Cegueira, razão e persistência

121. CEGUEIRA

Um homem avançava num passo regular. Um velho ao volante de um carro de luxo lançou-lhe um olhar desconfiado. Uma quarentona à janela de um rés-do-chão espreitou-lhe a juventude desaparecida. Um jovem desocupado encostado a uma esquina, pensou se valeria a pena pedir-lhe dinheiro. Um poeta sentado numa esplanada reconheceu-o e acenou-lhe. O homem continuou a avançar num passo regular.

137. PERSISTÊNCIA

Entrou na rotunda com apreensão e circulou-a com cuidado. Circulou-a, circulou-a e circulou-a. Ainda hoje a circula, à procura de uma saída.

154. RAZÃO

Admirava todos os e poetas e artistas em geral, homens e mulheres capazes de enlouquecer. Ele não tinha essa capacidade, era completamente louco.

GYÖRGY PETRI, Inverno de 80

Tradução de João Miguel Henriques et al.

Terei quarenta e nove
no final da etapa
que agora começa. Não sei
que padrões de cuecas, que bugigangas
estarão então na moda.
Terá passado já muito tempo
desde o tempo em que fui jovem.
Esse homem desgastado
terá ainda compromissos? Quais?
Em que língua
lerá o jornal?
Dormirá com a mesma mulher
que hoje acorda ao seu lado? 

 

FLAN NAPOLITANO

Os satélites azuis giram à volta do átomo, tornam-se cor de baunilha quando adormecem sem deixar de girar. À volta do núcleo são quentes como animais, adoçam a pele que é um começo … À volta do núcleo as células riem-se, como marinheiros na luz molhada. Na rota que fazem, a luz bombeada por um sol interno, um grande sol central. O sangue bombeado pelo coração. A tua pele sabe a luz – dizia Crocodilo mais tarde. Cada vez mais quente a pele procura outra pele: um limite maior, um começo.

 Podia adivinhar a obsessão seguinte e no ato de a prever, evitá-la. Um novo caminho com uma obsidiana quente no bolso. Violeta de Gand vê o homem do outro lado da rua. As manchas (Porquê?) Na pele e debaixo na carne. É uma observadora atenta, está a criar um homem porque o vê. Sente segurança… A corrente do sangue que avança seguro. Na sua respiração sente a respiração do homem que está do outro lado. Debaixo da sua pele os satélites azuis: dançam se o núcleo dançar, fogem se o núcleo fugir, morrem se o núcleo morrer. Riem-se, agora riem-se com mais força.

A tua pele sabe a luz…

 Se giravam à volta do átomo era porque aí queriam estar – o mesmo era dizer que eram completamente imprevisíveis, honestos e livres: entregues aos braços, habitavam o desejo desde o núcleo, soprados de vida – tudo aquilo que gira dentro, que nos liga ao que está fora. Os satélites azuis, nos músculos dos remadores do navio de Argo. Cada estrela, um remador que avança pelo céu e debaixo da pele. A constelação agora debaixo da pele. O navio de Argo seguro na corrente sanguínea.

 Os astros dentro do corpo, só mensageiros de um Sol cada vez maior –A mensagem era só a chegada de cada mensageiro – O chegar seguro de cada mensageiro. A sua rota também mensagem. 

Não diziam nada quando chegavam.

Uma constelação mulher, a luz azul da saia.

Pontilhado o seu corpo no céu. Se ela quiser entrar no barco que avança pede aos remadores que parem.

 Acende um arco iris debaixo da pele. Uma galáxia homem aproxima-se. O fio das estrelas que forma a ereção. A cauda dos cometas mais acesos. Ali uma galáxia autista, minga se ninguém a vier salvar. Os remos do navio de Argo avançam como ambulância.

Quem a lamber dirá que a pele sabe a luz, a uma janela sempre aberta, a suor, a partida, a estrada, ao sal da potência humana. Um olfativo diria: nunca os satélites dançaram tanto - Nunca as células se riram tanto - A mesma dança no corpo, a mesma dança no céu.

Viu-se ao espelho, mas num homem – Quando os olhos são o espelho da alma e os amigos o espelho de deus. Não o vidro trabalhado para refletir, o eco das formas e cores que lhe apresentam. Um homem – Ali à frente, a comer um flan napolitano – Entre uma paragem de autocarros, a banca de um vendedor de batatas fritas. O óleo quente, a ferver – Parece uma explosão. Eu sou aquele (Pensa Violeta de Gand).

Eu sou aquele (enquanto olha para Crocodilo) quero que ele esteja dentro de mim.

Temos países, economia, controlo ideológico da economia, alguém que a controla – Segue leis, ouço as vozes daqueles que as fizeram. Mas quero que ele esteja dentro de mim.

Um pudim negro. Os dentes brancos do roedor – Podia ser uma alegoria – Desenvolvê-la – Ser seduzida pela minha ideia. Aceitar o chamamento de um brinquedo interno e aí ficar – na injeção paralisante, inibidora que é esta minha ideia. Parece que estou a nadar, mas estou a tornar-me uma concha – A pérola sedutora da minha ideia. Fecho-a e neste fechar (ao mundo) não ver o espelho. Fechar lento.

Giro à volta do que quero. Ali a linha dos satélites a formarem um veio azul. A potência do pulso. O meu coração gira à tua volta. E na sedução desta frase adormecer. Prever o futuro é unicamente construí-lo. O homem com manchas na cara é agora o meu espelho. Despersonalização, identificação: O sentimento de pertença a um núcleo… Há um novo animal que seduz: um homem que chamaram Crocodilo. Acabou de sair da prisão. (começa a fábula) Submergem os seus olhos nas águas sujas de uma vida estanque, uma história imóvel, breve, toda a potência bloqueada (uma vida menor). Olhos desvitalizados, seguem um pathos natural que ele parece não controlar: inibir toda a potência, submergi-los, afogá-los numa memória, a consequência natural. Não que se fechem para sempre, só que pareçam sempre fechados – Abertos só para dentro. Eu sou ele (Pensamento de Violeta). Vagueia o Crocodilo entre a barraca das batatas fritas e a paragem de autocarro. Submergido num lago interno. Estanque – comer, ir para um novo sítio, começar do zero. Violeta observa-o. Presa potente, sente os satélites mudarem de cor, vermelho-deserto, giram, giram mais rápido, mudam de cor, na expansão do desejo estão mais quentes - Eu sou a expansão do meu desejo, habito-o. Observa o seu espelho – eu sou ele. As suas manchas na pele (feitas de mudança) – por isso na prisão chamavam-lhe crocodilo. É assim:

Meteu-se com gente errada. Os satélites parados, inibidos – mas agora dança numa água nova – satélites de água giram à volta dos átomos da água – Giram e por isso são água. 
……………………………………………………………………………………
Crocodilo avança por uma estrada que não existia quando ele entrou na prisão (ou então surgiram novas casas, novos locais comerciais e agora não a reconhece). Caminha ninguém o espera. Pode ir para uma casa onde tem familiares num grau afastado, ir a casa de antigos amigos, pedir um emprego a este ou aquele. Vai até à central de camionetas. No caminho vê uma casa pintada de cor-de-rosa, uma cruz no telhado ao lado de uma antena enferrujada (parece um filtro). É um tabernáculo, uma sede de seita religiosa com contornos obscuros, um germinal de fantasmas aborrecidos nas reuniões de domingo. Sai música de dentro do tabernáculo – E na parede está escrita uma frase – És pó e pó voltarás a ser – Crocodilo olha para a frase pintada a negro no fundo cor-de-rosa. Os seus astros aceleram, satélites rápidos, há tanto tempo não sentia isso. Ri-se sozinho, descontrolado, há tanto tempo que não se ria e agora um riso animal, sincero, cheio. A expansão torna-o doentio, ri-se sozinho. (fábulas mas com pessoas, os animais mais honestos – até o falso moedeiro era honesto) e aqui Crocodilo ri-se. Riso paralisante, assimbólico embora dentro dele possamos ver uma alegoria nova. Riso que se torna negro e duro como um pudim negro. Quero comer este pudim com os meus dentes brancos – mas este pudim está fora de prazo. Foi feito no tempo de Homero. E eu com tanta fome. Eu que sou pó e vou voltar a ser pó só quero comer este pudim negro (é o meu destino – procurar todas as trevas – comer os pudins mais negros). Procuro os pudins mais antigos, cozinhados nas águas estanques do Nilo. Germinal de bactérias do Antigo Império. Pudins negros onde não entra a luz, onde não há nenhuma esperança. Pudins obscuros, completamente negros. Preciso de botas negras para comer este pudim. Tenho fome de negro. Posso entrar nesse tabernáculo com um único livro sagrado, carcomido, as páginas amarelas. Obsessão, sair dela. Entrar no templo e trincar os braços gordos dos fiéis - É um crocodilo de instintos rápidos. E ali, a dois quilómetros da prisão, o pastor dessa igreja telefona para a polícia. E no mesmo dia voltar à prisão. Ideia sedutora a da perda. Ou então continuar a caminhar. Começar uma vida nova. Ou então ser pó (e voltar a ser pó) comer o pudim negro feito de pó (o pó mais negro) e a água suja da literatura mais morta. Pudim negro e alegórico de tudo o que é Antigo e mau. O pudim dos erros humanos. O pudim cozinhado pelos piores traidores, falsificadores de moedas, ladrões, piratas alexandrinos, assaltantes de pirâmides, traficantes de relíquias, homens que destroçaram e acabaram com outros homens, o pó mais negro dos homens mais negros. Na parede cor-de-rosa, a frase cada vez mais viva, como um néon bailarino, as letras dançam. Mas Crocodilo – resumo: era um cocainómano, foi preso por assaltar uma carrinha de transporte de valores. À Prisão vinha vê-lo a sua irmã. Uma vez por semana. Trazia-lhe algum dinheiro que dava para continuar a consumir. Mas a irmã trazia cada vez menos dinheiro. Ele fazia pequenos trabalhos, limpar as celas dos outros, ir-lhes fazer recados. Um feudalismo dentro da prisão. E aí começa a fábula, Já estava a dever muito dinheiro. Isso aumentava a dependência. E o aviso, uma semana para pagar. A sua irmã vem, pede-lhe dinheiro, mas não tem. A irmã agora tem de olhar pela vida dela. Não consegue o dinheiro da dívida dentro da semana. Implora-lhe. Nesse mesmo dia vê o que acontece aos que não a liquidaram. Água a ferver em cima do corpo, os devedores castigados no pátio da prisão. O grande balde de ferro. A água a ferver. Os gritos. Falta um dia, está desesperado, amanhã vão chamá-lo. Nesse dia um ultimato, diz que vai fazer tudo, pede mais dois dias. Não consegue dormir. Chamam-no, levam-no para o pátio, despem-no. A partir desse dia e pelas queimaduras com que ficou no corpo, a pele áspera, as manchas para sempre, passaram a apelidá-lo de crocodilo. Mais dois anos e quatro meses e saiu. Aí estava em frente ao tabernáculo religioso. Continuou até à central de camionagem. Entrou num autocarro aleatório. Chegou ao destino. Não reconheceu pelos vidros a cidade onde tinha chegado. Resultava bem. Saiu da central, caminhou pela cidade. Contou as moedas que tinha no bolso. Estava ao lado de uma paragem de autocarro. Viu a vendedora de pudins, na barraca ao lado da paragem. Flans napolitanos, tinha fome, comprou um. Estava com o copo de plástico na mão, o pudim a meio. O pudim da cor do sol. Do outro lado da rua o sangue ri-se ao chegar aos dedos: Antecipa já a chegada de outros dedos. Crocodilo prevê que alguém vem falar com ele. 

Violeta de Gand observa-o - ele sou eu. É o meu espelho, um reflexo, também eu. Ali o crocodilo a comer o flan, Fora de prazo talvez, mas de um passado melhor: um flan renascentista da cor do sol. O caramelo torrado a derreter na boca de Crocodilo. A baunilha parecia drogá-lo. Os satélites de dentro a girarem mais rápido. Do outro lado da rua, a mulher que o observa como alguém que já lhe pertence, que é seu, e vê naquele momento algo que já passou há muito tempo na vida dos dois. O flan napolitano, o seu sabor transformado na memória.

 

*A personagem principal deste texto é desenvolvida no conto: “Crocodilo: Narrativa de duas faces como as moedas do Vaticano” em Créme de la Creme: Porto, 2011.

Contra o optimismo

A base do optimismo é simplesmente o terror.

Oscar Wilde 

I don't believe illusions 'cos too much is real

The Sex Pistols 

§

 Leio algures: «As pedras são degraus de outros caminhos...». Nunca fui muito com este género de ideia. Pedras são pedras em qualquer parte. Não acredito que exista alguém que goste de caminhar por um caminho cheio de pedras. Podem ser muito optimistas e mais tarde pensar que são «degraus de outros caminhos...». Mas, enquanto percorrem o caminho, duvido que não pensem: «Ora aqui está uma boa merda.».

§

Não foi necessário ler Cândido de Voltaire para saber que sou pessimista. O optimismo nunca me atraiu. Sempre o considerei sem sal. E vendo bem as coisas é. Por exemplo: a chamada grande literatura é, toda ela, pessimista. Onde é que existe optimismo nos livros de Kafka, Dostoievski, Céline, Mishima, Hemingway, Faulkner, Cossery, Bernhard? Não me lembro. O mundo é irremediavelmente absurdo e está irremediavelmente condenado. E a esperança? A esperança é outra coisa. Talvez um dia fale sobre ela. Mas não associo esperança a optimismo. Um pessimista pode ter esperança. É possível. Só que a esperança não o cega. Por outras palavras: um pessimista é alguém que tem os olhos bem abertos.

§

Os pessimistas são sempre mais criticados do que os optimistas. Se um pessimista chama a atenção para possíveis obstáculos na vida, há logo alguém que exclama: «Ai! És tão pessimista!». Mas o contrário não se verifica. Ninguém diz: «Ai! És tão optimista!». Ou: «Lá vens tu com o teu optimismo!». Os pessimistas são discriminados. São acusados de ver obstáculos em tudo, quando na realidade isso (o facto de ver obstáculos) só traz vantagens: os pessimistas são mais rápidos a desviarem-se deles. Os optimistas não. Tropeçam, caem, lamentam-se, depois vão ler Paulo Coelho e esperam, com isso, aprender a "caminhar".

§

 Não acredito que a leitura de Nietzsche ou Schopenhauer tenha influenciado o meu inerente pessimismo.  Li-os pela simples razão de estar na moda, de ser aquilo que era esperado de mim. Andar com o Anticristo no bolso de umas calças de ganga rafadas fez milagres junto das raparigas mais susceptíveis. Vestir o preto, também. Mas voltemos ao meu pessimismo. Não sei qual será a sua razão, origem. Sinceramente, não me interessa. Mas sei que é inerente.

§

O meu pessimismo explica-se sem dificuldade: a minha total descrença na bondade humana. É claro que há excepções: conheci, na minha curta vida (trinta e seis anos até ao momento em que escrevo estas linhas), pessoas muito boas, altruístas até à medula (embora ainda não tenha resolvido em mim a questão entre altruísmo e egoísmo, pois considero-os indissociáveis, numa relação simbiótica). O oposto também é verdadeiro: pessoas más não faltam. Conheci umas quantas e suplantam, sem dúvida, as boas. Exemplo: éramos crianças e jogávamos à bola no parque infantil do bairro. Sempre que uma bola ia parar a um certo e determinado quintal, surgia uma faca — vinda não sei de onde  — que a rasgava. Quem é que rasga, destrói, uma bola com a qual crianças brincam? Lá no bairro não havia só essa criatura. Havia uma outra, muito mais cruel, que, para além de rasgar bolas, também cortava as asas às crias dos pássaros que apanhava a fazer ninho nas “suas” árvores e no beiral da “sua” casa. Vi, tudo isso, com os meus próprios olhos.

§

 Se tentasse justificar o meu pessimismo, com uma base filosófica, seria incapaz. Ainda não li o suficiente para estabelecer um “programa” — algo que parece ser muito necessário para resolver tais questões e para que os outros nos levem a sério. No entanto, penso que ele, o meu pessimismo, é indissociável da minha precariedade existencial: saber que a vida é um milagre e saber que ela é um absurdo. Viver nesse limbo.

§

 Pessimismo pressupõe sofrimento? Há quem acredite que sim. Cioran acreditava que se podia ser pessimista sem sofrimento. Para defender a sua posição, Cioran estabeleceu algumas linhas de pensamento. Uma delas é deveras interessante: com as desilusões criar um sistema. O sistema do pessimista é baseado nisso mesmo: nas suas desilusões. É claro que poderemos contra-argumentar dizendo que para ter desilusões o pessimista teve, em primeiro, que ter ilusões. É um argumento válido, com o qual não concordo. A desilusão é, no pessimista, sempre a priori.

 §

O discurso político português (principalmente do Governo e de alguns representantes do Estado) foi invadido pelo optimismo. E isso deixa-me a pensar. Como considero que todo o discurso político é falacioso, considero o optimismo — inerente ao discurso — falacioso. É claro que esta ideia aplica-se, também, a qualquer tipo de optimismo. Pois o optimismo é isso mesmo: uma falácia.

§

 Por que razão o pessimismo? Porque o optimismo assim me obriga. O optimismo (que eu atrevo-me a designar de hipócrita) mais não é do que um mecanismo coercivo. O optimismo, nomeadamente aquele patente no discurso político, só serve um propósito: acalmar a massa, submete-la a uma vontade que é, muitas vezes, pouco clara. Todo o discurso optimista é falacioso. Ao contrário do optimista, o pessimista não recusa a realidade tal como ela é. Assim, ser pessimista, escolher o pessimismo, é um acto de resistência.

NÂZIM HIKMET, EM FRENTE, DE NOVO, AO MONTE ULUDAG

(para Vitor Silva Tavares)

Aquela que traz a lua maravilha-me,
venha ela de Salónica, de Esmirna, ou de Ankara
– fico-me a olhar-lhe a boca, aquela falha
clara que no fio dos dentes lhe ilumina o sorriso,
e sei que não há carcereiros que me tolham o passo,
nem prisioneiros que não possam libertar-se.
A ronda cinge o cárcere, o meu povo, no seu intenso
turco, tenta erguer-se da infrene dominação que o subjuga,
mas, entre os muros, o meu sonho vem dessa lua
que esta mulher me entrega quando ponho
os meus olhos nos seus e escuto o que me diz
como se estivesse a ouvir o coração.

Escuto-a e uma peça de prata toca a minha cabeça,
e assim ando a monte, assim a noite
é um vasto vidro despolido onde transito
quando o silêncio cresce nas masmorras de Bursa
e embranquece cada um dos meus cabelos por esta sedição
inominável. Não, não sou um fugitivo a correr as sete partidas do mundo
– quem me vigia sabe que sou um poeta
e que todas as palavras me pertencem, da Anatólia a Hatay,
de Istambul a Adana.

Ah, em Adana vi o cavaleiro turco
em busca dos mortos, de espada desembainhada, erguia
a bandeira vermelha e perguntava pelos gregos,
os gregos que dormem na terra da Anatólia,
a acusá-los sardonicamente,
porque se deitaram
ao lado dos turcos que morreram
na terra onde as magnólias florescem
sobre os telhados das casas.

Ali recitei o Corão, balouçando-me nos joelhos, para a frente
e para trás, depois do muezim entoar o azan
– que os meus pés descalços, a sua planta calosa,
mostrem por onde andei e como, em menino, ouvi
canções de embalar, poemas mevlevis, e deixei de ser crente
na esperança divina, porque tudo o que faço está para além
de qualquer recompensa, para além do temor do castigo,
e trago comigo um revólver carregado na algibeira das calças,
de que sou incapaz  de me servir, enquanto canto.

Pela causa posso cegar, ficar coxo, estropiado,
submergir pelos piores pesadelos, aguentar os nevões e o frio
da avenida Tverskoi, discutir com o amigo Maiakovski a envergadura dos versos,
ir de Tiflis a Kars, depois a Gálata e Pera, depois a Ankara, a enfrentar
o Tribunal Especial, e ser condenado ao segredo,
essa cúpula de alvenaria no meio da prisão com grades de ferro na janela,
mas sem vidraça, onde o chão é de cimento e neva dentro da cela,
e onde, a qualquer momento, posso voltar ao grande exílio,
posso voltar à avenida Srasnoi, onde bato
os pés sobre a neve e Fédia Seis Dedos, da bacia do Volga,
regateia comigo o tamanho dos peixes como se regateasse
o tamanho da fome dos seus doze anos sujos e esfarrapados,
a quem, com um sorriso, ofereço o meu último cigarro,
a lembrar-me da nudez das coisas, da raiva,
das mulheres de Alepo e de Salónica,
para, por fim, trocar com ele o pequeno peixe
que lhe dei em sigilo por outro um pouco maior.

Vá, agora, pergunta-me quem sou, afirma comigo
que há anjos incaptáveis e que nas estrelas arde o surdo
movimento do mundo, diz que nelas arde o implausível, e aos camaradas
de Esmirna nada mais resta do que a corda em que os enforcaram e os ossos
brancos pelo flagelo da amargura, enquanto eu me pergunto
como se enlaçam os destinos, que rumor magnético das pedras
nos une às platibandas que crescem sobre o mar – dentro das pedras
há pulsações, entranhas vivas, sedimentações de sangue, de humores,
tal como nos homens há alegria e tristeza, e nostalgia,
mas nenhum tirano há que me pacifique,
nenhum déspota com o seu gorro escarlate,
a sua cara estúpida,
as suas 800 concubinas.

Silencioso e concreto, o cavaleiro vermelho avança,
venha ele de Salónica, de Esmirna, ou de Ankara,
e eu, tal como ele, estou em toda a parte, a abrir buracos nas rochas,
a abrir buracos nos buracos, a abrir o peito
à afeição peculiar que me adensa o sangue
e mantenho em favor de quem vai comigo,
e olha a lua,
e sofre da fome universal
dos que nada mais têm que um desconcertante sonho de pão
na aridez implacável do deserto,
o pão que pertence à maioria, mas a maioria não tem
– digo que estamos de costas, que disparam sobre nós quando estamos
de costas, que o tapete está deitado de costas quando dorme,
que a casa, adormecida, está deitada de costas sobre o mundo,
digo que o mundo está adormecido de costas,
tal como as acácias estão adormecidas de costas na calçada,
tal como os olhos das janelas, dos telhados, da luz oblíqua que os toca,
tal como aquela que traz a lua  e me maravilha,
venha ela de onde venha, com a falha clara
na fieira dos dentes a iluminar-lhe o sorriso.

Não nascera ainda e já a miséria me era insuportável, a vaidade asinina

seguia os carreiros de gravilha da Europa, ia Abdul Aziz,
senhor do Império Otomano, ao lado de Napoleão III, em Paris,
e eu via tudo, Abdul Aziz cevava-se
ao passar revista aos vinte e cinco milhares de tropas
no Arc d’Étoile, com as roupas europeias verde-escuras e o fez rubro
na cabeça, com a sua fraqueza, a sua idiotice, a sua ignorância, filho
de uma mãe prepotente, mas chefe de uma grande realeza,
bastando-lhe mover um dedo para mover marinhas e exércitos,
com o poder de vida e de morte sobre milhões, a comer, a dormir
e a espreguiçar-se, enquanto um exército de cobradores de impostos espoliava
o povo, a esborrachar-lhes as caras contra as barras, porque aqui é assim,
um homem rouba um pão e cortam-lhe a mão direita e a perna esquerda,
e pregam-no na praça para servir de exemplo.

Agarro-me ao concreto, estou a nascer,
os meus ossos estão, ainda, em formação,
quando tiver dentes porventura alguém mos partirá,
esta viagem é extravagante, não se sabe
o que decide a sorte de um poeta, serei um cão, uma raposa, uma cegonha,
nunca se sabe o que será um poeta quando alguma coisa falta ao mundo,
e, entretanto, passam uns anos na minha juventude e morre-se,
morre-se de verdade em Gallipoli,
entre os cadáveres dos turcos só há o ar pestilento,
só há as moscas grossas e verdes num enxame terrífico
a sobrevoar os corpos contorcidos, apodrecidos,
enquanto o que resta é só a ignorância dos poderosos,
a sua ganância, a sua sede incomensurável de domínio,
a acomodarem-se em sedas, a encomendar gráceis iluminuras
de minaretes e príncipes, de palmares e princesas,
enquanto a artilharia sobe de tom, sobe sempre de tom,
com os francos e os ingleses a morrerem-nos à frente dos olhos,
embora a nossa derrota pareça iminente e todos acabemos a tirar piolhos
das costuras das fardas e, para os cadáveres que se amontoam,
haja e não haja setenta e duas virgens para nos dar prazer.

Assim aconteceu mais tarde, aquando da invasão dos gregos,
que tudo querem de nós, querem, afinal, Bizâncio, o seu antigo mundo,
querem negócios estes negociadores implacáveis
que são capazes de negociar com quem lhes assassinou a mãe,
querem terras, um nunca acabar de terras que dizem pertencer-lhes,
o incêndio a alastrar em 1922, a fuzilar-nos:
a dominação fará de nós não mais que estrangeiros
na terra onde nascemos, uma terra de sultões e de paxás,
uma terra de linces desapossados de tudo, enquanto, nas trincheiras,
cheira a cadáveres, cheira a cordite, cheira a merda, cheira a mijo e a suor,
e chega ao auge o desejo de matar, nas granadas de estilhaços, no zunido
das balas, no baque das bombas, no seu ronco mortífero, enquanto a realeza,
longe da planície de Divrin, longe dos soldados sem rosto que só o cavaleiro
de gorro vermelho sabe quem sejam, se banqueteia com as escravas
circassianas, georgianas, eslovacas, núbias, e fumam o nagrilé,
e mandam que lhes preparem o banho, o chá de maçã, o café preto,
enquanto Salónica está perdida, e está perdida Esmirna, e Creta, e o mar,
e o mais que nos roubarem.

Eu ardo, afirmo-vos que ardo, pressenti que só se ardêssemos
a treva se dissiparia,
de cabo de guerra a paxá Musfatá Kamal será Atatürk,
herói dos Dardanelos, pai dos turcos, genocida dos arménios,
envio-lhe uma carta para que seja revogada a injustiça que sobre mim recaiu
enquanto homem e cantor resistente, mas não me sento à sua mesa redonda,
serei poeta continuadamente,
a cela é um vasto território de quatro metros quadrados de betão,
um universo para o meu poema e, por isso, todas as noites invento
um sopro para a noite, um sopro ardente,
e nunca há noite,
e sei que não há carcereiros que me tolham o passo, nem prisioneiros
que não possam libertar-se, ainda que me queiram enforcar,
quem sabe se numa árvore igual à de Guernica, calcinada
pelos bombardeiros alemães, ou algum arbusto
rasteiro de Adis Abeba imolado pelos italianos – se escravo sou,
digo que todos os escravos são virtuosos, pedintes, pregoeiros que sejam,
cavaleiros marcados pela guerra e pela morte sob todas as formas,
embiocados na máscara mortuária que a todos consome
e que nenhum dervixe rodopiante pode harmonizar, um poeta,
pese embora a malária e a disenteria, cantará para sempre.

Ah, o negrume da minha cela é luminoso,
os mortos mordem-me os pés, vejo-lhes o coração a bater
nos peitos destroçados, vejo as feras que os consomem e tomo partido,
estudei na universidade comunista e vou na grande onda
que ulula, e berra, e vocifera, e canta – levanto-me pelos mortos,
invectivo as forças obscuras, castigo a infâmia para além do inimaginável,
e o impensável é a queimadura da violência, o rufo das granadas, a rajada
das armas, o estrondo dos tanques, os esquadrões em linha como arganazes
domesticados a degolar à baioneta, a amontoar cabeças em cestos de vime,
a lançar gasolina sobre uns quantos camponeses capturados,
uns quantos deserdados,
a tocar-lhes o lume, a violentar-me,
a mim, que nunca estive na guerra,
mas nela estive todos os dias da minha vida.

Vá, afirma comigo o que ambos sabemos,
diz que és a nuvem que eu sou, que o comboio nos leva,
que batemos às portas consecutivas do mundo,
que depende de nós repartir o pão que não temos,
que os melhores dias são os que ainda não chegaram,
que é fácil esperar pela morte, assim como é fácil
abrir as grades pelo lado de dentro, ainda que pelo lado de dentro,
tal como pelo lado de fora, se possa erguer
um arrazoado de pistolas automáticas e haja carrascos
por toda a parte –  até dentro de ti, montanha.

Ah, aquela que traz a lua maravilha-me,
venha ela de Salónica, de Esmirna, ou de Ankara
– fico-me a olhar-lhe a boca, aquela falha
clara que no fio dos dentes lhe ilumina o sorriso:
e estou em greve de fome, a modelar na prisão
as estacas que se plantarão no globo, e sei que as crianças
levantarão os estores para que a luz circule à superfície da terra,
e com o luar chegue a luz da humanidade;
os estores, tal como as estacas, são negros, tal como a luz que aqui há,
mas em Bursa aguardo como um cargueiro ancorado,
virão as crianças e entregar-lhes-ei o coração,
este pobre coração talvez derrotado pela arteriosclerose,
a nicotina, as dores de fígado, o infortúnio,
mas sempre vermelho como uma maçã, sempre vermelho
nas mãos das crianças que me sorriem do mundo,
crianças já nascidas e crianças por nascer,
enquanto eu morro em Moscovo,
com o luar no rosto, essa luz
que entretece a manhã e vem de ti, amada.