Quero um samba de raiz o busto do Leão

Quero um samba de raiz o busto do Leão 
Hebreu 5k de Kavafy Vertov até à falta da visão 
 
Quero um cavalo de corrida duas mulheres sentadas 
sem roupa impuras um copo cheio de limonada 
 
Quero muito escrever um conto sobre baratas 
que apareça outro gato desgrenhado numa caixa de batatas 
 
ao chegar ao teu parque de estacionamento 
Quero dezoito acordes de violino e uma hora de esclarecimento 
 
numa pastelaria com wi-fi sobre a teoria das cordas 
Quero que todos saibam que eu quero saber como é quando acordas 
 
Quero uma taça de gelatina duas colheres metálicas 
o cheiro das tuas orelhas numa tarde farta de dálias 
 
Quero muito as tuas mãos pequenas sobre a minha testa 
um beijo húmido à entrada da casa e outro à saída da festa 
 
Quero a chávena média o cobertor do lado esquerdo do sofá 
dormir quero tanto dormir contigo 250g de açúcar no chá 
 
Quero todos os lugares onde tu estás ou estiveste 
que no meu funeral chores mais que todos que rasgues uma veste 
 
Quero ir do Porto ao Haiti e escrever uma epopeia 
uma lição um orgasmo um verso um sermão uma ideia 
 
Quero a tua cabeça apenas a tua cabeça nas minhas costas 
um pão com manteiga os meus lábios nas tuas unhas tortas 

Glória humana

 Reverdecer. Não me ocorreu outra palavra naquele momento. Regressar à juventude com outro corpo e sem as doenças e as tragédias a que me expuseram. Poderia ter dito renascer. Sair do ventre de outra mãe. Resumir os meus desejos num vocábulo, eis o exercício a que infinitamente voltamos nas nossas consultas. O doutor e eu. Negamos o destino, gozamos com a leitura dos astros. Aprendemos, ou melhor, aprendo o valor do eu, do pequeno eu. Reaprendo a mimar a criança e a mudar o pai / cassete que em mim se impôs como lei. Fundir a cor verde com os raios solares e nascer esquecido do sofrimento. Ser eu mas outro. Reverdecer pareceu-me a escolha certa. Não tive tempo para grandes reflexões. “Diga, diga.” Nem respiro por causa da sua mão, dos seus dedos trementes, do som das pancadas dos seus dedos no tampo da mesa. O doutor põe-me em sentido. “Hera, verde esperança a galgar a parede branca.” O terapeuta espera que responda sem matutar. "O seu problema é no coração", afirma ele, mentiroso, artista da charlatanice. Saio do seu consultório revoltado comigo mesmo. "Se lhe pregasse uma focinhada, queria ver onde meteria o ego, o superego e o id", penso. Se deixasse de obedecer a determinadas convenções, levaria uma existência mais tranquila. Se me livrasse das convenções sociais. Preservo o canastro do doutor que me suga quarenta por cento do ordenado. Isto é ser homem? É no café do Cardoso que exumo os meus fantasmas, é nesta instituição de caridade que, esvaziando copo atrás de copo, resolvo os meus problemas, os tais problemas do coração. Para isso muito contribui a anafada Vanessa, tão generosa a dar à anca quanto a emprestar o ouvido. "Dá-me uma razão para continuares a ir às consultas", pede a imberbe, sábia em tantas matérias mas tão ignorante em termos de baixas médicas e de atendimento ao público. Não me apanham de novo naquele supermercado. Atender pretos, chineses, ucranianos e velhos tesos. Vim ao mundo com uma missão, ainda não descobri qual, mas certamente não consistirá em passar oito horas dentro de um centro comercial a ser insultado por todos e mais alguns.  O Cardoso, ou melhor, o filho do Cardoso, o Cardoso Júnior - o sénior finou-se há uma mão cheia de anos-,  meu camarada desde os tempos de liceu, sugeriu-me mais do que uma vez que deveria comprar uma caravana e lançar-me estrada fora arranhando as cordas de uma guitarra e arrebicando os dias que me restam, que são muitos, com cuecas de mulher de todas as cores, tamanhos e feitios. Sacar o melhor de mim, a minha intenção ao dizer reverdecer foi enfatizar esta necessidade de libertar o melhor de mim. Libertar o melhor de mim que nunca existiu. "Percebeu, doutor?" O homem sair de si mesmo, superando a angústia e o medo, abdicando do monismo - não é monismo ou monista, é mono: macaco, macambúzio, estúpido, bisonho, sensaborão. Do deveria ao gostaria vai uma distância considerável. De tanto ser corrigido, aprendi a não dizer devo, deveria, ter, tenho, teria. Não me posso. Não gostaria (eis a forma como se evita uma depressão: com um gostaria em vez de deveria ou teria) de ficar preso a sonhos, a meros sonhos impalpáveis. Quero a Vanessa, mas não só a Vanessa, todas as Vanessas, e não só as Vanessas, as Marlenes, e não só as mulheres, quero dinheiro. Mais: quero ser eu. 

Dois poemas de Ernesto von Artixzffski

 Ernesto von Artixzffski, aka Sergio Maciel

Sobre minha casa arde a chama da possibilidade.
O jardim é incerto
e meu cão azul, sem razão, dorme ao pé da porta.
Tudo acontece aqui.
Meu quarto e minha sala estão no mundo.
Sou feliz e a flor da morte curva-se no canto do quintal. 

*

As sombras ainda giram,
na grama,
em torno das pedras.
O tempo não nos pertence mais.
O amor repousa sobre o fogo dos dias.
Quem era de acordar já caminha
— agora, tudo é sono. 

 

Carderno 1

O Caderno 1 da Enfermaria 6 tem um conjunto de autores que parecem remeter quase imediata e necessariamente para pessoas concretas. Conheço até alguns deles (queria ter encontrado mais no dia do lançamento na Fyodor Books, é natural a vontade de compor com uma figuração empírica o que lemos de alguém), reconheço-me também no que escrevi, “sim sou eu”, digo para comigo. Porém estas relações texto/autor resultam quase sempre de estratagemas de leitura assentes nos velhos protocolos da “intenção do autor”. Gostamos, às vezes com uma disposição quase obsessiva, de pôr as coisas em ordem, de dar “o seu a seu dono” (Nietzsche repetiu vezes sem conta que só queremos saber por medo da desordem caótica – base irredutível do mundo –, as pulsões cognitivas não são, pois, o "espanto" ou a curiosidade).

O Caderno 1 resultou, é verdade, de marcadores de escrita e pensamento provenientes de pessoas singulares. A esperança de vida desta aparente simples encadernação de 67 páginas em “papel Coral Book Creme 80g”, produzido durante o mês de Fevereiro (por proletários indiferentes ao seu valor de uso?), continua, desenvolve os impulsos que certos nomes próprios lhe deram ao desenharem no jogo alfabético um conjunto de ideias, de imagens, de forças, de diagramas emocionais...  Mas isto não é a condição perene da sua existência, sabemos bem que as assinaturas irão esvanecer-se, mesmo que alguns dos que escrevem se tornem famosos. Não, não se trata do esquecimento do nome, mas da libertação do texto, ou melhor, da libertação dos sentidos que ele encerra, sem lhe pertencerem totalmente (às vezes estão lá apenas indícios que ganham um alcance bem para além do potencial suposto). Os textos são sistemas que congregam a ordem e a desordem, tecidos com um conjunto de letras finitas ditando as possibilidades de sentido infinitas, a combinação dos marcadores fonéticos fixos abre para um universo quântico de sentidos. Cabe aos leitores, às vezes bem distantes dos horizontes de expectativa dos autores, introduzir novas significações. Por isso, o ensimesmamento do génio é menos fecundo do que um certo romantismo literário crê. As suas obras podem ser de uma originalidade estonteante (arrasar todos os horizontes de expectativa dos receptores), mas enquanto não forem recebidas, percebidas (embora nunca nos seus exactos termos), suplementadas, adaptadas, parafraseadas, plagiadas… será um génio de gaveta (como talvez haja muitos nos nossos dias, com os quais, por óbvia razão, mesmo os leitores mais atentos não se preocupam). Paradoxalmente mas necessariamente, só depois dos leitores acrescentarem alguma coisa à sua obra genial (e acrescentam sempre, pelo menos os leitores inteligentes, é impossível seguir as pisadas na neve dos autores) pode ela revelar algumas das significações que a compõem. Trata-se de uma estética da recepção onde sentidos vivos acolhem a herança dos textos e um gesto artístico de reescrita os suplementa, dança da intertextualidade que num bom frenesim afaste o conservatismo da cena da vida. O intérprete não reproduz o criador, as suas leituras são, nos suplementos que introduz no texto, outras peças que se acrescentam às anteriores. Uma recepção criadora, em vez de recolectora, um perspectivismo dinâmico insuflando constantemente de vida cada texto, polimórfico e com múltiplas assinaturas. Mesmo a "fusão de horizontes" de Hans-Georg Gadamer, porque se trata de horizontes múltiplos, vive nesta perspectiva.

Autor, texto, leitor, a trilogia produtiva de sentidos, máquina fabricante sem predefinições rígidas. Às vezes frenética, outras lenta ou com períodos longos de hibernação. Nietzsche dizia que só em 2000 seria lido, que não havia na sua época quem o pudesse entender, e tinha razão, “alguns nascem póstumos”. Mas ao mesmo tempo, o que hoje retiramos dos seus textos está por vezes bem longe do leque das suas intenções primeiras (o plural respeita a vontade de obscuridade nietzscheana). Disse várias vezes que dar-se à compreensão era um acto de vulgaridade, mas quis deixar-nos um testemunho, ainda que ambíguo, do que pensava e sentia nesse tempo, um fresco de si mesmo e da humanidade europeia, decadente e niilista, vivendo na proximidade do fim do homem (enquanto humanidade gregária cristã). E nós tomamos a liberdade de o transportar para outros sítios, de acharmos, por exemplo, que ele prognosticou bem as viroses nacionalistas que esfarraparam por duas vezes a Europa (regressam brevemente, cavalgando o Eterno Retorno?). Ou, mais recentemente, de vermos no niilismo ético que nos alienou ao consumismo, o último estádio do Cristianismo Paulino e do Messianismo do Progresso.

Creio, pois, que o Caderno 1 é uma promessa de sentidos, que muitos dos que encerra agora poderão desaparecer (são apenas rastros), que outros invisíveis hoje aparecerão brevemente ou depois de uma moratória de décadas, ou nunca (há potenciais sentidos que nunca emergem, são uma infinita virtualidade inimaginável). O que realmente importa é que o Caderno 1 dê a pensar, ninguém, parece-me, quer instruir ninguém. Pôs-se em movimento uma máquina que já, assim o esperamos, nos largou e começou a trabalhar à sua maneira com a cumplicidade dos leitores.

 

O Cinema no Espaço

    1. A  “teoria” surge, muitas vezes, de onde não se espera.

    Numa das falas de A Hora do Lobo (1968), de Ingmar Bergman, afirma-se que “agora que o espelho se quebrou, é altura dos bocados começarem a pensar”.

    A reflectir, reenviar imagens duplas (ou terceiras), encurvadas sobre si mesmas, em que a linearidade (apenas) aparentemente mimética das suas figuras, se opacifique, deforme, confunda, reconduzindo-nos a uma interrogação sobre a neutralidade e o funcionamento dos dispositivos.

    Em boa verdade, sempre foi assim, nomeadamente no cinema, uma prática das formas, como no início se dizia, “jovem” e, por isso, “secundária” e “segunda”, que, no próprio processo de reprodução do mundo e das outras “artes”, introduzia, na e pela imagem, já uma reinterpretação e crítica do real, assim como dos códigos icónicos que ele traz consigo.

    O  Western americano, como género – pense-se em John Ford (de The Iron Horse [1924], ou Stagecoach [1939], a The Searchers [1956]) ou Budd Boetticher ( de rajada, nos anos 50, Buchanan rides alone, Ride Lonesome, Comanche Station) -, levou por diante, ante os nossos olhos distraídos, uma exposição e reflexão sobre a espacialização do tempo na imagem – em certa media continuando a experiência inovadora do tipo de imagens introduzidas, nas primeiras décadas do século XIX, pelo Panorama-, tal como, para dar o exemplo de outro género (clássico) popular, o cinema de aventuras no mar (Raoul Walsh com Captain Horatio Hornblower [1951], Sea Devils [1953] ou mesmo The World in his arms [1952]), capta a ocorrência do “acaso” (a revolução das coordenadas do tempo e do espaço na continuidade de tempo da representação), elaborando, tempestade a tempestade, o que talvez se possa designar por uma poética do acontecimento.

    É o caso hoje, pensamos, de filmes como Gravity (2013), de Alfonso Cuarón (os seus primeiros 20/25 minutos), e All is Lost (2013), de J.C. Chandor.

    2. Através do longo plano-sequência (numérico-sintético), sem (quase) som, dos primeiros 16 minutos do filme (“a kind of  continuous flow allowed by digital manipulation”, como observa Roger Luckhurst na crítica da Sight & Sound de Dezembro de 2013 [vol. 23, nº 12,p.26]), aprofunda-se  a dimensão temporal do espaço que é como que modulada e varrida pela combinação do 3D (que permite pulsações, crispações e expansões,  projecções  frontais e laterais do espaço) com a sugestão dos movimentos de câmera (um plissado espácio-temporal da massa, contínuo, da imagem, percorrida e movida pelas dobras de correntes interiores que revolvem a sua superfície), de modo a construir a arquitectura de uma atmosfera formal-sensível de significação que podemos associar à 4D do cinema (“Cuarón estabelece um jogo geométrico apaixonante entre um espaço euclideano em revolução permanente e uma câmera panóptica que flutua pelo meio dos objectos num estado de imponderabilização”, comenta Mathieu Macheret nos Cahiers du Cinéma nº 693 [Outubro/ 2013, p. 32]) .

     Deste ponto de vista, o filme de Cuarón –hierarquias de “autoria” à parte – exponencia, dando-lhe vibração e volume, o trabalho de rarefacção e abstracção (mais  bidimensional) de Stanley Kubrick em 2001- A Space Odissey (1968 ): aqui, em Gravity, não é preciso lançar um osso no espaço para passar à alegoria, o “osso”, as extensões da nave/ máquina, fazem já parte do universo do plano (=imagem).     

    No início dos anos 30 – no quadro do fim do cinema “mudo” e da introdução das novas tecnologias do som e do 3D -, Jean Epstein, em dois importantes artigos (“ Le ciné-matographe continue…”e “Bilan de fin du muet”), refere-se  a um tipo (novo) do cinema, que ele designa (enigmaticamente) por “cinema no espaço” (“cinéma dans l’espace”),  uma forma que o ajuda a teorizar a possibilidade da 4D no cinema (algo com que também se preocupa, nesses anos, pensando-a sobretudo em função da Montagem, Eisenstein, nomeadamente no artigo “A Quarta Dimensão do Cinema” [1929], depois inserido no volume Film Form [1949]).

    Para o Epstein desses anos, o cinema permitia ao homem ter “experiências do tempo” (em presença, numa situação semelhante à simulação da realidade virtual: a da sessão de cinema) [I, 250], o que ele associa à 4D da imagem: “o cinematógrafo é o único instrumento actual que regista o acontecimento num sistema de quatro referências” [250], escreve. Por um trabalho de modulação (pela câmera lenta ou acelerada, a sobreposição ou o Grande plano) do tempo na imagem (aquilo que ele designa por manipulação da “perspectiva no tempo” [ibid.]), o cinema seria capaz de, esbatendo as “fronteiras entre os reinos da natureza” dar ou reatar com a unidade da matéria (o “mundo na sua mobili- dade geral e contínua”[ibid.]) e, assim, passar a ou criar um outro estado (superior) da matéria/ real. “Cada imagem traz consigo um instante do universo que reconstituímos no espírito em toda a sua continuidade à medida que decorre a projecção”: o que impedirá então o cinema de “criar o seu aspecto próprio do mundo?”, interroga-se [249].

    Em 1929, a propósito de A Queda da Casa Usher, no texto “A Alma em câmara lenta”, Epstein profetiza: “um dia,  o cinematógrafo será o primeiro a fotografar o anjo do homem [l’ange humain]” (Écrits sur le cinématographe, vol. I, Seghers, 1974, p.191 [em todos os casos, traduzimos]). Ou seja, sabêmo-lo hoje, os astronautas.        

    Mathieu Macheret, no texto dos Cahiers  (“Tombé dans le ciel”), estabelece uma relação entre a queda dos astronautas no espaço e o personagem (narrador) de A Descent into the Maelström de Poe. No entanto, mais do que ao conto de Poe – com o seu vórtice interior à própria matéria -, pelo nosso lado, referir-nos-íamos antes à tentativa de criação, no filme, de um espaço imponderável, suspenso da interacção , não feliz mas fatal (trágica), entre matéria e anti-matéria, homólogo daquele que é pensado por Poe em Eureka (1849).

    Por um lado, escreve Poe, ”na unidade original da primeira coisa encontra-se [já] a causa secundária de tudo, com o gérmen da sua inevitável aniquilação” [9], pelo que o mundo (a matéria), na sua expansão ( e divisão), tende para o desastre, a sua anulação, mas também para a unidade ( a de uma “matéria sem matéria”): “Ao mergulhar na unidade, mergulhará de imediato nesse nada”, “niilidade material”, que contudo pode dar lugar a uma “outra criação” (Coisas de Ler, 2004 [109]).

    Esse espaço de Enunciação autónomo, de imponderabilidade, de expansão das características formais-virtuais da Imagem de cinema, produzindo a partir de si mesmo a sua substância= realidade – na entrevista à Sight & Sound, Cuarón refere-se à construção de uma “caixa de luzes” onde foi metida a actriz, Sandra Bullock, de modo a criar um efeito de imponderabilização e imersão numa luz (homogénea e contínua) “não filtrada”: “we had to work out a system of surrounding the actor with lights on all sides, because the light has to go everywhere, and yet we still needed to be able to get the camera in the actor without the light being in the way”, observa Tim Weber, o responsável pelos efeitos especiais do filme [idem (30)] -,     

esse espaço, escrevíamos, é o de uma “atmosfera”= “bolha  englobante” (pele/ película amiótica de uma nova realidade monstruosa?, pós-humana?), seja esta a de Gravity, ou a do universo (sub)marinho de The Wild Blue Yonder de Werner Herzog (2005) – talvez o “elo” substancial-abstracto que nos permite passar da abstracção figural, sim, mas ainda figurativa, de 2001 de Kubrick, para a desfiguração informal de Gravity de Cuarón (ou pelo menos a sua hipótese, na 1ª parte do filme, antes dele sucumbir ao romanesco e pitoresco da linearidade narrativa do “resgate” da astronauta sobrevivente).

    Nestes filmes, assim, como na Arquitectura dita pós-moderna, confrontamo-nos com uma Imagem = matéria-forma sobretudo trabalhada, a expressão é de Alain Renaud-Allain, como a “detenção [l’arrêt] de um fluxo num caso de figura, mais ou menos robusto” (“La nouvelle architecture de l’image”, Cahiers du Cinéma nº 562, Outubro/ 2003 [71]). Nela, comenta ainda o autor, “ a mecânica dos sólidos subordina-se à  mecânica dos fluidos, a forma ao processo de formação; o sólido constitui um estado possível e provisório do material” e “a forma (…) é uma função do tempo (endurecimento, esfriamento…)” [ibid.].

    Daí que, no cinema, em que o ecrã (mole, líquido, poroso ou maleável) deixa de ser uma “superfície”= “espelho” (2D) para ser um “interface” (3: 4D), surja a noção de uma Imagem-modulação , “já não procedendo de um qualquer estado das coisas [Imagem- movimento > Imagem-rasto (“trace”)], mas da dinâmica das fontes e dos fluxos [uma Imagem in progress: poiesis]”(Renaud-Allain[72]). “Do estatuto de impressão luminosa [“trace” > mimese] de um objecto enquadrado , recortado no mundo, a visibilidade da imagem passa ao [estatuto] de caso de uma figura possível de um fluxo electrónico integralmente controlável e manipulável em cada um dos seus parâmetros (amplitude e frequência, luminosidade e cromatismo)” (sublinhado e parêntesis, nossos ) [ibid.].

    Parafraseando e invertendo a ordem de relação dos termos numa conhecida fórmula de André Bazin (voltaremos a ela), o que estes filmes nos apresentam é a hipótese da matéria como estado estético do cinema.

    3. All is Lost, de J.C. Chandor, com Robert Redford como velejador perdido na fúria dos elementos, é o anti-Gravity.

    À imponderabilização do espaço do filme de Cuarón (por isso, à sua maneira, Gravity pode ser visto como um western cuja “última fronteira” foi projectada no espaço) contrapõe-se aqui – é a fenomenologia do acontecimento (acaso e aventura [vd. latino advenire]) do cinema do mar -  uma lógica= princípio da colisão do espaço e do tempo – é isso o acidente (do latim accidens, verbo accedere), “o que acontece” – que leva à corporização (coagulação e depois explosão), em formas e figuras, de um “abstracto” (seja a noção de “espaço”) que se repercute, em cadeia, na / pela particularidade da massa.

    No “acidente” (aqui, a tempestade), o espaço absorve e fixa (materializa) o tempo, de acordo com uma tensão impossível que o leva a explodir= estilhaçar-se na particularidade da massa (a sua abstracção-concreta) que, no filme, é a forma: figura do cinema.

    Se Gravity pode ter a ver com a via de um pós-cinema, All is Lost  trabalha a massa, profundidade, para cá (o informe) e para lá (o fragmento) da figura: a sua “abstracção” é não a do ar: espaço mas a da água: massa (como em Abyss ou Titanic de James Cameron – pense-se, por exemplo, em toda a parte final de Titanic com a cavalgada wagneriana da massa das águas a invadirem a arquitectura= estrutura do plano e do barco).

    Voltamos, assim, à fórmula de Bazin (extraída do seu artigo “Wylliam Wyller, ou le janséniste de la mise en scène”), a de um cinema concebido como “estado estético da matéria”: uma substância dúctil e  plástica, arquitectura móvel e porosa, pregante ao real, em sintonia com a concepção plástica do cinema elaborada na década de 1920 por  autores como Riccioto Canudo, Élie Faure, Germaine Dulac, Marcel L’Herbier ou Jean Epstein.

    Para  Faure (“De la Cinéplastique”,1922), o cinema, fundamentalmente, “incorpora tempo no espaço” [33] e a sua “forma” (caracterizada pelas modulações da “duração”) pode ser descrita  como um “drama formal precipitado no tempo” [34]. Ao fim e ao cabo, uma matéria-massa, concreta-abstracta, que se podia trabalhar como uma arquitectu-ra maleável de ondas e fluxos aberta ao mundo: “o filme é, antes de mais, plástico”, comenta Faure, “ele representa (…) uma arquitectura em movimento que deve permanecer em constante acordo, num equilíbrio dinamicamente continuado na relação com o meio  e com as paisagens onde [ele]  se eleva e mergulha” [27]. E precisa: “um  grande edifício mutável que, diante dos nossos olhos, renasce constantemente de si mesmo por efeito dos seus poderes interiores e em cuja construção participa a imensa variedade das formas humanas, animais, vegetais ou inertes” (Função do Cinema e das outras artes, Edições texto&grafia, 2010 [36/37]).

    Tudo o que a tempestade, no seu vórtice, novelo, amassa, mistura e transporta consigo,  - essas "prises": capturas do real na imagem -, dá materialidade  e elementariedade a esse estado da matéria de Imagem-cineplástica. 

    Jean Epstein, pelo seu lado, alude a um “estado viscoso da matéria”, a sua morfo(onto)génese líquida (marinha) (vd. Coeur Fidèle, 1923): “espraiando-se no tempo, uma vaga [repetida, au ralenti] gera uma atmosfera de encantamento. O mar muda de forma e de substância (…), entre o líquido e o sólido acaba por se criar uma nova matéria , um oceano de movimentos viscosos, um universo embrulhado sobre si mesmo” (citado por Domique Paini, “La main qui ralenti”, Cinémathèque nº 18, 2000 [14]).

    No entanto,  nesse redemoinho – o filme tende para um ponto de vista que cada vez mais o puxa para o fundo  (o “olho do maelström” [Poe]) – há algo que resiste: um eixo – pense-se no corpo do navegador ou no mastro do barco – simultaneamente de centrifigação – porque por estar lá, vertical na espiral, atrai o desastre – e de fixação (centrípeto) que funciona como um princípio tanto de recalibração das coisas (do seu estado de utilidade e funcionalidade), como da sua possível sedimentação (há sempre promessa de terra em qualquer tempestade).

    Robert Redford é o modelo/ corpo deste cinema que vem dos anos 60/ 70 e que extrema , leva ao limite o conflito do  homem – colocado numa situação experimental instalada pelas imagens – tanto com o real, como com o princípio de figuração (representação) do cinema.

    Deste ponto de vista, via Redford, All is Lost prolonga e continua Jeremiah Johnson (1971), de Sidney Pollack, e a sua imersão do corpo do actor na neve (terra) e paisagem (cf.tb. Men in the Wilderness, com John Huston [autor de uma adaptação de Moby Dick, 1956], de Richard Sarafian [1971]).

    4. Mas uma via, pensamos, não exclui a outra, elas podem mesmo (devem?) intersectar-se para, desse modo, se metamorfosear: alterar (James Cameron?).

    Podemos sempre apanhar um barco para o espaço.