"As Abelhas Produzem Sol" de Nuno Brito

traduz tu Ajax ou deus pastoral
a minha sede em água
as linhas da minha vida em rios
da minha medula faz nascentes de ribeiros frescos
— põe dois pastores em cada lado e um guarda-rios
mais a sua família feliz e o doce lar em que habitam
e que eles velem a minha descida pelas montanhas —,
desço por ti, fertilizo-te a terra
dos meus joelhos faz barcos,
das rótulas as velas, dos ossos dos dedos: canoas, o tronco seco
e do meu sopro os que nela andem e que neles remem.

Que os aldeões vejam o rio engrossar o seu leito
na medida proporcional da sua sede
e na medida proporcional da sua sede abram poços,
traduz, pois, Ajax ou deus pastoral os meus olhos negros
em poços fundos, para que eles venham com os seus baldes
beber-me um pouco mais

(...)

As Abelhas Produzem Sol , de que aqui se reproduz um excerto, é o mais recente livro de Nuno Brito, colaborador assíduo aqui na Enfermaria 6. O livro sai sob a chancela da Editora Exclamação e será apresentado no dia 28 de Maio pelas 18.30 no Teatro Rivoli, no Porto. Aqui fica a sugestão.  

Repetição

tudo está às voltas
no lastro de teu gesto 

tudo se repete
num fazer que

descortina: 

compre
uma flor
no mercado
e sê Monet

jardinando em
Giverny – 

refaça
no entulho
de uma casa
o dia que os
mesopotâmios

recensearam
seus deuses
mortos

não basta ao ato
bastar-se a si:
todo agir interpõe

teu agora e teu antes 

voltei-me a mime
parti mais além

fui-me aqui e
assim por diante

– toda tessitura
é a vela na
gávea de Cabral

e o trapo no
torso de
Zumbi –

sê olhar do rei cruel e indigesto
sê o olho que temeu a guilhotina

tudo se repete
num fazer que
descortina 

tudo está às voltas
no lastro de teu gesto

Michael Symmons Roberts, Jairo

Tradução de Hugo Pinto Santos

Então, Deus leva a tua filha pela mão 
e arranca-a do leito de morte. 
E diz: «Dá-lhe de comer, está esfaimada.» 
 
Dás-lhe frutos com exteriores espessos  
– romã, meloa – 
comida dotada de peso, que a mantenha aqui. 
 
Esperas que, se ela comer o suficiente, 
a luz e o pó e o amor 
que tecem a matriz do seu corpo  
 
não se desfiem, nem fiquem tão puídos  
que o sol da manhã a trespasse, 
sem qualquer sombra, completa. 
 
De alguma forma, esta reanimação 
cortou cerce o medo da morte 
o choque da presença. Dá-lhe a comer 

o cordeiro, ovos, pão ázimo: 
põe de lado as ervas, ela tem um doloroso 
jejum a quebrar. Senta-te junto a ela, 

aparta-lhe as peles para que ela possa engolir, 
e repara como a alvorada  
desperta cores no seu rosto recentemente beijado. 

Michael Symmons Roberts, Corpus, Jonathan Cape, 2004 

Read More

False start

O primeiro beijo deles foi na marquise. 
Rezaram depois a primeira missa. 

No dia seguinte, ouvia-se nas paredes, 
tratavam já de simplificar o outro - 
por razões afectas ao clima, 
iriam estar – tinha-de-ser – um tempo fora. 

Tudo tem o seu começo – 
em janeiro, em abril, a meio de setembro. 

Em marquises, 
o que começa, 
tende a anunciar, 
desde logo,  
sonhos perdidos, 
um equívoco, 
uma falsa partida.