Vou indo

Eu vou. 
O espelho diz-me então 
que tenho sete vidas (mais não) 
e poderei regressar ainda viva da mina 
de carvão que fica na ponta oeste do 
vale da velha união, onde foi rogada a praga 
da vidente ensimesmada que afastou para sempre 
moças e mancebos da terra de seus pais para 
países longínquos onde becos, esquinas, vielas 
e sinuosidades escuras servem de tronos reais. 
 
O ás de espadas fará as apresentações 
da manilha de anões que, à entrada 
da cave oficial do centro de desemprego, 
filão empregador de jovens muito velhos, 
deverei incorporar: o cordial, o amável 
o estratega, o submisso, o faz-tudo 
o abnegado e o mudo, muito mudo. 
 
A bela adormecida acordou sem 
beijos e já se meteu a caminho, 
evitando a ordem de despejo: 
para o trabalho, eu vou 
eu vou, eu vou. 
 
 
 Nota: A primeira versão deste poema foi originalmente publicada no livro Dívida Soberana (Mariposa Azual, 2012)

Tirbuson

Eu tinha um saca-rolhas, para as garrafas de vinho. Ainda me lembro da cor. Era Bordeaux. O tom escuro de vinho tinto que me agrada tanto. Não tenho a certeza se essa cor muda com o tempo. Isto normalmente é o que acontece com as pessoas. Quero dizer, o tempo muda as pessoas. O pior é que não me lembro como me veio parar às mãos, se foi um presente de um ente querido. Lembro-me que uma vez vi uma faca pequena numa loja velha numa rua chuvosa. De um lado da faca estava escrito: “Talvez a minha dádiva seja uma que é pequena, mas tem cuidado porque se a perderes, vais perder-me a mim também.” Mas eu estava a falar do meu saca-rolhas, o meu primeiro e o único – até aqui – Tirbuson. Não me lembro se o comprei à pressa para abrir uma garrafa de vinho no Verão. Talvez este saca-rolhas me tenha pertencido só porque tive pressa de provar vinho com amigos ou com alguém de quem gostava, mas já não me lembro quem eram. Esta é a minha pena. Nem sequer me lembro se o encontrei na rua, esquecido por outro pessoa ou se o agarrei como um troféu de guerra. E se era uma relíquia de família? No caso de ser “um prémio de bravura”, gostava de saber em que guerra participei. Será que a venci para receber este tesouro? E se sim, quem eram os meus inimigos? Que lado era o certo? Espero que o meu fosse o certo, para que não tenha insultado a vontade de certos deuses zangados.

Read More

Clarividência, Miopia, Sucção, Drama e Hermenêutica

377. CLARIVIDÊNCIA

Um dia teve uma percepção clara da sua finitude. Foi nesse mesmo dia que se suicidou.


404. MIOPIA

Nunca estava maldisposto, os outros é que estavam sempre maldispostos, e, caso estivesse, por mera hipótese, realmente maldisposto, seria apenas porque os outros o tinham colocado nesse estado. 
A verdade, se querem mesmo saber, é que ele nunca estava bem-disposto.

432. SUCÇÃO

Ninguém sabe o que aconteceu e com isto quero dizer isso mesmo. As causas e os efeitos do que aconteceu são por demais conhecidos, o que continua por apurar é o que realmente aconteceu.

460. DRAMA

Dizem-me que não existo e eu nego com veemência que assim seja, todavia ignoram-me. 
Estou cada vez mais convencido que só eu existo.

489. HERMENÊUTICA

A sua escrita é tão intricada que poucas pessoas são capazes de ler os seus livros. Atualmente, com a morte de um dos seus leitores, restam apenas doze pessoas, e a tendência é para esse número diminuir ainda mais.

Selima Hill, «De Visita ao Zoo »

Tradução de Hugo Pinto Santos

As altas girafas nunca podem sentar-se. 
Chamam-se Valerie e Gwendoline. 
Eu sou o reticulado filho delas. 
Isto é a nossa areia e o nosso feno. 
Segue a nossa faixa doirada até à sagrada Tassília, 
loiras borboletas de cauda de andorinha, lebres, algum leite. 
 
És uma linda menina. Ele nunca vai saber 
que estás apaixonada por alguém e que não é por ele. 
 
Selima Hill, My Darling Camel, Chatto & Windus, 1988 

Read More

Da superficialidade

Passamos o tempo a pensar no nosso destino, como se não existisse mais mundo para além da Lusitânia. Há uma obsessão com o passado, um passado mítico e glorioso, e há ao mesmo tempo uma obsessão pela catástrofe. Somos o país da crise, o país que passou pela glória, que degenerou e que agora (desde o século XVI) não tem mais futuro, nem capacidade de se regenerar. Pensamos sobre o nosso próprio destino sem chegarmos a qualquer tipo de pensamento aproveitável para uma regeneração futura. Temos mil diagnósticos e nenhuma solução para o presente. Vivemos o passado e o futuro sem passarmos pelo imediato. Pensamo-nos mas, como dizia Pascoaes, nem filósofos temos, pensamo-nos sofrendo, poetizando, sendo taciturnos e contemplando a catástrofe. Somos a glória de Camões e a desgraça cantada por Diogo do Couto. Perdemos a dignidade em Alcácer-Quibir para ganhar heróis feitos de promessas e de barro. Queremos ser tudo aquilo que já fomos, ou que imaginamos ter sido, e não queremos ser nada, uma vez que nem sabemos quem foram e o que fizeram aqueles portugueses que partiram para o mundo. Temos os mares e encolhemo-nos. Temos a Espanha e preferimos o medo. Explicamos o presente com cinquenta anos de ditadura, qualquer sinal de recalcamento é explicável a partir do célebre ditador. Queremos ser Europa mas preferimos ser um Portugal que ressurgirá das trevas para ser novamente Ceuta. Perdemos tanto tempo a pensar em nós mesmos que não temos tempo para pensar numa relação com o outro. Temos a originalidade portuguesa, somos completamente diferentes do outro, e acabamos sendo nada, caminhando no vazio, esbracejando no nevoeiro, esperando que um Costa ou um Zé nos guie de volta para o ouro e para as especiarias. Ambicionamos a riqueza mas escolhemos a pobreza. Para crescer, cortamos, como se para melhorar fosse necessário sofrer a penitência. Ir de joelhos a Fátima para que um dia um governo baixe os impostos de quem consumiu mais do que devia. Somos o povo com maior número de especialistas por metro quadrado e com a geração melhor preparada de sempre. Infelizmente, nem os especialistas nem a geração melhor preparada são capazes de produzir reflexão e de transformar essa reflexão para a acção, para a transformação da realidade. Falamos acerca da originalidade portuguesa, olhando com fascínio para o que é estrangeiro. Hollande seria o novo Messias, Piketty é o Marx nunca lido. Chegamos ao poder e queremos ser como os ingleses, mas sem deixarmos de ser os portugueses que que cortam não cortando nada. Adoptamos a economia de mercado mas à nossa maneira, criando uma espécie de capitalismo soviético, um mercado que não deixa de pertencer ao estado. Queremos modernizar o ensino, chamamos avaliadores estrangeiros mas não conseguimos sair da bolha, ouvimos sem ouvir, copiamos mal copiado. E todas estas aparentes contradições, todo este egocentrismo resulta numa superficialidade que nos afasta daquilo que é realmente importante: a realidade.