São Luís dos Portugueses em Chamas
/It’s good what’s happening
It’s good what is going to happen
even what’s happening right now
it’s ok.
Zbigniew Herbert, “Maturity”
Away from home: it has been so long since she used a metaphor!
Lydia Davis
O vizinho está a construir uma estufa que há-de tapar a vista da minha janela. A vista dá para uma macieira raquítica, plantada no jardim dele, infestada de piolhos, que só pode ser descrita como um dente podre no sorriso do bairro. Já discutimos sobre isto na reunião dos condóminos, já lhe deixei bilhetinhos na caixa de correio e já o ameacei com uma denúncia ao council. Ele sorri-me educadamente e diz que quando a estufa estiver a prosperar me envia um cesto de morangos. Mas não posso ver a estrutura crescer, a montagem das vigas, mais tarde tapadas pelos blocos de vidro que formam as paredes, a carne a ligar-se aos ossos, sem ter a impressão que isto está a ser feito a partir do interior do meu corpo, como se a estrutura fossem os meus ossos e os meus músculos estivessem a ser substituídos por vidro. Evito meditar acerca deste problema correndo para o pub da esquina, versão de estufa para humanos, a esta hora infestado pelos portugueses do bairro, que, vésperas de natal, se juntam em bandos para recitar, com a fúria tresloucada de um bando de aedos exímios à solta em Delos, a longa lista de tudo o que vão comer e beber na eminente visita à ditosa pátria amada. Introdução ao choque cultural: entrar num pub e ouvir alguém pronunciar a expressão “sande de leitão”. A pesada mão de Rafael cai-me no ombro, “Miúda, valha-me São Luís dos Portugueses em Chamas, tu aqui a esta hora?” Eu pergunto a Rafael se ele tem a certeza que o São Luís dele em vez de estar em chamas não está antes em chagas, é que fazia mais sentido, não, ele diz que em chagas nem pensar, para que raio havia eu de querer um santo em chagas, para mais em quadra natalícia, eu vou a retorquir, sofrimento piedoso, martírio lento, e ele nem pensar, a arder, cá um santo todo escarafunchoso, eu ia acrescentar não necessariamente escarafunchoso, mas ele está à procura do isqueiro e lembro-me de que já tivemos esta conversa antes, é como tentar ter um diálogo com o Minotauro. Os santos de Rafael estão todos de alguma maneira trocados, exceptuando Santa Bárbara, santinha que ele nunca evoca porque trovoada por esta bandas vê-se muito pouco.
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Fotografia de Egídio Santos