo, o pior é a incapacidade de apagar a memória; afinal, o passado talvez seja inofensivo e inócuo, o que nos perturba e destabiliza é a memória. Mas como impedir que o passado, ou a memória desse passado, nos condicione o presente, nos faça infelizes agora? 

Recordava a forma mole como a sua língua acariciara a minha e perguntava-me se, apesar da completa inaptidão do seu beijo, aquele poderia ser o homem da minha vida. E se estivesse a permitir que um mau beijo condicionasse todo o meu futuro? Afinal, até ao momento em que os nossos lábios se tocaram acreditara (ou melhor, fantasiara) que aquele homem poderia ser o meu futuro. E se o beijo tivesse sido apenas um erro momentâneo, um equívoco passageiro? Já se sabe que, por vezes (muitas vezes), o corpo diz aquilo que as palavras são incapazes de transmitir; deveria, por isso, escutar o que o seu corpo me dissera. As suas palavras tinham-me comunicado desejo e amor (sim, amor), enquanto o seu corpo transmitira-me rotina e apatia (na verdade, o seu corpo gritara-me: “foge”). Mas será que os corpos não se enganam, por vezes? Será que apenas as palavras são ilusórias e ardilosas? E os corpos, não?

Porque deveremos sempre acreditar nos corpos? Será que eles nunca mentem?

O beijo aconteceu ontem ao fim do dia, no escritório. Separámo-nos e durante a noite, pela primeira vez em muito tempo, não trocámos mensagens. Dormi mal, acordei mal. Apeteceu-me fugir (o que é um desejo estúpido, já que a decepção e a dúvida me perseguiriam, pois estão dentro de mim, são parte de mim); mas, neste momento, aguardo que a porta do elevador abra; entrarei no escritório e ele estará lá, à minha espera. Não sei o que acontecerá; o que dirão os corpos? E as palavras que acabarão por ser ditas que significado verdadeiro terão? Não sei mesmo o que acontecerá, apenas que no princípio haverá um olhar.

E tenho medo.

Método e Equilíbrio

21. MÉTODO

Sentia-se tão bem no escuro que um dia arrancou os olhos*.

* Podia ter escrito “que um dia cegou”, mas a verdade é que evito, sempre que posso, as metáforas.

28. EQUILÍBRIO

Ele amava-a tanto que se transformou num homem melhor, só para lhe agradar. Tornou-se mais belo, mais instruído, mais bem-sucedido e muito mais rico.
Ela não mudou nem um bocadinho; continuou a não acreditar no amor.

O casaco

O casaco estava lá mas ele não. Estava à espera de qualquer coisa, um som, ou a sensação que se experimenta quando um tendão se rasga. Era aquilo ali e agora, mas não era bem isso. Assim, tão banal como uma gaveta de roupa que não se compõe porque faltam duas camisas. Atirou as tralhas para dentro da pasta, o moleskine, os livros, o computador. Na sua imaginação lírica, a parte mais apelativa da sua imaginação, pensava que devia haver uma reacção física que tornasse isto objectivo, por exemplo, gritar ou sangrar do nariz. 
Reage, mulher, pensou. Pensou, levanta-te!, e sentou-se no sofá. 
Apoiou os cotovelos nos joelhos. Nada. Então daí entendeu. Sacanice. Estava à espera disto. Qualquer coisa em modo Cassandra, de longe, muito antes, eu conheço este cheiro. E, no entanto, estava ainda à espera de qualquer coisa vinda de fora que pudesse traduzir a mudança. Torná-la real. Um acontecimento pode ocorrer sem que cheguemos a ver nenhum gesto, muitas coisas se fazem sem o sangue, até isso, era uma frase naquele livro que tinha andado a ler a semana toda. Até isso. Uma coisa pode acontecer sem que nada no mundo a manifeste. Sem que haja qualquer testemunha do seu movimento. Viste? Não vi.

Read More

Peter Reading, Ésquilo

Tradução de Hugo Pinto Santos

 

Havia uma razão, mas agora escapa-me,
para eu fixar o céu, de olhos a piscar.
A sua brandura crepuscular empapa-me,
ainda que isso não o possa explicar.

Quando eu era miúdo, li que um poeta
trágico, por trágica ironia, ou por Fado,
morreu por tartaruga e águia cegueta
que lhe tomou a cachola por penedo.

Quem senão talvez um comediante avant-garde,
ou Darwin postulando a bordo do Beagle
sobre a evolução das barbatanas da tartaruga,
podia visualizar a tartaruga tão malvada
que levantasse voo e depois fosse importunar
poetas sossegados em busca do seu pesar.

Agora passo toda a vida, grave, a duvidar,
acho tudo na terra reptiliano e hórrido,
e o Céu manhoso, perigosamente pérfido.

 

Peter Reading, Collected Poems, vol. 1: Poems 1970-1984, Bloodaxe Books, 1995

Read More