El taller del altozano

La mujer de la vela de cera
carda collares en la tormenta.
 
La mujer de la vela negra,
la del taller del altozano,
mira triste cuando pasa
el tiempo en paño dorado.
 
La mujer de la vela de cera
es rubia en la tiniebla,
levanta metro del suelo
pero es toda raíz en la tierra,
brilla en silencios opacos
y gime cuando navega.
 
La mujer de la vela negra
hace infiel a quien se acerca
y sólo carda collares,
collares en la tormenta.

(Publicado en Mediterráneas, Cáceres, Letras Cascabeleras, 2014.)

Mário Palma Jordão, Idos Tempos de uma Puta

Mário Palma Jordão
Idos Tempos de uma Puta
Novela
Enfermaria 6, Lisboa, abril de 2014, 88 pp.

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“Uma jarra com flores. Pensei em ti durante todo o dia. Um arranjo floral delicado e feminino. Ela não se costumava a aventurar pelo escritório. Aquele era o espaço dele. Limitava-se a arranjar as flores numa ou noutra jarra que mudava daqui para ali. Ele nunca sabia os nomes das flores. Não ligava a isso. Ou ficava bonito ou ficava piroso, pronto. Era com o seu irmão, quando se encontravam ao fim-de-semana, que ela se entretinha a falar de flores e desenhinhos e manicura. Também ela nada sabia, nada ligava às coisas de que ele mais gostava. Ele não sabia distinguir um lírio de uma hortênsia; ela, por seu turno, não sabia distinguir Mozart de Chopin. O fosso entre ambos era imenso e parecia estar em expansão acelerada. Dantes, no meio, estava o amor. E agora? era a pergunta que fazia a si próprio, olhando desfocadamente o futuro.”

Escrever, após o horror

Escrever, após o horror, 
talvez mantenha um homem vivo – 
mas qual o poema das noites brancas 
entrevistas pelas cortinas da sala? 
Diante da janela, o perfil de uma palmeira 
em pétrea imobilidade, uma criança chora, 
descerro a cortina, pressinto o luar 
para lá do prédio defronte, no gramado 
a relva judiada, a persistência dos grilos, 
a sutil, a misteriosa incorporação 
de tudo a um cristal já trincado. 
 
Tenho a ternura. Mantenho-a. 
Sou o mesmo das garapas na praça. 
O mesmo que não recusa esmolas. 
O mesmo das buscas dos gatos da avó 
pelos telhados da casa eterna, 
pisando com cuidado, sentindo ranger 
a telha fria sobre os meus pés 
no instante em que alguém lá embaixo morre. 
O mesmo que temia a porta fechada 
no fundo de um corredor catacumba 
(a mãe alquebrada e eu Pietá 
de um poema desesperado, caminhando por entre 
miasmas de cigarros e culpas irremíveis). 
O mesmo dos poemas que floresciam 
ainda quando não havia um tema, 
ainda quando sequer existiam poemas. 
O mesmo. Mas até quando 
ou ainda no esquife serei o de agora? 
 
 Carrego a ternura como um vaso de flores 
trazido dos lugares da infância 
(a terra apodrecida, as raízes mal cheirosas). 
Digo a ternura com um hálito de palavras mortas 
mas não importa – tenho-a aqui, 
sinto-a embotando os meus olhos com a visão 
de uma centena de negros acorrentados, 
zune-me aos ouvidos como um festim 
de vidas destroçadas; demônio 
dos silêncios pacientes e furiosos; 
aneurisma que me sangra o nariz e os versos; 
gangrena que me amputa a mão esquerda 
(também sou gauche, mas sem anjos tortos 
a me anunciar um fado diferente daquele 
que cai sobre tantos irmãos destros): 
 
pesa-me, enfim, como se fosse cansaço o poema revela-se cascalho 
do caminho íngreme, os passos somam-se 
aos ecos da tarde, prolongados cantos de pássaros 
roucos, há terrenos baldios 
e mesmo casas desabitadas, à espera 
de um homem e seu método. 
 
Pálido poema das noites brancas 
apenas entrevistas por rendas rasgadas: 
és tão lívido, faltam-te riquezas 
mas o que sei? Há quem fale do sol: 
a mim, parece mais a moeda de centavos 
esquecidas nos bolsos de alguma calça: 
paga-me uma garapa nas tardes de sábado 
ou é a esmola que oferto a um esfomeado 
com a ridícula certeza de ser bom.

 

Angústia da exactidão

Próxima das neuroses obsessivas, de que todos os génios produtivos sofrem (em graus e intensidades diferentes), a angústia da exactidão alimenta-se de uma profunda paixão pela ordem (feita exclusivamente de leis cósmicas, bem para lá da condição humana), jogo de escrúpulos irrazoáveis, mania de auto-correcção permanente. Creio que todos os grandes criadores, quer se exponham na música, na literatura, na filosofia, na pintura, na dança, ou noutro qualquer exercício de pensamento lógico-criativo (onde se situam também os cientistas inovadores) foram, de uma ou de outra forma, obsessivos e tendencialmente compulsivos. Quando, por exemplo, Lobo Antunes diz que não pode viver sem escrever, mas que demora mais tempo, muito mais, a corrigir do que a criar a primeira versão, vive, à sua medida, na angústia da exactidão.

Mas a patologia é apenas uma possibilidade, embora a mais extrema. Noutros termos, a neurose obsessiva não é necessariamente o culminar de um processo, onde aconteceria a exaustão de um indivíduo. Na verdade, é o produto da obsessão que vai ditar em que campo ela se inscreve, a obsessão é um pharmakon (remédio e veneno). Se a linha de fuga for a física quântica ou um tratado de filosofia medieval, uma sinfonia completa ou uma instalação minimalista plena de mundo, um romance polifónico de 400 páginas..., isto é, se o produto dessa dedicação integral, dessa fidelidade sem fissuras for uma obra que encerra riqueza suficiente para conjurar a extrema focalização do sujeito num processo criativo, então a patologia habitual dos obsessivos – destruidora de afectos, de ligações emotivas e racionais, da lucidez poética inventiva – não emergirá, ou melhor, dificilmente emergirá. Nos génios (chamemos-lhe assim para facilitar) a produção de obras é a cura homeopática dos impulsos obsessivos negativos.

Noutros registos de vida, menos intensivos, sem a força ou a sorte para fazer nascer algo de extraordinário, também existe esta angústia que ensombra com dúvidas (anti-cartesianas) as coisas que vamos fazendo: aquela vírgula mal colocada que potencia insónias; o conceito que escapou à censura lógica e agora corrompe a felicidade que pensávamos retirar do ensaio publicado; a metáfora gasta, vulgarizada que dissemos nunca mais usar mas que se introduziu furtivamente no poema, impossível de rasurar porque outras exactidões seriam destruídas; um personagem, a quem demos a honra de conduzir a história, incapaz de encaixar na narrativa sem minar o equilíbrio perspectivista; uma nota deslocada, dissonante na partitura, que recusa silenciar-se e corrompe a arquitectura melódica; ou o facto, esse velho evangelho da objectividade, cortado pelo relativismo de uma análise incoerente.

Mas também aqui o resultado feliz, num belo produto, das preocupações exageradas transforma o que destrói no que salva e faz crescer, conduz a uma plenitude que jamais será alcançada através dos gestos codificados da vidinha.

II

Há umas semanas lia uma pequena entrevista de Jorge Silva Melo a propósito de O Regresso a Casa de Harol Pinter para o D. Maria II. Aí pronunciava um magnífico elogio aos seus actores, apelidando-os de “actores exactos” (João Perry, Rúben Gomes, Maria João Pinho, Elmano Sancho, João Pedro Mamede e Jorge Silva Melo). Mas aqui percebe-se que não se trata da “angústia da exactidão”, antes do perfeito domínio de uma arte onde se improvisa pelo menos tanto quanto se representa (repetir um modelo, voltar a apresentá-lo). É a exactidão da criação, como quando Gilles Deleuze no diz que o sentido de um acontecimento não o precede, ele surge à medida que o próprio acontecimento se desenrola. Por isso, este pensador francês prefere ao termo “exacto” o de “anexacto”, um outro tipo de rigor: do estilo e do gosto mais do que da adequação entre o empírico e o ideal, o modelo e a cópia. Também Ludwig Wittgenstein quis nas Investigações Filosóficas, com o conceito de “jogos de linguagem”, mostrar que “o significado de uma palavra está no seu uso”. Neste sentido, a verdade de algo resulta do seu funcionamento dentro de um determinado jogo de linguagem (Mendel não podia estar certo mesmo estando-o, porque o jogo de linguagem dominante da sua época não podia aceitar a sua linguagem quase privada sobre a hereditariedade. Que hoje, num volte-face de thriller, é a que domina). Foucault falará ainda mais claramente em “jogos de verdade”, relativizando com isso a exactidão, visto que a verdade é relativa ao que uma época/cultura considera como verdadeiro. Mas talvez seja mais clara ainda a afirmação de Jean-Luc Godard (brilhante Pierrot le fou), cito de memória: “não tenhais ideias justas, mas somente uma ideia”. Como se desconfiasse, até politicamente, da exactidão das ideias, instrumento várias vezes utilizado ao longo da história para impor a servidão, a quem percorreu a via-sacra para as encontrar e a quem as recebe e se vê obrigado a abdicar da liberdade de as recusar, porque, finalmente, sempre são “ideias exactas”.

Tenhamos, pois, uma ideia, anexacta ou rebelde, excêntrica em relação ao nosso verdadeiro, aos jogos de linguagem da opinião, mais ou menos erudita, deixemo-la emergir evitando as angústias estéreis. É que talvez toda a metafísica do mundo se esgote quando acolhemos o sol sentados numa esplanada à beira-mar.